A riqueza na complexidade e nas incoerências humanas

Nunca é bem compreendida minha afirmação de que as análises que faço sobre religião, sua história e até suas doutrinas são sempre empreendidas, dentro da medida do possível, de uma maneira que minhas convicções mais profundas não interfiram nas conclusões. Algumas pessoas que leem isso deduzem que, na verdade, não tenho convicções, que sou um indeciso ou mesmo alguém que não quer se comprometer com nada, assentando-se em uma posição confortável quase agnóstica.

O que eu percebo é que, principalmente no ambiente religioso, mas não só nele, quase todas as afirmações são carregadas de aspectos emocionais e comprometimentos inflexíveis, que jamais permitem que o investigador chegue a alguma conclusão que fira, de alguma maneira, sua própria filiação religiosa. Se ele envereda por estudar algo da história da igreja e de suas doutrinas, invariavelmente precisa concluir que seu lado está certo e os outros estão errados.

Por exemplo, muitos católicos sempre afirmam que a Idade Média era uma maravilha, que a Igreja era um exemplo de unidade, fé e nobreza e que a vida era muito melhor naquele período. Ora, posso até concordar com muito disso, mas não posso fechar os olhos para os problemas que envolviam a vida no medievo. De outro lado, quase todos os protestantes acreditam que a Reforma foi a grande conquista religiosa da humanidade, que os pais reformadores eram santos e que a comunidade reformada era um exemplo de santidade e respeito aos direitos de todos. Também entendo que há conquistas importantes trazidas pela Reforma, mas não posso fingir que junto com elas não surgiram problemas sérios na formação das novas sociedades oriundas do protestantismo.

Acredito que analisar qualquer coisa de uma maneira completamente comprometida com ela impede que dela se extraia a riqueza profunda que possa haver em sua manifestação. Isso porque tudo o que envolve a vida humana é rico exatamente por causa de suas complexidades e até incoerências intrínsecas, que se nos apresentam como um verdadeiro desafio para sua compreensão. Se algo fosse perfeito, não precisava ser analisado, apenas gozado. Mas, de fato, isso me parece apenas reservado ao próprio Deus.

A vida humana e tudo o que a envolve são demasiado complexos para serem vistos apenas por um aspecto. Nada empreendido pelos homens alcança a plenitude da certeza de seus benefícios, como poucas coisas são tão negativas que não possuam, pelo menos, algo de bom que não se possa extrair delas.

Mas há pessoas que confundem essa visão com relativismo, o que é um tremendo engano. O relativista é aquele que acredita que nada tem valor, que todas as coisas podem ser consideradas boas ou más (se é que pode-se dizer que são boas ou más) dependendo do ponto de vista escolhido pelo observador. O que faço não é isso. Eu apenas tento entender como as coisas funcionam sem tentar interpretá-las a partir de um ponto de vista determinado. Na verdade, quero encontrar o que elas têm de valor em si mesmas, não por aquilo que eu imponho sobre elas.

Claro que há a necessidade de algum princípio norteador. Eu seria um estúpido se acreditasse que é possível uma observação completamente neutra. No entanto, tento reduzir esse princípio ao mínimo possível. No caso, à existência de um Deus transcendente e eterno. Mesmo minha opção pelo cristianismo (que, na verdade, não é bem uma opção, mas uma constatação ou uma rendição a uma verdade quase evidente) é posterior ao princípio primeiro: a existência de Deus.

Sou cristão, meus amigos, e por criação, prática e alguma convicção sou protestante. No entanto, não sou anticatólico e reconheço muitas das virtudes católicas. Também não sou um reformado convicto. Aliás, tenho reservas sérias quanto aos pressupostos da reforma calvinista. Na verdade, não vejo nenhuma necessidade em me afirmar como coisa alguma além de cristão. E que fique bem claro, não milito contra qualquer manifestação cristã. Pelo contrário, entendo que sua variedade é até necessário por causa da universalidade da natureza do cristianismo.

O problema é que quando as pessoas se deparam com alguém que pensa assim, tentando entender as coisas, procurando identificar os aspectos positivos e negativos que se apresentem, acusam-no de todo tipo de adjetivos que o desqualifiquem como pessoa idônea para dizer qualquer coisa relativa à religião, como agnóstico, irreligioso, rebelde ou indeciso.

Porém, para entender o que escrevo sobre assuntos religiosos, o leitor não deve me julgar segundo uma posição religosa específica. Ele pode até não concordar com minha forma de enxergar as coisas, mas, se quiser me entender, precisa tentar captar o que eu estou buscando, que é compreender as coisas como elas realmente são.

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