A caridade e a vocação do escritor

“Nunca confunda a vocação de escritor com falta de caridade” – palavras da minha leitora Mônica Camatti.

A possibilidade de ferir sentimentos alheios nunca pode ser uma preocupação fundamental na atividade intelectual, pois é da natureza da crítica (e o trabalho intelectual é essencialmente crítico) tocar em feridas que doem.

Por isso, o escritor que se autocensura demais, com a preocupação de não magoar os outros, está limitando seu trabalho imensamente.

O que, de fato, deve balizar sua expressão é a verdade, a relevância, a utilidade e o bom-senso.

Eventuais ressentimentos devem ser considerados como efeito inescapável dessa atividade e, apesar de não dever constituir o fim dela, nem fonte de prazer para o escritor, não pode servir como limitador de seu trabalho.

Portanto, se, quando eu escrevo algo, afeto suscetibilidades, desculpe-me, essa nunca é minha intenção e nem me alegro com o fato.

O único problema é que deixar de escrever não é, no meu caso, uma opção.

Cientistas iconoclastas e o conservadorismo da ciência

Cientistas de mentalidade revolucionária, ansiosos por destruir os pilares da sociedade, são, além de desconhecedores dos princípios de sua própria atividade, altamente contraditórios.

Isso porque o fundamento de toda e qualquer ciência é absolutamente conservador. Por mais que isso soe quase como um insulto às pretensões aniquiladoras dos cientistas e fira seus espíritos iconoclastas, a atividade científica só se torna profícua quando exercida de maneira respeitosa ao que já existe.

O que é a prática científica senão a pressuposição de que há uma estabilidade no mundo que permite com que o cientista repita suas experiências diversas e diversas vezes, muitas delas por um longo período tempo, a fim de comprovar ou ver refutada sua tese? Afinal, se o mundo não oferecesse essa estabilidade, toda experiência seria nova e não se poderia fazer referência às anteriores, pois faltaria aquele elemento de continuidade que permite com que o cientista considere o que foi colhido como válido para suas conclusões atuais.

Além disso, é da prática científica o respeito pelas conquistas das experiências realizadas, considerando-as válidas e tomando-as como base para as experiências atuais e futuras. Não há vivência científica sem isso. E esta é a exata essência de um pensamento conservador, o qual prefere viver sustentado por aquilo que já foi conquistado.

Portanto, quando me deparo com um cientista de pensamento revolucionário, que tem como sua principal motivação o desejo de ver destruídas as conquistas de seus pares, com aquela ânsia por oferecer novidades, como se o papel principal da ciência não fosse, em vez disso, trabalhar sobre o que já existe, ocorrem-me sérias dúvidas sobre sua capacidade técnica, sua inteligência e, inclusive, sua honestidade.

Dilema conservador

O dilema conservador é a tensão entre uma profunda desconfiança em relação ao governo e um respeito pela ordem e autoridade. Dilema que pode se tornar esquizofrenia em alguns casos. É que ao mesmo tempo que ele entende que sem ordem há uma aproximação à barbárie, sabe que o excesso de autoridade leva à tirania. E como é difícil apontar exatamente qual é o ponto de equilíbrio entre esses dois extremos, o conservador pode oscilar entre a exigência de liberdade e da aplicação da força estatal. Encontrar a medida certa entre esses pólos, portanto, é o seu desafio, mas também sua tortura.

A mentira da polarização política brasileira

Não, a sociedade não está polarizada.

Polarização significa a existência de dois grupos bem divididos em dois extremos opostos de pensamento.

A realidade, porém, não é essa. Enquanto entre os esquerdistas há desde os terroristas mais malucos até os centristas mais moderados, na direita, o mais radical que existe é o tio que escreve em caixa alta no Facebook.

Na verdade, chamar a discussão política atual de polarização é apenas uma maneira que os antigos detentores do monopólio da opinião encontraram para desmerecer os grupos mais à direita, que até pouco tempo simplesmente inexistiam no Brasil.

Dizendo que há polarização, eles igualam o direitista conservador ou liberal, que vive meramente de emitir opiniões, com o invasor de terra do MST, com o Black Block ou outro terrorista qualquer de esquerda.

Fazendo isso, elimina-os do debate púbico, como se todos fossem igualmente radicais, tornando legítimas apenas as opiniões do restante dos esquerdistas – os mesmos que tiveram o monopólio da opinião e da ação política até aqui.

Portanto, chamar a discussão política brasileira de polarização é, além de uma incompreensão profunda do que está acontecendo, uma forma de servir bem aos interesses dos grupos que usurpam o poder, no Brasil, há, pelo menos, trinta anos.

Coaching, coaches e o psicologismo popular

Grandes soluções, soluções especiais, só podem ser dadas por grandes pessoas, pessoas especiais. E estas, por definição, são poucas. Portanto, quando essas grandes e especiais soluções são oferecidas por muitas pessoas, é sinal de que, provavelmente, essas soluções não são nem tão grandes, nem tão especiais. Talvez nem sejam soluções.

É isso o que está acontecendo com o coaching. A não ser que se considere que a promessa de desenvolvimento da capacidade de superação dos entraves que impedem alguém de alcançar a excelência em sua atividade específica como algo de pouca monta, quem vai negar a grandiosidade daquilo que ele oferece?

Mas se a promessa é grandiosa, ninguém duvida que é necessário preparo para cumpri-la. Por isso, o mínimo que se espera de alguém que se disponha a conduzir o outro pelas vias até o sucesso é a posse efetiva de conhecimento, experiência, maturidade e inteligência que lhe capacitem para isso.

Tais qualidades, porém, não são universais. Pelo contrário, raros são aqueles que as possuem. Existem, mas são poucos. Por isso, quando constato o número crescente de pessoas que se apresentam como coaches, não tenho como não duvidar que trata-se de um inchaço mercadológico, disponibilizando o serviço de muita gente sem o mínimo de preparo para oferecer aquilo a que se propõe.

Assim, acabam muitos se metendo onde não deveriam, falando do que não sabem e prometendo o que não podem entregar. A não ser que se acredite que esses resultados prometidos pelos coaches possam ser alcançados com meras frases de efeito, fundamentados em um psicologismo bocó, suportados por um freudismo popularesco, tendo como instrumental quase único os recursos da programação neurolinguística e do motivacionismo superficial. Se for isso, realmente, o coaching não é algo muito sério. Se, porém, há a consciência de que ele trata de algo maior, mais profundo e mais importante, não há como não concluir que são poucos os preparados para cumprir o compromisso que o coaching firma com seus assistidos.

O fato é que raríssimos são os coaches realmente conhecedores da psiquê humana, estudiosos nos escritos psicológicos e filosóficos de qualidade, versados na literatura universal que espelha amplamente a natureza humana e com experiência no trato dos problemas humanos mais fundamentais.

A verdade é que grande parte daqueles que se lançam como coaches são pessoas sem a cultura necessária para compreender os caminhos obscuros da alma humana. Além disso, não possuem formação intelectual para montar os silogismos necessários que conduzam à resolução dos problemas que se apresentam. Muitos desses profissionais, inclusive, sequer conseguem solucionar seus próprios problemas essenciais, não possuindo, com isso, a vivência que lhes dê autoridade para resolver questões alheias. Há ainda – e não são poucos – aqueles que encontram-se em condições profissionais e emocionais precárias, muitas vezes até piores das de seus próprios clientes.

Só que o mercado não costuma ser paciente. Assim, para satisfazer uma multidão de profissionais ávidos por solucionar suas crises de produtividade, ele encontra seu material naquilo que está disponível e é imediatamente aceito pela massa, a saber, a crença popular na eficácia da psicologia comportamental, na neuropsicologia e na PNL como fatores impulsionadores para o desenvolvimento da excelência humana.

Assim, com exceção de pouquíssimos profissionais realmente competentes, preparados e experimentados para ajudar seus clientes a desenvolver-se profissionalmente, a regra entre aqueles que se denominam coaches é não fazer mais do que replicar slogans intelectualmente pobres, repetir lugares-comuns da psicologia popular e permanecer completamente ignorantes em relação aos fundamentos necessários para uma empreitada tão gigantesca como a de fazer uma outra pessoa superar seus obstáculos pessoais, muitas vezes enormes.

Porém, como para uma sociedade epidérmica o que geralmente importa é menos os resultados e mais a sensação de que as coisas vão bem, criou-se, com isso, uma indústria que se retroalimenta de promessas e esperanças, de onde todos acreditam virá a solução para seus problemas, ainda que essa solução pareça sempre estar em algum momento distante. Mas, o que isso importa? Se todos sentem que algo importante está sendo feito, isso basta para que motivem-se mutuamente e fortaleçam esse mercado.

Com isso, essa máquina de superficialidades vai crescendo, turbinada pelo combustível ilimitado de clichês, de pressuposições psicológicas e de slogans motivacionais. E como quase todos os envolvidos nesse negócio não estão preparados para compreender o que está acontecendo, absorvem toda essa parafernália de trivialidades como se se tratasse da mais valiosa sabedoria universal. E como “a ilusão de compreensão é mais importante para a grande maioria dos seres humanos do que a compreensão em si“, como diz Darlymple, todos acabam acreditando que estão entendendo alguma coisa, quando, na verdade, estão apenas repetindo as frases de efeito que tomam o lugar da verdade.

Basta observar como todos os coaches baseiam-se sempre nos mesmos pressupostos de crenças limitantes, estados desejados, ressignificação e outros, que fazem parte do arsenal mais raso da psicologia comportamental, para perceber que esse grande mercado é um enorme bolha de ar, ainda que cheia de dinheiro dentro dela.

O fato é que nesse mundo do coaching o que mais se vê são cegos guiando outros cegos, todos caminhando juntos, felizes e motivados, em direção à parede da realidade, que sempre se interpõe entre os sonhadores e seus objetivos.

Como consequência, vai aumentando o número de pertencentes a uma geração de gente frustrada, que acreditou nas promessas vazias das soluções psicologistas e que, no fim, por elas mesmas ou por imposição implacável da vida, vão se deparando com a verdade da complexidade da existência, que, aliás, costuma cobrar muito caro daqueles que acreditam em caminhos curtos e atalhos atraentes.

Se tudo isso vai acabar levando a indústria do coaching ao seu colapso eu não sei dizer. Até porque a imbecilidade humana é bastante profícua para servir de ração às grandes idiotices, por um período muito longo de tempo.

Um desafio aos revolucionários

É muito fácil criticar a civilização com a bunda sentada sobre as conquistas que essa mesma civilização proporciona. É cômodo colocar-se como um opositor do capitalismo, manifestando-se pelos meios super eficientes que o capitalismo criou para isso.

O pior é que quem se coloca como crítico sempre aparece como se estivesse em uma posição superior, como um juiz do mundo moderno, assumindo uma postura de quem possui as soluções para os problemas que insiste em apontar.

E, cinicamente, se manifesta, aproveitando de todas as benesses que a sociedade oferece, com todo seu luxo, seu conforto e seus instrumentos.

Por outro lado, quem se mostra satisfeito com o que existe acaba sendo tachado de inimigo da humanidade, como alguém insensível, elitista e retrógrado

Porém, é certo que não cabe a quem defende a ordem social existente, ou seja, os conservadores, o ônus de provar que ela é boa.

O fato é que todos nós vivemos sob essa ordem e, bem ou mal, é ela que tem nos sustentado. É nela que nos manifestamos, nela que progredimos, nela que construímos nossa vida. E nada disso seria possível se ela não nos oferecesse nenhum recurso que nos possibilitasse tudo isso.

Por isso, antes de tecer críticas à civilização na qual vivemos, é preciso reconhecer que ela nos tem permitido viver. Antes de achar que tudo deve ser colocado abaixo, é preciso identificar o muito que deu certo e está à nossa disposição.

Portanto, se alguém deseja substituir a civilização existente, antes de tudo, precisa mostrar, com argumentos racionais e elementos palpáveis, e não com quimeras, as razões por que ela não serve e como tudo poderia ser melhor. No entanto, isso, essas mentes revolucionárias jamais conseguem fazer.

A impopularidade do liberalismo econômico

O discurso do liberalismo econômico não possui nenhuma chance de tornar-se popular. E como ser popular se o que ele propõe vai contra os anseios imediatos e necessidades prementes das pessoas?

Até porque, de fato, o liberalismo não promete nada de concreto, a não ser o uso livre da faculdade que cada um possui de buscar seus objetivos, com o mínimo de intervenção governamental. E como alguém pode afeiçoar-se a um discurso desse tipo?

É muito mais fácil, e até mesmo intuitivo, sentir-se atraído por promessas de ganhos imediatos, de direitos adquiridos e de proteção estatal. Faz parte até de um certo instinto de sobrevivência buscar a tutela de quem lhe parece mais forte e capaz de lhe dar guarida.

Entender que o que é dado com facilidade hoje cobra seu preço amanhã requer já uma certa capacidade de compreensão que não está imediatamente disponível a qualquer um. Saber que sacrifícios são necessários para conquistas posteriores é uma verdade que naturalmente as pessoas tentam evitar e quem a apresenta costuma ser mal visto.

Mais ainda, entre a oferta do sustento imediato e a mera possibilidade de um ganho futuro, quase todo mundo acaba decidindo por aquela, sem pestanejar.

O fato é que para entender e apoiar a ideia liberal é preciso um grau um tanto mais avançado de cultura, um pensamento desenvolvido ao ponto de vislumbrar a realidade em uma perspectiva mais ampla, que não considera apenas o presente, mas principalmente as implicações das escolhas de agora no futuro.

É por isso que o liberalismo sempre vai ser defendido por um grupo pequeno de pessoas e terá sempre essa aparência elitista. É por isso também que priorizar o discurso liberal para vencer eleições, principalmente em um país com deficiências culturais graves, é jogar para perder.

Economicamente, é bem provável que um liberalismo amplo e radical seja a solução para o Brasil, porém, politicamente, se ele não vier acompanhado de propostas que sejam mais populares e o sustentem, como a defesa da família e o direito ao porte de armas, estará condenado a ser apenas uma boa ideia, porém sem apelo.

Lamento, apenas, que muitos liberais não percebam isso.

A natureza espiritual maligna do marxismo

O marxismo é, de diversas maneiras, uma usurpação e uma paródia mal feita tanto da religião cristã, como da própria civilização ocidental. O que ele fez foi tomar tudo o que nosso mundo criou e desenvolveu e reter com ele, como se ele, o marxismo, fosse o possuidor legítimo de suas qualidades.

Foi dessa maneira que ele se apropriou da linguagem cristã, de sua moral e também de seu caráter salvífico, tentando substituir o cristianismo como solução viável para as necessidades e expectativas do ser humano. E tomou para si ainda o que a própria Europa ofereceu ao mundo, arrogando-se de herdeiro de suas conquistas. Tanto que, nas palavras de Lenin, “o marxismo é o sucessor natural da filosofia alemã, da economia política inglesa e do socialismo francês”.

Formou-se assim, respectivamente, o espírito, a alma e o corpo dessa entidade maligna que surgiu para enganar o mundo com sua promessa de redenção.

Quem acha que o marxismo é apenas uma ideia, engana-se redondamente. É bem mais que isso. Ele é uma manifestação espiritual, um produto dos tempos, um filhote de um cristianismo cansado e desiludido.

Por isso, atacá-lo apenas politicamente é tão inócuo como querer derrotar um demônio a vassouradas.

O espírito marxista precisa ser encarado em várias frentes, como ideia e como força política, mas também como poder invisível e sutil, o qual se vence com palavras e força, mas também com inteligência, jejum e oração.

A extinção dos antigos formadores de opinião

Cada vez menos os emitidores de opiniões presentes na grande mídia têm influência sobre o restante da sociedade.

Ouvi-los falando sobre os mais diversos assuntos, sobre os quais, na maioria das vezes, não entendem nada, é quase como que assistir suas peças de ficção: é uma mera experiência de observação, que não levamos em conta para além das portas do teatro.

De alguma maneira, na internet as pessoas encontraram aqueles que possuem uma visão de vida semelhante a delas e puderam com isso se libertar do palavrório falso e irritante daqueles que, até aqui, tinham o monopólio do discurso.

Hoje, esses pretensos intelectuais formadores de opinião estão se transformando em uma espécie exótica, que pode até servir para divertir as pessoas, mas, cada vez menos, o que dizem pode ser levado em conta seriamente.

E o mais interessante disso tudo é que, como animais que percebem o perigo que ronda a sua espécie ficam, a cada dia, mais ariscos, mais propensos a se afastar do perigo que representa a civilização verdadeira, fechando-se em seus bandos, alimentado-se e protegendo-se mutuamente, lutando desesperadamente contra sua própria extinção.

Deixemos, portanto, que vivam de suas próprias migalhas, mas não joguemos comida aos animais, nem permitamos que usem do dinheiro que arrecadam de nós para sustentá-los.

Revolta contra Deus

Quase toda a revolta contra Deus não passa de uma birra juvenil.

Da mesma maneira que o adolescente enxerga nos pais o reflexo de sua própria impossibilidade, pois eles são, ao mesmo tempo, seu limite e seu freio, o revoltado vê em Deus sua própria insignificância e pequeneza, o que para seu ego inseguro lhe é insuportável.

Quase todo ateísmo não é mais do que uma expressão obsessiva por mostrar-se independente, tentando deixar claro para todo mundo que não vive sob as asas da autoridade divina.

É um esforço infantil por apresentar-se como dono de si mesmo, como senhor de seu próprio destino, como alguém que não precisa dar contas a ninguém.

Sempre quando vejo um ateu, lembro-me de minha adolescência, quando ameaçava meus pais de que iria sair de casa, arrumando minha mochila velha e enchendo-a com minhas tralhas inúteis.

No fundo, eu sabia que, por mais que eu os ameaçasse, por mais que eu reclamasse de sua suposta opressão, por mais que eu dissesse que queria minha liberdade e viver minha própria vida, lá no fundo eu sabia que dependia deles para tudo e que toda minha demonstração de rebeldia era apenas uma forma de sentir-me senhor de mim mesmo. Restava, então, se trancar no quarto e praguejar.

Os ateus militantes que me desculpem, mas eu não consigo olhar para eles e deixar de ver apenas crianças rabugentas, que batem os pés, que choram, só porque não podem fazer todas as besteiras que têm vontade.