A benção da desilusão

desilusaoÉ do senso comum acreditar que uma pessoa desiludida é alguém perdido. Como se a desilusão representasse o fim de qualquer possibilidade de uma existência digna e real. Confundimos desilusão com depressão e costumamos apontar aquelas pessoas mais pessimistas e negativas como desiludidas.

No entanto, desilusão não significa nada mais que perder a ilusão. E perder a ilusão é não ser mais enganado pela vida. E quem pode negar que a vida apresenta caminhos que são pura fantasia, cheios de promessas impossíveis de ser cumpridas?

Quando perdemos a ilusão, portanto, não é mais qualquer canto de sereia que seduz-nos. Para que algo tenha força para atrair-nos, não pode meramente apresentar ofertas vãs. Pelo contrário, apenas aquilo que identificamos como real e imprescindível é que continua tendo algum tipo de valor para nós.

Isto nos impede de perdermos nosso tempo e energia em coisas que não possuem qualquer substância, naquilo que serve apenas para enganar-nos e dispersar-nos. Tornamo-nos então mais concentrados e acabamos usando muito melhor nossas forças, empenhando-as naquilo que realmente importa.

Por isso, não é possível confundir desilusão com letargia. A desilusão não causa a falta de ação, nem a interrupção do pensamento. O que ela faz é selecionar o que vale a pena, o que não é uma mera perda de tempo.

Quando estamos desiludidos com a vida, não é qualquer coisinha que é importante. Na verdade, quase nada tem importância. Por isso, nos desiludidos acaba sobrevivendo apenas aquilo que é essencial, o que não pode ser desprezado de maneira alguma, o que é imprescindível.

E o que não pode ser desprezado é aquilo que é fundamental para sobrevivência. Porém, não restrinjo-me aqui apenas ao indispensável biológico, mas refiro-me à sobrevivência espiritual, aquilo que mantém nossa sanidade psíquica.

A desilusão, de fato, torna-nos mais argutos. Passamos a enxergar as coisas baseados na realidade, vendo-as não com a ilusão típica do otimismo, que invariavelmente conduz à frustração, mas com a desconfiança óbvia de quem não quer descobrir que trilhou caminhos desnecessários.

Isso não significa que o desiludido é um pessimista. Os pessimistas, assim como os otimistas, também possuem uma visão equivocada da realidade. Eles erram ao avaliar tudo sem considerar os dados reais que se apresentam, sendo direcionados pelo sentimento negativo que acomete-os.

A desilusão apenas afasta a ilusão, tornando-nos mais seletivos e mais agudos. Quando somos tomados por ela, nos afastamos da falsa esperança e permitimos que apenas a essência da vida seja digna de atenção

E esta seletividade faz-nos mais críticos, o que leva-nos a ser mais sarcásticos e irônicos, que são recursos utilizados pelas pessoas inteligentes para amenizar a aridez que a desilusão tende a causar. E isto tem a vantagem de tornar o desiludido menos chato. Na verdade, o sarcasmo e a ironia são o tempero que torna a desilusão com a vida suportável.

Portanto, diferente do senso comum, não enxergo a desilusão como algo negativo. De maneira contrária, entendo que ela é uma bênção, pois permite viver aquilo que é realmente importante, desprezando tudo que existe apenas para dispersar-nos.

 

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