A insistência na pregação moralista

Cresci ouvindo, dos ministros religiosos que conheci, que os homens são pecadores e irremediavelmente tendentes ao mal.

Da mesma forma, ouvi, e continuo ouvindo desses mesmos pregadores, que devemos fazer isso, fazer aquilo, se quisermos ser aprovados por Deus.

Ou seja, ao mesmo tempo que aprendi que minha tendência é para fazer as coisas erradas, eu deveria estar fazendo as coisas certas.

No entanto, como esses pregadores querem que eu me livre desse paradoxo? Se minha tendência é para o mal, como eles acham que, de repente, eu vou começar a fazer o que é bom?

Eles acham que apenas a insistência na pregação moralista é suficiente para isso? Será por isso que eles têm esse tipo de discurso como o centro de suas palestras?

Na verdade, essa insistência apenas mostra como esses pregadores acreditam realmente na força das palavras que proferem e na capacidade dessas palavras alterarem a vontade humana a ponto de reverter uma tendência naturalmente irreversível.

Não me parece razoável esperar que algo irremediavelmente contaminado purifique-se a si mesmo. Pois é isso que esses pregadores estão fazendo quando acreditam que o mal impregnado nos homens pode ser revertido pela simples ação da vontade humana despertada por suas palavras.

Não que eu ache que as pregações moralistas estejam equivocadas. Muito pelo contrário! Elas são necessárias e fazem parte do repertório da mensagem religiosa. O problema está na ênfase que os ministros religiosos dão a elas.

A pregação moralista é útil como norte, como guia sobre o que é certo ou errado. Por meio dela, aprendemos o que deve ser feito e aquilo que a religião aprova. No entanto, tê-la como o centro do discurso religioso é, no mínimo, ineficaz – para não dizer uma tremenda teimosia.

Será que esses pregadores não se cansam de ficar falando e falando, reunião após reunião, sobre como as pessoas devem se comportar e ver que essas mesmas pessoas quase nunca se comportam da maneira como eles insistem em orientar?

Será que eles não percebem que, se o que se espera é uma mudança de comportamento, isso não pode vir do mero conhecimento daquilo que deve ser feito? Que não basta nem mesmo a decisão pela mudança? Que a razão e a vontade fazem parte do processo, mas não são causas diretas da transformação pretendida?

Quase sempre que eu observei mudanças drásticas de comportamento, isso não foi fruto de uma decisão racional, nem de uma determinação da vontade, mas como consequência de algo ocorrido no interior da pessoa.

Por isso, eu sou convicto de que antes de insistirem em pregações moralistas, os ministros religiosos deveriam ajudar e orientar seus ouvintes a uma busca espiritual mais profunda.

Infelizmente, poucos falam sobre isso.

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