A falácia da vontade geral

Fale contra o bem comum e seja tratado como um criminoso. Mesmo que esse bem não seja tão comum assim. Ainda que seja a mera projeção do desejo do seu interlocutor, que, lançando sobre a coletividade suas próprias percepções, usa-o para condenar-lhe como a um bandido.

Falar em nome da vontade geral tornou-se a desculpa perfeita para perseguir inimigos, além de ter se transformado no comando que autoriza o assassinato moral e a caçada implacável daqueles que ousam pensar diferente. Ela é, no fim das contas, o salvo-conduto para a suspensão da tolerância e do respeito.

No entanto, a vontade geral, tão defendida pelos fanáticos da seita do politicamente correto, simplesmente não existe. Ela, quase sempre, não passa de uma figura de linguagem, um manto para esconder a vontade de um grupo específico.

Desde Rousseau, a vontade geral tem sido, de fato, o entendimento que uma elite tem sobre o que seria o melhor para todos; o ponto de vista dos intelectuais; a perspectiva de alguns iluminados; uma peça de ficção usada para legitimar a imposição de certos interesses; nunca o desejo real do povão.

Uma sociedade é formada por vontades particulares diversas. Conforme estas se aglutinam, pela coincidência de visões, formam-se grupos. Surgem, então, as disputas, com cada grupo tentando impor seu próprio ponto de vista. Por isso, o que se chama de vontade geral costuma ser apenas o reflexo de determinada vontade grupal. Na verdade, uma maneira bastante esperta de legitimar esta como se representasse aquela.

Portanto, quem acusa o outro de estar contra a vontade geral geralmente é alguém estúpido o suficiente – ou bem mal intencionado – a ponto de confundir seu desejo íntimo ou de sua turma com o interesse de toda a sociedade.


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