Espanto e familiaridade em relação à realidade

Comentário sobre o livro Ortodoxia, de Chesterton

A ideia de que a realidade está justamente dividida entre o mundo material e o transcendente, de alguma maneira, tranquiliza-nos. Enquanto o céu representa o misterioso, o numinoso, a terra é para nós a segurança do mensurável e previsível. E o conforto dessa dualidade reside exatamente no fato de que a existência dessas duas realidades permite-nos o trânsito entre elas conforme nossas necessidades e conveniências. Quando o transcendente parece-nos por demais aterrorizante, por tratar-se essencialmente do desconhecido, sempre podemos abrigar-nos nas certezas das coisas terrenas. Quando, por outro lado, o mundo torna-se por demais sufocante, por causa da pressão de sua entediante previsibilidade, há sempre as coisas do alto para onde é possível escapar.

Essa convicção acaba sendo como um ponto de equilíbrio que parece sustentar nossa sanidade.

A verdade, porém, lança sobre nós a afirmação perturbadora de que o céu e a terra não encontram-se cindidos, como alguns apóstolos da modernidade, como Kierkegaard, quiseram dar a entender. Ela ensina-nos que o céu e a terra unem-se em uma mesma realidade e nos relacionamos com ambos, não em momentos distintos, mas de maneira intercambiável.

Relutamos em aceitar essa verdade porque a separação entre terra e céu representa o conforto que temos de que haverá sempre um dos dois mundos para onde poderemos escapar.

Surge, então, Chesterton, confirmando a supressão da nossa antiga certeza, colocando o céu e a terra unidos em uma única realidade, e acrescentando um questionamento para deixar-nos ainda mais atordoados.

Com sua pergunta, antes de tudo, ele faz deparar-mo-nos com o que talvez represente o nosso maior temor: o confronto com a dubiedade desta existência. Se antes havia, de um lado, a segurança e familiaridade daquilo que conhecemos e com o que nos identificamos e, de outro, o espanto e maravilhamento do mistério superior, agora precisamos aceitar que a realidade é uma só e não há para onde fugir.

Mas sua pergunta, diferente do que pode parecer em um primeiro momento, não traz aquele peso do desconforto que essa nova verdade poderia descortinar. Pelo contrário, ao indagar “como podemos imaginar ficarmos ao mesmo tempo assombrados com o mundo e, mesmo assim, nele nos sentirmos em casa? Como pode esta estranha cidade cósmica, com seus cidadãos de muitas pernas, com suas monstruosas e antigas lâmpadas, como pode este mundo provocar em nós ao mesmo tempo o fascínio de uma cidade estranha e o conforto e a honra de ser a nossa cidade?”, o escritor inglês faz-nos ver uma realidade una, mas com olhos carregados de alegria e esperança. Refutando tratar-se de um paradoxo, ainda que se considere que identidade e surpresa pareçam dois sentimentos antagônicos, o que Chesterton quer mostrar-nos, com sua interrogação, é que há uma realidade única, onde viveremos a experiência plena de nossa existência.

No entanto, para compreender essa experiência, que envolve, ao mesmo tempo, o espanto e a familiaridade, é preciso entender a verdade de nossa condição cognitiva e espiritual presente e como essa condição determina nossa relação com este mundo.

A base para essa compreensão reside no fato de o mundo ser a nossa casa, pois, como seres humanos, sabemos que ele foi feito para nós. Estamos no centro da criação e tudo o que nos cerca existe por nossa causa. Assim, toda a estrutura da realidade identifica-se conosco, da mesma maneira que, independentemente da forma e no nível da manifestação da realidade, nos identificamos com ela.

No entanto, em nosso estado cognitivo e espiritual bruto, conhecemos e compreendemos apenas as manifestações mais superficiais dessa estrutura do real. Ainda que nos identifiquemos com ela, o que sabemos, em princípio, abarca apenas um pedacinho dela.

Ocorre que mesmo a enormidade daquilo que não compreendemos pertence à realidade que para nós foi feita. Por isso, ao mesmo tempo que nos espantamos com essas manifestações que não entendemos, identificamo-nos com ela. É uma identificação, em boa parte, inconsciente, é verdade, mas não deixa de ser uma identificação.

O que torna tudo mais estimulante é o fato de que, mesmo com a expansão do nosso conhecimento e consciência, a realidade jamais deixará de nos surpreender, pois, em virtude de nosso estado atual, o conhecimento e a consciência jamais serão plenos. O mundo permanece, para nós, familiar, mas sem deixar de ser misterioso ao mesmo tempo.

A compreensão disso permite-nos, então, estabelecer uma relação com a realidade muito mais completa. O transcendente deixa de ser o mero escape do mundo visível e passa a ser, na verdade, uma etapa mais profunda do relacionamento que temos com essa mesma realidade.

A busca pelo transcendente, diante disso, deixa de ser a busca pelo que existe lá fora, mas um mergulho no mais profundo do nosso próprio ser, onde podemos conhecer melhor o que a existência tem para oferecer até se encontrar com o próprio Deus.

Medos e desejos

Há quem se envergonhe de sentir medo; também há quem acredite que seus desejos são intrinsecamente impuros. Sentem como se esses sentimentos fossem essencialmente maus; como se o mero fato de senti-los representasse fraqueza e pecado.

Sofrem, então, com a ininterrupta acusação interna, que afirma que possuir esses sentimentos é condenável. Vivem com um algoz estabelecido ao lado de suas consciências, pronto a executar a pena.

Que a pessoa que sente essa vergonha e essa culpa permanece paralisada, isso não há a menor dúvida. Quem se envergonha se retrai; quem se culpa se pune. E não há como seguir em frente retraindo-se e punindo-se todo o tempo.

Isso não quer dizer que se deva abandonar todo o medo e dar vazão a todo desejo. O medo e o desejo existem, cada um deles, por um motivo e quando se aprende suas funções aprende-se também como conviver com eles.

A função do medo é alertar-nos dos perigos. Como forma de proteger-nos dos males que podem nos afetar, ele avisa-nos que podemos estar em risco. Por isso, se não tivéssemos medo algum, seríamos inconsequentes e nos meteríamos em grandes confusões. Certamente, uma pessoa sem medos mataria a si mesma.

Está claro que precisamos do medo. No entanto, apenas na medida em que ele nos sirva para livrar-nos de enrascadas. Quando, porém, ele se manifesta de uma forma desordenada, acaba paralisando-nos, impedindo-nos de usufruir daquilo que nos é lícito e impedindo-nos de experimentar aquilo que nos é agradável.

Do mesmo jeito, o desejo nos é necessário. É ele que nos impulsiona a perseguir aquilo que nos é imprescindível. Longe de ser impuro, o desejo induz-nos a coisas que nos mantém vivos, por isso ele é importante.

Sem o desejo, ficaríamos inertes e deprimidos. A ausência do desejo nos tornaria improdutivos e inúteis. O problema é quando ele torna-se transloucado. Neste caso, em vez de servir como um impulsionador àquilo que é útil, acaba por limitar-nos, não permitindo o gozo de nada além daquilo que é o objeto do desejo. O desejo descontrolado é um déspota, um escravizador. Ele, que deveria nos libertar da inércia, acaba por agrilhoar-nos no objeto desejado.

O medo e o desejo são como aqueles bons amigos, um tanto descabeçados, que nos impulsionam à vida, mas em quem não devemos confiar cegamente.

Ainda assim, não há porque se envergonhar do medo e negar os desejos – da mesma maneira que não nos envergonhamos de nossos amigos, nem negamos a amizade que eles nos oferecem.

Os medos e os desejos podem ser-nos bastante úteis desde que bem governados pela razão. Basta não permitir que extrapolem para além daquilo que existem, nem se retenham aquém de sua utilidade.

Professores socialistas

Nossos professores são, realmente, em sua maioria, socialistas?

Muitos deles afirmam que não, apesar do notório viés socialista de boa parte do conteúdo que ensinam.

No entanto, talvez essa negação não seja tão mentirosa.

É bem provável que a maioria dos professores sequer seja socialista convicta, mesmo que suas convicções intelectuais e, por consequência, aquilo que ensina, sejam ideias de origem e vinculadas ao pensamento socialista.

Isso porque as ideias socialistas que esses professores absorveram em sua formação, apesar de lhes terem sido apresentadas como as mais nobres, as melhores e as mais corretas, não lhes foram apresentadas como ideias socialistas.

Além do que, para formar um professor de mentalidade socialista, não é preciso induzi-lo à militância, nem fazer propaganda explícita de qualquer ideologia; basta fazer com que ele acredite que os preceitos socialistas, travestidos de preceitos científicos, que aprendeu de seus mestres são os corretos.

Então, mesmo sem saber que tratam-se de ideias socialistas, ele irá replicá-las exaustivamente porque crerá ser o que existe de melhor, senão o único pensamento que existe.

Além disso, basta ensiná-lo a venerar Paulo Freire, a respeitar Emilia Ferrero, a crer que Marx era um gênio e a louvar Vigotsky e não é preciso mais nada para formatá-lo como um bom professor à moda socialista.

E, assim, orgulhoso de ter tido acesso ao que acredita ser o que há de melhor entre os pensadores e ideias em suas respectivas áreas de atuação, despejará confiante e orgulhosamente esses ensinamentos sobre seus alunos.

Por isso, antes de se discutir sobre o que os alunos estão aprendendo de seus professores, é preciso questionar o que estes professores estão aprendendo como alunos.

Por que celebrar o Natal

Sempre ouvi, de pessoas que passam por momentos tristes em suas vidas, ou de outras que acreditam não haver muita felicidade nelas, ou simplesmente de quem diz não ver muito sentido nessa data, que preferem não “comemorar” o Natal.

Como querendo afastar-se de qualquer tipo de celebração, crendo que essa data só é válida se for passada como um festejo, essas pessoas escolhem ignorá-la, ou, no máximo, minimizá-la, transformando-a quase em uma data comum.

São esses que dizem que o Natal é besteira, que é um dia sem importância e que falam que apenas se reúnem nesse dia por causa das crianças ou por pressão dos familiares.

O que eu respondo para gente que pensa assim é que o Natal não é bem um festejo, nem mesmo uma comemoração.

Na verdade, o Natal tem duas características essenciais: é um memorial, ou seja, uma lembrança, mais ou menos ritualística, de um fato específico – no caso, o nascimento de Cristo; além disso, o Natal é também uma tradição, ou seja, algo que se faz, por séculos, no Ocidente e que, de alguma maneira, mantém viva sua história e personalidade.

Ninguém precisa estar feliz para celebrar o Natal, nem mesmo achar que essa deve ser uma data para encontrar-se alegre. Não é preciso beber muito, nem comer muito, nem encontrar-se com os amigos e familiares para se divertir.

O mais importante do Natal é manter viva nossas raízes, lembrando-se, a cada ano, de que foi o nascimento de um homem que permitiu e forneceu-nos os elementos para que fôssemos o que somos – como indivíduos e como povos.

Ignorar o Natal é quase como virar as costas para a própria herança e querer viver neste mundo como um ser isolado.

Celebre o Natal, sim! Do seu jeito, conforme seu estado de espírito. Só não deixe passar em branco uma data tão importante para você e para todos nós que nos orgulhamos de sermos civilizados.

Escrita organizadora

A escrita, para alguém que costuma refletir com alguma profundidade sobre a vida, tem uma função muito bem definida.

É que as ideias, enquanto estão ainda em forma de pensamentos, residem na mente de maneira confusa.

O conhecimento, quando na mente, não costuma estar ordenado. Ainda que saibamos algo, esses dados estão soltos dentro de nós. Sabemos que sabemos, temos consciência que conhecemos, mas apenas quando precisamos comunicar o assunto é que percebemos que esse conhecimento não tem ordem, mas trata-se de um emaranhado de ideias que, de alguma maneira, interconectam-se.

Geralmente, apenas quando precisam ser expostas, é que as ideias recebem alguma ordenação. Só quando um pensador escreve o que pensa é obrigado a se preocupar com a ordem e a coerência de seus pensamentos.

Assim, escrever, passa a ser, antes de uma necessidade de compartilhamento, uma necessidade de ordenação. O escritor escreve para, antes de tudo, arrumar a bagunça que existe em sua própria cabeça.

Essa, pode-se dizer, acaba sendo a primeira função da escrita: organizar o que até ali era apenas confusão.

A vida é uma tragédia

A vida é uma tragédia. Há tempos não tenho receio de fazer essa afirmação. Porém, não falo essas coisas em tom de desespero, nem mesmo de pesar. Digo isso apenas como uma constatação.

Ser uma tragédia não significa que a vida é triste. Simplesmente, quer dizer que ela é fugaz – hoje a pessoa existe, amanhã ela é arrancada daqui; hoje ela tem milhões de sonhos e, em um segundo, eles são interrompidos definitivamente.

Mas tudo isso não significa que a vida é desanimadora. Pelo contrário, entender sua tragicidade é uma dádiva e uma oportunidade.

Se a vida é assim, como um fio prestes a ser cortado, não existem motivos para preocupações. Se tudo vai acabar de uma hora para outra, nada pode tirar a paz, pois nada, na verdade, é definitivo, nem mesmo duradouro.

Se a vida é trágica, cada momento é uma aventura, cada experiência importante e cada ato único.

Por isso, essa tragicidade, longe de assustar, torna tudo ainda mais belo – e maravilhosamente louco.

A força e a fraqueza do amor

O amor é uma força e uma fraqueza.

O amor é uma força porque desperta, em nós, o melhor que há em nosso interior. Quando amamos, não há barreiras que possam impedir o nosso agir em favor do ser amado. Como está escrito: o amor faz-nos enfrentar todos os medos, superar todos os medos, vencer todos os medos.

Mas o amor é também uma fraqueza, porque torna-nos vulneráveis, pois há um outro envolvido, a quem queremos bem, queremos proteger, mas sobre quem não temos poder para arrancar sua dor.

O amor é uma fraqueza porque superar o sofrimento já não depende mais de nós, mas do amado que sofre e a quem podemos apenas observar e garantir que haverá alguém do seu lado.

A dor de quem amamos é como uma espada enfiada em nosso peito e que não temos como arrancar. Uma ferida que, apesar de ser no outro, nos consome e contra a qual não podemos fazer nada.

Por tudo isso, o amor precisa ser – e é -, antes de tudo, paciente. Só assim para suportar aquilo contra o que não se pode lutar, nem tratar, mas apenas esperar.

A função terapêutica da escrita

Fiquei fora do ar durante esta semana por um problema de saúde ocorrido com minha sogra, o que me fez ter de participar do cuidado de vários trâmites necessários para sua recuperação.

Depois de quatro dias correndo para todos os lados e não tendo tempo para nada mais, falei para minha esposa que precisava parar um pouco para escrever.

Ela não entendeu essa afirmação, de princípio – como que uma pessoa, que tem tanta coisa para fazer e com tantas preocupações para resolver, pode pensar em parar para escrever qualquer coisa e achar que isso tem alguma importância?

Então, expliquei para ela como escrever tinha, para mim, uma função terapêutica. Meus leitores, no fundo, são como meus psicólogos, que me escutam, me analisam e até, de alguma forma, me aconselham.

Explico esta última parte: o aconselhamento da audiência faz-se por meio de minha própria consciência. Um escritor precisa saber para quem escreve e, ao preparar-se para sua audiência, antecipar-se ao julgamento que ela fará sobre seu escrito. Assim, ao mesmo tempo que escreve, julga-se, censura-se, elogia-se – com seus leitores agindo sobre ele por meio de sua própria consciência.

Assim, escrever não é apenas um ato de expressão, mas de troca. Os leitores, reais e ideais, estão como ao lado do escritor, aconselhando-o, redarguindo, exortando-o e direcionando-o.

Era isso que estava me fazendo falta e que eu precisava resgatar. Depois de quatro dias de silêncio, a fim de recobrar minhas energias mentais, eu precisava separar este tempinho para registrar algumas ideias.

Claro, acompanhado de vocês que, sabendo ou não, estão sempre aqui ao meu lado enquanto escrevo.

O papel do professor

O que os pais esperam da escola é que ela prepare seus filhos para a sobrevivência. A expectativa é de que a escola lhes dê a instrução necessária para enfrentar os desafios impostos pela vida. Os pais querem que seus filhos aprendam a ler, a escrever, a fazer contas, sobre as leis da natureza e sobre a história do mundo onde habitam – pois são esses os instrumentos necessários para viver em sociedade

Porém, do lado dos pedagogos, que são os responsáveis por suprir essa expectativa dos pais, parece que o objetivo é outro. Eles têm a convicção de que seu papel é ensinar os pequeninos a romperem com as tradições. Eles estão certos de que os alunos precisam aprender, principalmente, a serem críticos, a não se conformarem e a quebrarem as amarras das convenções.

Instaura-se, então, um conflito: os pais esperando que seus filhos sejam formados para a vida; os professores querendo deformá-los.

Explico a deformação: os pedagogos não levam em conta que só pode ser crítico quem é conhecedor profundo do objeto a ser criticado. É assim com os críticos de arte e até com os comentaristas de futebol. Porém, é impossível para alunos em idade escolar terem um conhecimento assim sobre a vida. Eles não possuem tempo de existência suficiente para ter absorvido o necessário para compreender o que é a sociedade. O resultado disso, portanto, não poderia ser outro: se são instigados a serem contestadores antes mesmo de entenderem minimamente aquilo que estão contestando, esses meninos e meninas tornam-se meros palpiteiros. E palpiteiros revoltados, que acham que podem julgar o mundo sem saber nem o que o mundo é.

Qual é, então, o papel fundamental do professor? Simples! É um papel absolutamente conservador: reforçar, nos alunos, os valores existentes – valores comuns que são a base da sociedade onde esses mesmos alunos vivem. Ao fazer isso, a escola ensina-os a desnudarem a realidade, instrui-os sobre o funcionamento do mundo e informa-os sobre como se dá os processos da natureza – tudo o que precisam saber para viver no ambiente em que estão.

Isso não significa, de qualquer forma, que esses mesmos alunos não possam se tornar críticos da sociedade. Torná-los críticos, apenas, não deve ser o objetivo principal da escola. Se, depois deles absorverem os elementos necessários para compreender a sociedade e conviver nela, esses jovens acharem necessário e quiserem criticá-la, tudo bem! Aliás, tais críticos são mesmo necessários.

Discriminação dos paladinos

Toda exaltação do indivíduo, por alguma conquista sua, quando feita com indicação da raça ou gênero dele, sugere, subliminarmente, que pertencer àquela raça ou gênero significa, de alguma maneira, inferioridade ou, pelo menos, que a conquista não é esperada para alguém do seu tipo.

Se a pessoa diz que “fulano, negro, passou em primeiro lugar no concurso público” ou “sicrana, mulher, foi promovida à diretora da empresa”, está, ainda que inconscientemente, aplicando à frase um advérbio oculto, que modifica a expressão, assinalando que tal fato representa, de alguma forma, uma quebra de expectativa. Seria o mesmo que dizer “fulano, apesar de negro…” ou “sicrana, mesmo sendo mulher…”.

Pode até haver boa intenção em querer destacar a raça ou o gênero de alguém, tentando demonstrar que a conquista de certa pessoa se deve também à superação pelas dificuldades impostas pela discriminação. 

No entanto, a discriminação só é superada realmente quando as vítimas deixam de ser tratadas como tais. O que eu quero dizer é que enquanto negros, mulheres e outros grupos são tratados como exceção à regra e suas conquistas como um acontecimento anormal, então saber-se-á que a segregação continua.

Aliás, é nesse sentido que deve ser entendida a fala do ator americano, Morgan Freeman, que, em uma entrevista ao programa 60 Minutes, foi enfático ao dizer que a melhor maneira de combater qualquer tipo de racismo é, simplesmente, não falando dele.

Apesar de ser esta uma fala que vai de encontro a uma percepção inicial sobre o que seria o combate à discriminação, o que ele diz faz muito sentido. Não falar, não quer dizer ignorar eventuais atos discriminatórios, mas demonstrar que realmente as raças e os gêneros não são relevantes.

Obviamente, isso não quer dizer que deve-se fechar os olhos para os reais atos discriminatórios. Eles existem e devem ser combatidos. Porém, quando não são mais os indivíduos, vítimas de discriminações específicas, mas o grupo a ser protegido, todos os indivíduos pertencentes a este grupo estão, imediata e invariavelmente, declarados como inferiores, independentemente de seus méritos pessoais. Além disso, quando tudo é discriminação e todos são vítimas, nada mais é discriminação e ninguém mais é vítima.

Há, porém, de chegar o dia quando as pessoas serão lembradas por seus méritos e sua cor de pele esquecida. Serão louvadas por suas vitórias, sem que seu gênero seja tido por relevante.