A Reforma Protestante foi um movimento revolucionário?

Eu vejo a Reforma Protestante como o resultado da crise da Igreja Católica, simplesmente
Alguns amigos protestantes, principalmente aqueles que conhecem melhor a história da Igreja e também têm consciência dos males que a ideia revolucionária causou e ainda causa por todo o mundo, demonstram alguma preocupação com a hipótese de a Reforma poder ser incluída também como um movimento revolucionário.

Há tempos venho pensando sobre isso e tenho colhido informações sobre o tema, a fim de poder escrever um artigo que trate a matéria com detalhes.

O que deixo para meus leitores é a sugestão para refletirem sobre todos os aspectos da Reforma e analisarem as semelhanças e diferenças que pode haver com movimentos realmente revolucionários, como a Revolução Francesa e a própria Revolução Bolchevique.

Quem me acompanha sabe o quanto, mesmo oriundo de uma igreja protestante, sempre tomei o cuidado de não cair em mistificações e lendas contra a Igreja Católica (aliás, essa postura já me trouxe problemas não apenas no ambiente da internet, mas na vida prática na Igreja). Da mesma forma devo agir em relação a própria Igreja Protestante, buscando os fatos como eles se deram e compreendendo os motivos dos acontecimentos, não aceitando lugares-comuns ou posições inflexíveis de quem simplesmente não aceita a existência do protestantismo.

Me parece que chamar a Reforma Protestante de revolucionária não é correto. Em primeiro lugar, por não ter sido um movimento organizado. A Reforma aconteceu, principalmente, por causa de atitudes individuais. Ainda que houvesse autoridades ou grupos apoiadores, não havia uma liderança protestante organizada preparando uma revolução. Em segundo lugar, não havia uma proposta de governo delineada, nem um ideal de um novo mundo. Mesmo na Reforma de Calvino, com seu aspecto social autoritário, os instrumentos governamentais montados mais conservavam os valores existentes do que os suprimiam.

De fato, eu vejo a Reforma Protestante como o resultado da crise da Igreja Católica, simplesmente. Crise que se arrastava desde o século XIII. Era uma crise de autoridade, mas, principalmente, de valores. Tanto que, antes e após a Reforma, outros movimentos internos sacudiram a Igreja de Roma e a desafiaram.

O importante é que as divergências que causaram a divisão foram essencialmente teológicas. O que se discutia era a interpretação das Escrituras. E diga-se bem: discutia-se. Ninguém propôs a tomada do trono papal, nem qualquer revolta em massa. Apenas isso já é um bom indício de que a Reforma não foi uma revolução, pois revolucionários não debatem com os adversários, os eliminam.

O problema é que a Reforma rachou a Igreja. O trauma foi grande demais para ser absorvido como uma simples desavença de clérigos.

É verdade que alguns homens com características revolucionárias tomaram parte dos acontecimentos. No entanto, de modo algum eles podem ser considerados os verdadeiros reformadores e nem foram os principais líderes. Também não se pode ignorar o momento histórico, do Renascimento, que facilitava a inspiração para as contestações e divergências. No entanto, chamar algo de revolucionário apenas por sua consequência: a divisão, me parece exagerado.


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