Um contraste desnecessário

Para quem acreditava, como eu, que o Luiz Philippe Orleans e Bragança era o vice ideal para a candidatura de Jair Bolsonaro, sua preterição, em primeiro momento, pareceu um grande erro.

O príncipe, com suas qualidades pessoais, como sua erudição, sua polidez e sua aparência, parecia ser a pessoa perfeita para compor a chapa com um candidato tido, na imaginação de muitas pessoas, como um militar bronco, mal educado e de capacidades intelectuais limitadas.

Tudo isso levou muita gente a esperar que a escolha de Luiz Philippe – a qual, aliás, havia sido dada quase como certa pelo próprio Bolsonaro -, além de ser a mais óbvia, cairia como uma luva para quem tem como desafio conquistar uma parcela do eleitorado que ainda tem algumas suspeitas sobre sua capacidade e temperança.

No entanto, analisando em retrospectiva, posso dizer, com segurança, que a escolha, para a vice-presidência, por um general, com imagem de ser linha-dura, de aspectos rudes e de uma patente militar superior, foi a mais inteligente, considerando o aspecto persuasivo dos efeitos dessa decisão.

Isso porque deve-se levar em conta que, a maioria das pessoas, não decide em quem vai votar por meio de um processo totalmente racional. Pelo contrário, há muito de empatia, simpatia e identificação que determinam essa escolha e que são racionalizadas depois.

E, em relação à percepção, há ainda a força do contraste, que é, invariavelmente, determinante para discernirmos se algo é bom ou ruim, bonito ou feio, caro ou barato. Saia com pessoas mais feias que você e certamente irão começar a achar que você é bonito, de alguma maneira. Saia com as mais bonitas e você será tido por feio. É assim que reagimos, sempre.

No caso de Bolsonaro, a escolha do príncipe, apesar de trazer um elemento de nobreza e distinção à campanha, com muito mais certeza apresentaria um contraste que poderia ser fatal para ela. Ao lado de Luiz Philippe, Bolsonaro pareceria mais bruto, menos inteligente, menos cordial. Ao ver o capitão e o príncipe lado a lado, mais do que forças adicionais, os eleitores perceberiam um contraste marcante, o que faria com que aquelas características do Bolsonaro que precisariam ser aliviadas, a fim de conquistar uma parcela dos eleitores indecisos, fossem, na verdade, realçadas.

Com a escolha do general acontece exatamente o contrário. Ao lado de Hamilton Mourão, Bolsonaro parece mais moderado, mais educado, mais palatável às mentes mais sensíveis. Com um general ao lado, o capitão soa muito menos agressivo e, assim, muito mais aceitável aos olhos de quem ainda não se decidiu por ele.

Por isso, a escolha do general, em vez do príncipe, para a vice-presidência, pode ter sido uma grande jogada feita pela campanha eleitoral de Jair Bolsonaro.

Do trivial ao escândalo

Era o horário de meu almoço e eu estava no restaurante, na fila para pegar minha comida, quando, no televisor acima de minha cabeça, passava o jornal de notícias da Rede Globo, bem no momento em que eles mostravam o General Hamilton Mourão, candidato à vice-presidência de Jair Bolsonaro, citando um lugar-comum conhecido da mentalidade brasileira: de que somos herdeiros dos defeitos ibéricos, indígenas e africanos, ao mesmo tempo.

Neste momento, uma senhora, que devia estar na faixa dos sessenta anos de idade, sentada a uma das mesas, já comendo sua refeição, olhou-me, com um olhar aterrorizado, como buscando em mim um cúmplice de sua revolta. Eu, obviamente, quando percebi seu intento, desviei meu olhar, para que a conversa – que sei bem onde iria parar – nem começasse. Ainda assim, pude ouvi-la dizendo, com uma voz indignada, a palavra “absurdo”.

Interessante tal reação – a qual, de maneira semelhante, pôde ser percebida em diversos setores da sociedade – pois, ainda que não se concorde com o que o general disse, seu discurso não se encaixa exatamente naqueles que podem ser considerados, imediatamente, como absurdos. Ainda que seja uma tese bem contestável, não é tão estranha a ideia de que os problemas de nosso povo se devem, em grande parte, ao tríade legado deixado pelas culturas que lhe serviram de formação.

O que mais me surpreendeu, ainda, foi ver que mesmo intelectuais de direita têm se manifestado pela absurdidade da declaração, transformando algo que é, no máximo, contestável, em imediatamente condenável. No melhor estilo dos tempos atuais, escandalizam-se com o que nem é para tanto.

Tal reação, com efeito, evidencia dois problemas: primeiro, mostra o quanto a mídia é capaz de forjar o imaginário da população. Como neste caso, transformando uma declaração – que, até algum tempo atrás, era considerada trivial – em algo quase criminoso. O segundo problema acontece na própria ciência (principalmente, nas ciências humanas, mas contaminando também outras áreas): que é a proibição expressa de discutir-se determinados temas, apenas por serem considerados inconvenientes ou sensíveis a certos grupos. Assim, cada vez mais assuntos vão sendo jogados para debaixo do tapete, cristalizando suas conclusões, não com base naquilo que a própria ciência alcançou, mas apenas pelos ditames do politicamente correto.

Sinceramente, eu não saberia dizer, com certeza, se as declarações do general estão completamente equivocadas. Tenho a convicção de que nossa sociedade possui qualidades e defeitos desenvolvidos dentro de nossa própria trajetória peculiar, mas que também alguns deles são fruto de nossas heranças culturais. É bem provável que a afirmação do senhor Mourão seja uma síntese simplista de toda a questão. Porém, tratar isso como algo indubitavelmente indecoroso é uma resposta exagerada, senão histérica.

Velhos heróis, velhas raposas

Aqueles que direcionam a agenda cultural e política do Brasil, mesmo após mais de três décadas do fim do governo militar, insistem em lançar-se em um revisionismo histórico daquele período, mantendo uma obsessão por mostrar ao público o quanto os militares eram maus e eles mesmos, os revolucionários, vítimas perseguidas. Em vez de olharem para a frente – o que seria esperado de quem está no poder há, pelo menos, vinte anos -, insistem em permanecer com a mesma retórica e o mesmo discurso do tempo em que eram guerrilheiros, quando lutavam contra o poder constituído.

Essa atitude, porém, não ocorre pelo sincero objetivo de passar a história a limpo. O que eles querem, ao não permitir que 1964 termine, é manter viva a narrativa montada naquela época, pela qual são apresentados como heróis, mesmo que fossem meros guerrilheiros. O objetivo é, principalmente depois que ficou comprovado o quanto suas ações no governo foram caracterizadas pela corrupção e pela destruição das instituições do país, manter uma imagem positiva, não deixando que aquela aura heróica seja esquecida.

Não que tenham sido heróis de verdade – muito pelo contrário! – mas essa tem sido a história contada por eles mesmos aos brasileiros. São, pelo menos, três gerações que cresceram ouvindo que aqueles militantes – muitos deles terroristas –  lutavam pela liberdade e pela democracia enquanto eram caçados pelos malvados militares.

Só que o tempo passou, e os velhos ativistas tomaram o governo. E ficou claro que esses hoje velhos e decrépitos não passam de corruptos sedentos pelo poder. Assim, a única maneira de salvar algum tipo de admiração por eles e manter sua influência no debate político e intelectual acaba sendo não deixar que a velha narrativa morra.

Isso explica essa insistência por, em pleno encaminhamento para o final do primeiro quarto do século XXI, ficarem resgatando as histórias de quarenta ou cinquenta anos atrás, como se o país não tivesse mais nada com que se preocupar senão com os fatos ocorridos naquele tempo.

O que está claro é que o Brasil precisa olhar para a frente, mas está sendo impedido por essa gente que nos prende ao passado, com o único intuito de sobreviver, eles mesmos, como personagens relevantes da cultura brasileira.

Já passou da hora de superarmos essa situação, mas isso só será possível superando as velhas raposas que insistem em manter-nos presos no tempo, apenas para continuarem dando as cartas na política do país.

Os grilhões que nos prendem

Um país que pretende superar suas mazelas e ingressar de vez em tempos de prosperidade e estabilidade precisa olhar para a frente, tomando o passado como lição, mas não como o determinador de todos os seus caminhos.

O Brasil, porém, está com uma bola pesada amarrada aos pés, enquanto seus formadores de opinião e políticos vivem como se ainda estivéssemos nos anos sessenta.

A geração que hoje representa a intelectualidade influenciadora do seio da política nacional e a grande mídia é formada toda por ex-guerrilheiros e combatentes de esquerda que, vendo a si mesmos como guerreiros contra uma ditadura, consideram-se os personagens responsáveis pela restauração da democracia no país.

A consequência direta disso é que , ao mesmo tempo que apresentam-se como os paladinos do Estado de Direito, perseguem aqueles que se encontram do outro lado do espectro político – conservadores, militares, direitistas e anti-esquerdistas – como criminosos.

Com isso, assumem o monopólio da política, abrindo a possibilidade para que aconteça o que testemunhamos nas últimas décadas: a dilapidação do patrimônio e a corrosão das instituições brasileiras.

E para que esse status permaneça, preenchem a todos os espaços da República, afastando a qualquer um que ameace suas posições. Fazem isso não deixando que o período do governo militar brasileiro, com a mentalidade característica daquele tempo – de jovens ativistas deslumbrados com as falsas promessas de um paraíso comunista lutando contra generais toscos que sabiam que sua missão era não deixar o país seguir os mesmos caminhos de Cuba – passe.

O que ficou hoje, depois que os antigos militares já não estão mais entre nós, são aqueles garotos e garotas militantes, agora decrépitos e envelhecidos, infiltrados em todas as esferas do poder, sem conseguir, nem querer, superar 64 – e menos ainda 68 – vivendo quase exclusivamente pelo desejo de vingança e ressentimento, acreditando-se possuidores de um salvo-conduto que lhes permite falar e fazer todas as barbaridades.

Por isso, tenho a convicção de que enquanto essa geração de órfãos da Guerra Fria não passar ou, pelo menos, for derrotada política e intelectualmente, o Brasil não conseguirá seguir em frente. Ela é nosso retrocesso, o nosso impedimento, os grilhões que nos impedem de prosseguir.

Enquanto forem essas pessoas que ditarem a pauta política e determinarem a agenda do país, ficaremos reféns de sua visão retrógrada e impossibilitados de avançar como povo, como nação e como sociedade.

Aliados inconfiáveis

Eu não confio em quem vive apenas de críticas a um certo tipo de pensamento, mas nunca deixa claro o que realmente pensa. Não acredito em quem demonstra muita coragem para atacar ideias alheias, mas afrouxa quando é instado a revelar as suas.

Isso por que esses críticos, enquanto os adversários coincidirem, podem parecer seus melhores aliados. No entanto, basta os adversários comuns serem derrotados para eles, ao vento das circunstâncias e dos interesses, virarem-se contra você.

E, quando isso acontecer, eles estarão em uma posição vantajosa. Porque a primeira regra da honestidade intelectual é revelar de que lado você está, o que defende, no que acredita. Como esses críticos sem rótulos nunca fazem isso, no momento que eles se virarem contra você terão todas as vantagens estratégicas de quem conhece em detalhes o inimigo, enquanto as características deles mesmos – no que acreditam, o que querem, o que defendem, em suma, seus pontos fracos e fortes – ficam camufladas.

No fim das contas, é muito melhor brigar contra os aloprados ideológicos que, a despeito de toda maldade, pelo menos são o que são, do que contra os falsos aliados, que, no momento que você precisa deles, não os encontra ao seu lado, mas prontos para apunhalar-lhe pelas costas.

Siga o dinheiro

O que motiva empresas privadas como Facebook, Globo e Folha de São Paulo a atuar constantemente contra os interesses de boa parte de seus consumidores diretos? Enquanto o jornal impresso tem vivido de fazer campanha descarada em favor de seus políticos preferidos e o canal de televisão não cansa de afrontar a moral do povo com o levantamento de bandeiras que deixam felizes apenas uma parcela muito pequena da população, a rede social entra com tudo na disputa política e, simplesmente, exclui páginas de pessoas que unicamente defendem ideias que têm o aval de milhões de pessoas.

Não esqueçam que, antes de tudo, essas são empresas privadas que sobrevivem de lucro. Quando vemos elas, contudo, tomando decisões que vão diametralmente para o lado oposto do pensamento de seus próprios clientes, só podemos concluir que só pode haver alguma fonte de renda que, para elas, é muito mais interessante do que o que podem obter diretamente de quem consome seus produtos. 

Só é possível concluir que há financiamento pesado e direto feito por entidades metacapitalistas e supranacionais. Está claro que tem gente colocando dinheiro grosso nessas empresas, de maneira que, para elas, valha a pena menosprezar os próprios consumidores em favor de ideias e bandeiras que firam esses mesmos consumidores frontalmente.

Para entender tudo isso, o conselho é: siga o dinheiro e você entenderá muita coisa.

Críticos flatulentos

Uma crítica honesta, principalmente no campo político, deve apresentar ao menos um vislumbre de uma solução viável para o problema. Sem isso, não passa de manifestação de preferência ideológica ou desafeição pessoal.

Ainda assim, a maioria dos críticos políticos, principalmente aqueles mais ácidos, tornou-se especialista em apontar problemas abstratos, ignorar as contingências concretas e imiscuir-se de oferecer qualquer solução alternativa. Escondem-se por detrás de palavras que soam bem, não dizem absolutamente nada e, pior, não propõem nada de concreto.

Essa atitude tem se manifestado de forma contundente no caso das crises imigratórias pelo mundo e, principalmente, das tentativas norte-americanas, por meio de seu atual presidente, de racionalizar e conter a imigração ilegal. O que mais se vê desses críticos são manifestações de almas escandalizadas, que adotaram os imigrantes, sejam eles quais forem, quais sejam suas intenções e quais forem as maneiras como eles empreendem sua imigração, como sendo os novos judeus diante de uma perseguição às avessas colocada em andamento por governos tidos por esses críticos como fascistas insensíveis, como o dos Estados Unidos.

Parece até bonito ler, por exemplo, um Leandro Karnal escrevendo que “entre a utopia pouco praticável de escancarar fronteiras e a ideia de uma muralha xenofóbica, poderiam existir soluções equilibradas”, mas o fato é que manifestações desse tipo, observadas com mais cuidado, revelam pressuposições mentirosas, que servem apenas para desviar a atenção do leitor do verdadeiro problema, apresentando-se como a parte racional, fingindo oferecer uma solução equilibrada que, na verdade, não existe.

Quando ele contrapõe as ideias de fronteiras escancaradas e muralhas xenofóbicas, na verdade, não está contrapondo ideias verdadeiramente defendidas por gente real. Poucos são os loucos que advogam a abertura irrestrita das fronteiras, como todos sabem que fechá-las completamente é impraticável. Portanto, o senhor Karnal está batendo em espantalhos, criados por ele mesmo, não em agentes políticos reais.

Há no entanto, em sua afirmação, uma crítica sutil, que não vai contra quem supostamente defenderia as fronteiras escancaradas – que ele bem sabe, são pessoas politicamente irrelevantes – mas contra o governo americano. Ao fingir revelar dois opostos sobre um mesmo tema, contrapõe um grupo não identificado e até irreconhecível, contra um governo existente e imediatamente identificável, passando a ideia de que, se aqueles estão errados, este também está, por ser xenofóbico e não querer permitir a entrada de estrangeiros de maneira alguma. O problema é que os primeiros não são ninguém, de fato, enquanto o segundo todo mundo sabe quem é. Ao apresentar essa falsa dicotomia, o senhor Karnal, simulando uma crítica universal, atinge o único alvo realmente verificável: o monstro fascista e isolacionista que quer fechar o seu país em um domo inexpugnável.

Na verdade, me parece que o objetivo do historiador é somente esse mesmo, afinal, a solução que ele finge apresentar não passa de uma bolha de ar que – algo típico de seus escritos e pensamentos – não significam nada, além de belas palavras. A não ser que alguém acredite que “soluções equilibradas” represente algo mais do que um som de flatulências.

O fato é que o tal equilíbrio karnaliano não se sustenta na realidade, pois ignora os problemas reais, como o tráfico de drogas, o terrorismo, a violência das cidades fronteiriças e própria ilegalidade do ato imigratório clandestino. Sua solução, que finge ser honesta, é apenas uma maneira de dizer o quanto ele mesmo possui pensamentos bonitinhos, enquanto seu criticado é mau.

A verdade é que enquanto homens como Leandro Karnal não forem cobrados, nas críticas que fazem, a apresentar soluções factíveis, continuarão a expelir os mal cheirosos elementos que se formam dentro deles, camuflados, obviamente, pelo perfume politicamente correto que sempre lhes acompanha.

A droga do vitimismo

O vitimismo tem se tornado a droga do nosso tempo. Isso porque as pessoas têm se agarrado a ele como viciados que não podem viver sem experimentar seu poder anestésico e sedutor.

Como todo droga, ser vítima faz a pessoa se sentir viva porque, pela mentalidade dominante, quem não é vítima é como se não tivesse uma história, como se sua existência fosse inútil. Quem não tem uma história, não tem vida. Assim colocar-se como vítima permite que a pessoa sinta-se, de alguma maneira, especial, reconhecida pelos outros e parte de seu mundo.

Isso é viciante, sem dúvida. Afinal, em um mundo onde parece que somos cada vez mais desprezíveis e irrelevantes, encontrar algo que nos faça especiais é irresistível.

O vitimismo também, como toda droga, cria seus grupos sociais. Assim, ele separa aqueles que são reconhecidos como legítimos representantes de seu círculo – os oprimidos – dos párias que, não raramente, são colocados na posição de opressores e automaticamente vistos como inimigos a ser combatidos.

O vitimismo, portanto, tornou-se a droga aceita e estimulada dos nossos dias. Por isso, quem quer ser bem visto, aceito e até louvado logo busca algo que lhe coloque na posição de vítima. Assim, sabe que terá seu lugar reservado junto à hipocrisia de seus pares.

Pensamento e expressão

Uma coisa é saber algo, outra é transmiti-lo. Isso porque o que se sabe, ou seja, o conteúdo dos nossos pensamentos, sobrevive sem ordem. 

O fato e que é podemos saber muitas coisas sem que este conhecimento esteja devidamente ordenado em nossa mente. Por outro lado, basta tentarmos transmitir o que sabemos para então nos darmos conta de que boa parte das certezas que carregamos parecem bem vacilantes quando tentamos explicá-las.

É que a comunicação, diferente do pensamento, não aceita o caos. O pensamento subsiste tranquilamente na confusão porque ele se contenta mais com o significado das coisas do que com seus nomes. Ele sintetiza os conteúdos de maneira que as palavras importem menos do que os que elas querem dizer.

A comunicação, porém, é mais exigente. Ela obriga que as ideias e palavras emitidas sigam com ordem, uma devidamente após a outra, de maneira que a mais sutil alteração dessa ordem tenha o poder de afetar todo o conjunto.

Não é por acaso que existem diversos profundos conhecedores em suas respectivas áreas que, apesar de tudo, têm uma dificuldade terrível de compartilhar aquilo que sabem.

Babel pós-moderna

Toda a cultura e toda a vida intelectual, em uma sociedade, depende da existência de uma constante troca de ideias e do intercâmbio incessante de pensamentos. As grandes concepções, os juízos mais engenhosos, não teriam valor algum se permanecessem isolados nas mentes de seus autores. Para que pudessem contribuir para o desenvolvimento da civilização, foi necessário terem sido compartilhados por seus criadores e, concomitantemente, absorvidos, compreendidos e aplicados por seus interlocutores.

Pressupõe-se, portanto, que, para a formação da civilização, aqueles que se depararam com as mensagens dos gênios, que ouviram as palavras das grandes mentes, compreenderam aquilo que estava sendo transmitido e, por isso, puderam colocar em prática o que deles fora apreendido. E é nessa comunhão entre emissor e interlocutores que reside a base para a construção de qualquer sociedade.

Sem esquecer que mesmo os sábios, transmissores das grandes ideias, foram, eles mesmos, influenciados e impactados por mensageiros anteriores, dos quais receberam outras grandes ideias e os quais tiveram a capacidade também de compreender.

Vê-se assim que toda a sociedade está fundamentada em um acordo tácito em relação aos sentidos das palavras, os seus significados, suas implicações e suas referências. É dessa maneira porque, se não fosse, o que uma pessoa dissesse não poderia ser imediatamente compreendido pela outra, impedindo que essa sociedade se desenvolvesse, afinal, esse desenvolvimento depende necessariamente da cooperação e esta só ocorre por meio da troca constante de conteúdos racionais.

Em todas as sociedades foi assim. Por mais que sempre houvesse algum tipo de variação dos sentidos e alguma diferença na interpretação que se dão às palavras e expressões, em geral, as pessoas nelas inseridas sempre possuíram referências, visões de vida, linguagem e compreensão semelhantes. Foi isso que permitiu que cada sociedade se desenvolvesse a sua maneira.

Atualmente, porém, já não é mais assim. Chegamos em um momento quando a impressão que se tem é que os tempos de concórdia acabaram, que a unidade de visão está se esvaindo e cada qual passa a ser determinador daquilo que existe, segundo sua própria maneira de enxergar o mundo.

O que eu quero dizer é que está havendo uma relativização tão gigantesca em relação ao sentido de todas as coisas que, cada vez mais, as pessoas enxergam-nas diferentemente umas das outras. Ainda que se refiram a elas com os mesmos nomes e ainda que pareçam estar falando sobre um mesmo fato, cada palavra, cada expressão, cada ideia parece evocar em cada pessoa percepções tão diversas que sequer parecem tratar-se de uma e mesma realidade.

E isso acontece não apenas por causa da relativização, mas tem origem em uma deterioração cultural que faz com que os indivíduos não possuam o instrumental intelectual mínimo para compreender o que é dito, senão segundo suas parcas capacidades e estreita visão.

Mistura-se, então, esses dois elementos venenosos, o rebaixamento cultural e a relativização, e temos a fórmula perfeita para uma sociedade fragmentada, individualista, no pior sentido desse termo, onde cada qual vive dentro de sua própria realidade e a comunicação torna-se cada vez mais difícil.

O resultado disso é a progressiva dificuldade dos concertos, dos acordos, das contribuições mútuas para o progresso dentro dessa sociedade. Quanto mais as pessoas não parecem falar a mesma língua, mais complicado fica que alimentem-se mutuamente com boas ideias e contribuam para o a manutenção e avanço dessa civilização.

Nosso mundo, por causa dos efeitos dessa discórdia linguística, semântica e simbólica, tem o sério risco de involuir, de retornar pouco a pouco à barbárie, quando os homens viviam essencialmente para sobreviver e ainda não haviam desenvolvido a razão suficientemente para construir uma sociedade que se parecesse com aquilo que convencionamos chamar de civilizada.