A antibiblioteca do Umberto Eco

A ANTIBIBLIOTECA DO UMBERTO ECO

No início do livro de Nassim Nicholas Taleb, “A lógica do cisne negro”, o autor escreve uma prévia ao primeiro capitulo, chamada “A antibiblioteca do Umberto Eco”. Ali, ele faz uma relação entre a função de uma biblioteca particular e como as pessoas lidam com o conhecimento. Sua intenção é mostrar como elas dão mais atenção ao que sabem e desprezam o que não sabem – que é, aliás, o ponto central do livro, principalmente em relação aos eventos imprevisíveis, os chamados cisnes negros.

No entanto, aqui, quero apenas me concentrar no que ele fala sobre a biblioteca mesma e sobre o conhecimento. Não vou entrar na questão central do seu trabalho.

Segundo o Taleb, o escritor Umberto Eco que, inclusive, faleceu em 2016, tinha uma biblioteca de mais de 30 mil volumes. Diante de tantos livros, muitas pessoas têm a mesma reação: perguntam se o dono já leu todos aquelas obras. Eu, que tenho aqui uma biblioteca de cerca de mil volumes, ouço isso o tempo todo dos meus alunos e dos meus amigos. Isso porque as pessoas acham que só tem sentido os livros estarem ali se for para serem lidos ou mesmo se eles já foram lidos.

E sobre isso Taleb vai dizer que uma biblioteca particular não existe para a pessoa se orgulhar, mas para ser uma ferramenta de pesquisa. Ou seja, os livros não precisam ter sido lidos para estarem ali.

E o Taleb solta uma frase surpreendente: “livros lidos são muito menos valiosos que os não lidos”. Não sei se você consegue entender o que o Taleb quer dizer com isso. Por que que os livros não lidos são mais importantes que os lidos? Ora, por um motivo muito simples: um livro lido já se encontra dentro de mim. Eu não preciso mais dele, fisicamente falando. Eu já o absorvi. Um livro não lido, no entanto, ainda está esperando ser explorado. Ele ainda possui conhecimentos que eu não tenho e, portanto, é uma joia esperando ser garimpada.

Taleb reforça o argumento com uma afirmação ainda mais incrível: que quanto mais você souber, maiores serão as pilhas de livros não lidos. E aí, nós entramos em outra questão, que é a proporcionalidade entre a inteligência e a compreensão da própria ignorância. Pessoas bem instruídas, ou seja, pessoas que lêem mais, possuem uma noção mais ampla do que ainda precisam conhecer. É a tal ampliação do imaginário, que traz junto dela aquilo que Nicolau de Cusa chamava de ‘docta ignorantia’. Então, é evidente que, quanto mais a pessoa ler, mais conhecimento vai ter, mais necessidade de conhecer vai ter e, assim, mais vai querer ler e, portanto, mais livros terá a sua espera.

O interessante é que damos muita atenção ao que sabemos e tentamos esconder o que não sabemos. Eu sei que não é bem esse o foco do Taleb no livro. Nesse trabalho, o intuito dele é apontar o quanto desprezamos aquilo que nós não conhecemos e, por isso, não previmos e, por isso, somos surpreendidos. Mas eu quero enfatizar apenas a questão do conhecimento em si. O quanto, realmente, nós valorizamos os nossos conhecimentos, enquanto, na verdade, um único conhecimento é essencial: o conhecimento em relação aquilo que nos falta conhecer. Quando nós entendemos o que nos falta, além de termos claro aquilo que já conhecemos, sabemos também o que buscar. Além disso, quando temos noção da nossa ignorância, sabemos devidamente o nosso lugar.

Por isso, é muito mais importante os livros que ainda não lemos do que aqueles que efetivamente lemos. Os livros que lemos indicam quem nós somos, mas os que não lemos apontam para quem ainda podemos ser.


1 comment

  • A importância da leitura, analisada sob um ponto de vista reflexivo e coerente. Parabéns!

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