Escrita organizadora

A escrita, para alguém que costuma refletir com alguma profundidade sobre a vida, tem uma função muito bem definida.

É que as ideias, enquanto estão ainda em forma de pensamentos, residem na mente de maneira confusa.

O conhecimento, quando na mente, não costuma estar ordenado. Ainda que saibamos algo, esses dados estão soltos dentro de nós. Sabemos que sabemos, temos consciência que conhecemos, mas apenas quando precisamos comunicar o assunto é que percebemos que esse conhecimento não tem ordem, mas trata-se de um emaranhado de ideias que, de alguma maneira, interconectam-se.

Geralmente, apenas quando precisam ser expostas, é que as ideias recebem alguma ordenação. Só quando um pensador escreve o que pensa é obrigado a se preocupar com a ordem e a coerência de seus pensamentos.

Assim, escrever, passa a ser, antes de uma necessidade de compartilhamento, uma necessidade de ordenação. O escritor escreve para, antes de tudo, arrumar a bagunça que existe em sua própria cabeça.

Essa, pode-se dizer, acaba sendo a primeira função da escrita: organizar o que até ali era apenas confusão.

A vida é uma tragédia

A vida é uma tragédia. Há tempos não tenho receio de fazer essa afirmação. Porém, não falo essas coisas em tom de desespero, nem mesmo de pesar. Digo isso apenas como uma constatação.

Ser uma tragédia não significa que a vida é triste. Simplesmente, quer dizer que ela é fugaz – hoje a pessoa existe, amanhã ela é arrancada daqui; hoje ela tem milhões de sonhos e, em um segundo, eles são interrompidos definitivamente.

Mas tudo isso não significa que a vida é desanimadora. Pelo contrário, entender sua tragicidade é uma dádiva e uma oportunidade.

Se a vida é assim, como um fio prestes a ser cortado, não existem motivos para preocupações. Se tudo vai acabar de uma hora para outra, nada pode tirar a paz, pois nada, na verdade, é definitivo, nem mesmo duradouro.

Se a vida é trágica, cada momento é uma aventura, cada experiência importante e cada ato único.

Por isso, essa tragicidade, longe de assustar, torna tudo ainda mais belo – e maravilhosamente louco.

A força e a fraqueza do amor

O amor é uma força e uma fraqueza.

O amor é uma força porque desperta, em nós, o melhor que há em nosso interior. Quando amamos, não há barreiras que possam impedir o nosso agir em favor do ser amado. Como está escrito: o amor faz-nos enfrentar todos os medos, superar todos os medos, vencer todos os medos.

Mas o amor é também uma fraqueza, porque torna-nos vulneráveis, pois há um outro envolvido, a quem queremos bem, queremos proteger, mas sobre quem não temos poder para arrancar sua dor.

O amor é uma fraqueza porque superar o sofrimento já não depende mais de nós, mas do amado que sofre e a quem podemos apenas observar e garantir que haverá alguém do seu lado.

A dor de quem amamos é como uma espada enfiada em nosso peito e que não temos como arrancar. Uma ferida que, apesar de ser no outro, nos consome e contra a qual não podemos fazer nada.

Por tudo isso, o amor precisa ser – e é -, antes de tudo, paciente. Só assim para suportar aquilo contra o que não se pode lutar, nem tratar, mas apenas esperar.

A função terapêutica da escrita

Fiquei fora do ar durante esta semana por um problema de saúde ocorrido com minha sogra, o que me fez ter de participar do cuidado de vários trâmites necessários para sua recuperação.

Depois de quatro dias correndo para todos os lados e não tendo tempo para nada mais, falei para minha esposa que precisava parar um pouco para escrever.

Ela não entendeu essa afirmação, de princípio – como que uma pessoa, que tem tanta coisa para fazer e com tantas preocupações para resolver, pode pensar em parar para escrever qualquer coisa e achar que isso tem alguma importância?

Então, expliquei para ela como escrever tinha, para mim, uma função terapêutica. Meus leitores, no fundo, são como meus psicólogos, que me escutam, me analisam e até, de alguma forma, me aconselham.

Explico esta última parte: o aconselhamento da audiência faz-se por meio de minha própria consciência. Um escritor precisa saber para quem escreve e, ao preparar-se para sua audiência, antecipar-se ao julgamento que ela fará sobre seu escrito. Assim, ao mesmo tempo que escreve, julga-se, censura-se, elogia-se – com seus leitores agindo sobre ele por meio de sua própria consciência.

Assim, escrever não é apenas um ato de expressão, mas de troca. Os leitores, reais e ideais, estão como ao lado do escritor, aconselhando-o, redarguindo, exortando-o e direcionando-o.

Era isso que estava me fazendo falta e que eu precisava resgatar. Depois de quatro dias de silêncio, a fim de recobrar minhas energias mentais, eu precisava separar este tempinho para registrar algumas ideias.

Claro, acompanhado de vocês que, sabendo ou não, estão sempre aqui ao meu lado enquanto escrevo.

O papel do professor

O que os pais esperam da escola é que ela prepare seus filhos para a sobrevivência. A expectativa é de que a escola lhes dê a instrução necessária para enfrentar os desafios impostos pela vida. Os pais querem que seus filhos aprendam a ler, a escrever, a fazer contas, sobre as leis da natureza e sobre a história do mundo onde habitam – pois são esses os instrumentos necessários para viver em sociedade

Porém, do lado dos pedagogos, que são os responsáveis por suprir essa expectativa dos pais, parece que o objetivo é outro. Eles têm a convicção de que seu papel é ensinar os pequeninos a romperem com as tradições. Eles estão certos de que os alunos precisam aprender, principalmente, a serem críticos, a não se conformarem e a quebrarem as amarras das convenções.

Instaura-se, então, um conflito: os pais esperando que seus filhos sejam formados para a vida; os professores querendo deformá-los.

Explico a deformação: os pedagogos não levam em conta que só pode ser crítico quem é conhecedor profundo do objeto a ser criticado. É assim com os críticos de arte e até com os comentaristas de futebol. Porém, é impossível para alunos em idade escolar terem um conhecimento assim sobre a vida. Eles não possuem tempo de existência suficiente para ter absorvido o necessário para compreender o que é a sociedade. O resultado disso, portanto, não poderia ser outro: se são instigados a serem contestadores antes mesmo de entenderem minimamente aquilo que estão contestando, esses meninos e meninas tornam-se meros palpiteiros. E palpiteiros revoltados, que acham que podem julgar o mundo sem saber nem o que o mundo é.

Qual é, então, o papel fundamental do professor? Simples! É um papel absolutamente conservador: reforçar, nos alunos, os valores existentes – valores comuns que são a base da sociedade onde esses mesmos alunos vivem. Ao fazer isso, a escola ensina-os a desnudarem a realidade, instrui-os sobre o funcionamento do mundo e informa-os sobre como se dá os processos da natureza – tudo o que precisam saber para viver no ambiente em que estão.

Isso não significa, de qualquer forma, que esses mesmos alunos não possam se tornar críticos da sociedade. Torná-los críticos, apenas, não deve ser o objetivo principal da escola. Se, depois deles absorverem os elementos necessários para compreender a sociedade e conviver nela, esses jovens acharem necessário e quiserem criticá-la, tudo bem! Aliás, tais críticos são mesmo necessários.

Discriminação dos paladinos

Toda exaltação do indivíduo, por alguma conquista sua, quando feita com indicação da raça ou gênero dele, sugere, subliminarmente, que pertencer àquela raça ou gênero significa, de alguma maneira, inferioridade ou, pelo menos, que a conquista não é esperada para alguém do seu tipo.

Se a pessoa diz que “fulano, negro, passou em primeiro lugar no concurso público” ou “sicrana, mulher, foi promovida à diretora da empresa”, está, ainda que inconscientemente, aplicando à frase um advérbio oculto, que modifica a expressão, assinalando que tal fato representa, de alguma forma, uma quebra de expectativa. Seria o mesmo que dizer “fulano, apesar de negro…” ou “sicrana, mesmo sendo mulher…”.

Pode até haver boa intenção em querer destacar a raça ou o gênero de alguém, tentando demonstrar que a conquista de certa pessoa se deve também à superação pelas dificuldades impostas pela discriminação. 

No entanto, a discriminação só é superada realmente quando as vítimas deixam de ser tratadas como tais. O que eu quero dizer é que enquanto negros, mulheres e outros grupos são tratados como exceção à regra e suas conquistas como um acontecimento anormal, então saber-se-á que a segregação continua.

Aliás, é nesse sentido que deve ser entendida a fala do ator americano, Morgan Freeman, que, em uma entrevista ao programa 60 Minutes, foi enfático ao dizer que a melhor maneira de combater qualquer tipo de racismo é, simplesmente, não falando dele.

Apesar de ser esta uma fala que vai de encontro a uma percepção inicial sobre o que seria o combate à discriminação, o que ele diz faz muito sentido. Não falar, não quer dizer ignorar eventuais atos discriminatórios, mas demonstrar que realmente as raças e os gêneros não são relevantes.

Obviamente, isso não quer dizer que deve-se fechar os olhos para os reais atos discriminatórios. Eles existem e devem ser combatidos. Porém, quando não são mais os indivíduos, vítimas de discriminações específicas, mas o grupo a ser protegido, todos os indivíduos pertencentes a este grupo estão, imediata e invariavelmente, declarados como inferiores, independentemente de seus méritos pessoais. Além disso, quando tudo é discriminação e todos são vítimas, nada mais é discriminação e ninguém mais é vítima.

Há, porém, de chegar o dia quando as pessoas serão lembradas por seus méritos e sua cor de pele esquecida. Serão louvadas por suas vitórias, sem que seu gênero seja tido por relevante.

A comunhão entre o orador e sua audiência

Cansei de ver oradores preparando seus discursos, imaginando causar um grande impacto naqueles que iriam ouvi-los. Confiantes no poder revolucionário dos conteúdos que tinham a apresentar, acreditavam que provocariam uma mudança radical em seus ouvintes. O resultado, porém, quase sempre foi bem diferente do esperado. Invariavelmente, o que aconteceu, nesses casos, foi uma recepção fria à mensagem apresentada, a qual não apenas não resultou em mudança alguma, como chegou até a despertar o desprezo em relação ao orador.

Na verdade, é incrivelmente raro um palestrante conseguir fazer com que, por meio de seu discurso, uma audiência mude seu pensamento. Não digo que não seja possível, mas é algo muito difícil de acontecer. Geralmente, as pessoas não ouvem uma palestra para alterar as ideias que elas têm das coisas. Elas ouvem-na para reforçar as convicções que já possuem.

Aliás, esta é a própria definição de retórica: um discurso que parte das crenças que o público já carrega consigo.

Fica claro, portanto, que quem delimita as fronteiras do que vai ser abordado não é o orador, mas sua audiência. O que há, de fato, é um acordo entre eles, como se fosse um acerto prévio sobre quais são os limites do que deve ser dito e até onde se pode chegar. O que ultrapassa essas fronteiras é considerado uma quebra desse concerto e o orador que comete esse erro acaba causando o inverso da mudança que espera provocar, ou seja, a rejeição ao que ele está apresentando.

Sendo assim, um discurso está longe de ser um espetáculo de um homem só. Trata-se bem mais de uma comunhão, onde há, é verdade, alguém que detém a palavra, mas que não está livre para dizer o que quer, senão para explorar aquilo que se encontra dentro dos limites impostos pelo acerto silencioso que mantém com a audiência que se dispõe a escutá-lo.

Por isso, obtém-se pouco sucesso em uma palestra quando se aposta todas as fichas apenas no material a ser apresentado e não se percebe que o que há entre o orador e a plateia é mais do que a emissão e absorção de uma mensagem. Há, de fato, uma comunidade de espíritos.

O orador e o compartilhamento de si mesmo

Erra quem, ao fazer uma apresentação, se dirige à plateia acreditando que ela está ali apenas absorvendo suas palavras e ideias. Quem pensa que as coisas acontecem assim, geralmente crê que as palavras e as ideias possuem uma força autônoma e que o orador não passa de um mensageiro, um portador isento de um conteúdo que sobrevive por si mesmo.

Porém, as palavras possuem uma função muito específica no discurso, que é a de fazer referência a uma realidade que existe antes e além delas. Palavras são apenas intermediárias, são símbolos que apontam para essa realidade. Porém, elas mesmas, sem a realidade para a qual apontam, não são nada.

Por isso, quem se dirige a uma audiência transmite para ela muito mais do que palavras. Ao falar com o público, o orador transmite – ou tenta transmitir – realidades. E essas realidades residem no mundo, independentemente das palavras e até mesmo das pessoas.

No entanto, essas realidades, apesar de existirem independentemente das pessoas, só podem ser reconhecidas conscientemente pelas pessoas. E nesse processo de reconhecimento, elas não absorvem as realidades mesmas, mas criam, dentro de si, versões dessas realidades.

Quem, por exemplo, se depara, pela primeira vez, com um animal que nunca tinha visto, ao deixar sua presença, leva consigo não o animal mesmo, mas uma imagem dele. Aliás, uma imagem incompleta e, invariavelmente, imperfeita. Daí, quando ele se propõe a comunicar, para outras pessoas, essa imagem do animal que ele carrega consigo, o que ele vai comunicar não é a realidade mesma, mas sua versão dela, a interpretação que ele faz daquilo conheceu.

Ao fazer isso, porém, inescapavelmente, ele acaba por dar um tom pessoal a essa realidade processada dentro dele. Ademais, como essa realidade, que está dentro dele, é uma interpretação pessoal, então ela também acaba sendo única. Assim, o que ele comunica acaba sendo a sua própria realidade.

O fato é que, quando essa realidade é transmitida, ela sai da boca do orador já não mais como uma verdade absoluta e independente, mas, sim, como uma versão da realidade feita pelo próprio orador. E sendo uma versão do orador, o que ele acaba transmitindo diz, geralmente, mais dele mesmo do que da realidade a qual ele se refere.

É por isso que eu afirmo que, no fim das contas, comunicação é mais do que compartilhar suas ideias e conhecimento. Comunicação é compartilhar a si mesmo.

A contundência do discurso do Escola sem Partido

Há quem entenda que a forma como os integrantes e simpatizantes do Escola sem Partido manifestam-se, falando com veemência contra a atuação de alguns professores, é inadequada. Eles acreditam que esse discurso incisivo prejudica a relação entre professor e aluno e pode provocar tensões inconvenientes na sala de aula. Assim, acusam os militantes do Escola sem Partido de agitadores, como se fossem um mal ao ambiente escolar.

Ocorre que nenhuma mensagem pode ser analisada como uma forma fixa, invariável, alheia às circunstâncias. Pelo contrário, suas ênfases e modulações precisam ser julgadas conforme sua adaptação às necessidades, ao público e à gravidade do assunto. E, ao levar isso em conta, constata-se que o discurso do Escola sem Partido precisa ser forte, contundente e até intimidador.

Isso é justificado pelo fato de que tem havido diversos indícios e muitas denúncias de professores que têm usado da sala de aula para impor suas convicções políticas sobre seus alunos. Agem como verdadeiros militantes e, sem escrúpulos, usam da audiência cativa para formatá-la a seu bel-prazer. Isso é muito sério e reponder a esse problema com tibieza não condiz com a gravidade do assunto.

É preciso levar em conta que, em termos de ciência dos discursos, a posição do professor é totalmente favorável a ele. Basta ver que o maior desafio de alguém que se dirige a uma plateia é estabelecer sua própria autoridade diante dela. Até porque um orador sem autoridade é como um pistoleiro com balas de festim, que faz barulho, mas não atinge ninguém. A verdade é que o público não dá ouvidos a quem ele não confia e é por essa razão que Aristóteles dizia que o principal elemento da persuasão é o ‘etos’, que caracteriza-se principalmente pela credibilidade transmitida pelo orador.

Pode-se ver, portanto, que o professor é um agraciado. Por causa da natureza de sua função e pela característica de sua audiência, ele já possui, de antemão, essa autoridade tão perseguida pelos oradores e exerce, sem nenhum esforço, grande influência sobre seus ouvintes. Não há figura com maior credibilidade, principalmente tratando-se de um público formado por crianças e adolescentes. Para estes, o mestre é um ser quase transcendente, imune a erros e portador de uma sabedoria sublime.

Se o professor, então, abusa dessa autoridade – que sequer é sua, pois não foi conquistada por ele, mas pertence naturalmente à função que exerce – incorre em um pecado gravíssimo. Um pedagogo que tira proveito de alunos incapazes de formar uma opinião própria para impor sobre eles sua ideologia e visão peculiar de mundo pode ser considerado, sem nenhum exagero, um violentador de consciências.

E, diante disso, considerando a modelagem dos discursos de acordo com as circunstâncias, aqueles que denunciam algo tão sério não podem fazê-lo de maneira tíbia, vacilante. Exigir que ajam assim seria como esperar que uma testemunha de um estupro, em vez de tirar o agressor a ponta-pés de cima da vítima, redija uma mera moção de censura.

Quem não concorda com esses argumentos e, com base apenas na observação da forma do discurso do Escola sem Partido, considera-o um grupo radical, com linguagem violenta e propostas agitadoras, sem levar em conta o problema apontado por ele, não está entendendo – ou finge não entender – a seriedade do assunto.

Fábricas de militantes

O ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio – é o sistema de manipulação de mentes mais abjeto e canalha que existe.

Com a desculpa de ser um avaliador e selecionador dos alunos para o ingresso nas universidades, na verdade ele serve como um filtro ideológico para elas.

Pior ainda, o ENEM se transformou em um verdadeiro modelador das mentes dos alunos do ensino médio.

Isso porque os conteúdos a serem oferecidos nas escolas de ensino médio precisam preparar esses alunos para que eles obtenham sucesso na prova do ENEM.

Se, portanto, essa prova possui um viés ideológico muito definido (como é o caso do ENEM), as escolas precisam, desde cedo, formatar a mentalidade de seus alunos para que eles pensem de acordo com esse viés ideológico.

Sendo assim, essas escolas, ao ajustarem seus currículos às exigências ideológicas das provas do ENEM, acabam, elas mesmas, transformando-se em verdadeiras fábricas de pequenos militantes ideológicos.

Cumpre-se, assim, o verdadeiro objetivo da existência desse exame.