A criminalidade atual não é romântica

No mundo que vivo, quero defender o direito de quem tem poder, livremente, mostrar que tem

Há alguns opinadores que são românticos e que parecem viver ainda no tempo do Bandido da Luz Vermelha. E um deles, colunista da Folha de São Paulo, andou dando a entender que a ostentação de elite paulistana é uma causa séria para a criminalidade na cidade. A elite seria a culpada, ao ostentar sua riqueza, por provocar em jovens pobres ressentidos a necessidade do crime.

Como é romântica tal visão! Talvez ela até pudesse ser considerada há 40 ou 50 anos, quando os assaltos mais comuns eram a dos “batedores de carteira”, mas hoje? Será que o colunista já ouviu falar em PCC, em Comando Vermelho e coisas do tipo? Será que ele já ouviu falar em tráfico de drogas?

Como ele escreve, parece que tais agências do crime sequer existem. Como se todo assalto fosse resultado de um garoto ressentido por não poder ter o que os outros têm. Como se, como ele mesmo disse, a escolha pelo crime fosse uma forma de busca e reconhecimento social.

Não conheço a vida desse colunista, mas ele me parece ser um daqueles playboys que, embriagado na faculdade pelo pensamento de esquerda, canta a revolução sentado no carpete felpudo da avó abastada.

Ele parece ignorar que se a criminalidade anda tão alta e tão violenta em São Paulo, isso se dá porque o Estado está dominado por um grupo criminoso, altamente organizado e presente em todas as penitenciárias locais. Ignora também que o nível de disciplina dentro essa organização é tão extremo que são dadas tarefas para os seus membros a fim de que eles sejam aceitos na organização e galguem patamares mais elevados dentro dela.

O criminoso individual, aquele que assalta para seu próprio sustento, mede o perigo, não se arrisca demais, preserva sua vida. O bandido, porém, que quer (ou é obrigado) ser admitido em uma facção criminosa sabe que tem tarefas a cumprir e não cumpri-las é mais perigoso do que o perigo que os assaltos que pratica podem lhe proporcionar. Dessa forma, esse novo criminoso é mais audaz, mais corajoso, se arrisca muito mais. Ele sabe que não cumprir a tarefa pode lhe custar caro diante de seus chefes do crime. Diante disso, não é difícil entender porque os crimes estão cada vez mais comuns e mais violentos.

Mas o opinador do periódico parece não saber nada disso. Ele apenas repete alguns chavões que já se diziam lá pelos anos 60. Seu mundo é dividido entre uma elite burguesa ostentadora e uma massa de pobres loucos para fazerem parte daquela mesma elite.

O que ele não percebe, entretanto, é que seu pensamento carrega uma inversão e um preconceito. A inversão ocorre quando ele põe a culpa do crime na própria vítima, como se andar com um iphone na rua fosse uma agressão comparável a um assalto à mão armada. O preconceito aparece quando ele se manifesta como se apenas os ricos fossem assaltados. Como se não houvesse assaltos contra pessoas comuns, simples, que são diariamente vilipendiadas e humilhadas por assaltantes cada vez mais insensíveis.

Além do mais, se levarmos em conta sua lógica, de que o rico é culpado por ostentar suas jóias em um restaurante chique, não podemos escapar da conclusão que o aposentado é também culpado de ostentar seu benefício, ao sacá-lo no caixa eletrônico, e, por isso, justificado está o assalto que sofre em frente à agência bancária.

Me pergunto: se a patricinha não puder sair com sua Louis Vuitton, se a emergente não puder usar seus colares, se o playboy não puder dirigir seu BMW, que merda de país caras como esse colunista querem viver?

São os ricos e suas ostentações que nos ensinam como é píegas querer mostrar o que se tem e como é vazio crer que seus bens fazem de você alguém melhor. Mas também são eles que nos mostram que é possível conquistar mais, ter uma vida melhor, viver com mais conforto. Com isso, somos estimulados a trabalhar mais, a buscar alternativas financeiras e de negócios para ver se saímos da pindaíba que costumamos viver. E se não galgamos uma elevação social como pretendíamos, ao menos podemos dizer que honestamente tentamos.

A vida é assim mesmo: uns tem mais e outros menos. Mas, no mundo que vivo, quero defender o direito de quem tem poder, livremente, mostrar que tem. Mesmo que eu morra de inveja dele!

Às vezes eu torço (que me perdoe, meu Deus!) para um sujeito como esse colunista ser assaltado, como vi vários amigos meus (todos pés-rapados) sendo, com arma na cabeça, vendo o fruto de seus trabalhos sendo surrupiados de uma vez só, para que definitivamente entenda que não é a riqueza nem a pobreza que estimulam o crime, mas, sim, uma cultura que forma cabeças como a dele, que invertem os valores das coisas e justificam aquilo que é injustificável.

 

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