A rota de fuga da estupidez

Ser cristão é o caminho de escape da miséria humana, que se generaliza cada vez mais.

O cerne da pregação paulina em sua carta aos Gálatas é a superação de uma meninice espiritual, religiosa e de consciência. Ele chega a se exaltar com a comunidade por não assumir sua posição de responsável diante de Deus, mas deixar-se iludir por um retorno a uma religião baseada em intermediários instrumentais, que mantém os homens como crianças espirituais.

Disso conclui-se que faz parte da proposta cristã para o ser humano seu desenvolvimento de consciência e conhecimento, a fim de que ele cresça na verdade, para que, dessa forma, assuma sua responsabilidade como indivíduo diante de seu Criador.

A maturidade de um homem é medida não de acordo com os pelos que crescem em seu rosto, nem pelas cãs que se manifestam em sua cabeça, mas por quanto ele se assume responsável pelo que faz, vive e escolhe. Uma pessoa madura é aquela que, por força de sua busca e reflexão, por seu esforço para entender o que se passa ao redor, adquire conhecimento de quem ele é perante o mundo e toma consciência de sua posição nele. É maduro aquele que sabe o fim de sua existência e tenta viver de acordo com isso.

Porém, para alcançar maturidade não bastam os átimos de experiência, nem o conhecimento quase natural que se desenvolve na vida, mas é preciso, além de uma busca dirigida por compreender as coisas, com leituras, com cultura e com estudos, uma constante reflexão sobre a vida, uma reformulação ininterrupta do sentido da existência e uma decisão inflexível por tomar as rédeas do seu próprio caminho.

Tudo isso, no entanto, não se adquire com leituras esparsas, exercícios esporádicos ou insights. A maturidade espiritual é fruto de uma busca sincera e decidida, consequência da resolução de não mais deixar-se conduzir pelo que o mundo oferece em abundância. A maturidade é o resultado de um compromisso com tudo aquilo que eleva, que edifica, que estimula o conhecimento e que produz uma consciência sadia e realista.

Para isso, é imprescindível que a pessoa que busca a maturidade esteja envolvida por um ambiente que dialogue com ela. Um ambiente que ela possa compartilhar suas experiências, testar seus conhecimentos, observar outros que estão na mesma busca e aprender com eles e se inspirar com histórias de homens que conquistaram essa maturidade em suas vidas.

O problema é que o mundo, desde há muito tempo, não possui mais finalidade alguma. E se não tem fins, o que importa é o presente, a ação de momento, o sentimento atual. Daí porque parece que tudo para ele é prazer e diversão. Estes oferecem a única coisa que o mundo parece buscar: a sensação imediata. Então, o que vemos na mídia, nos programas de tv, mesmo nos veículos de comunicação escrita é apenas entretenimento. Não existe mais nenhum compromisso com a informação, com a cultura, com a inteligência. Tudo é voltado para segurar pelas mãos o ouvinte, o telespectador e o leitor. Estes, guiados como crianças, com personalidade de crianças, simplesmente deixam-se levar pelos brinquedos que lhes são propostos.

Os programas populares, por exemplo, têm seus roteiros escritos como se seu público fosse formado por crianças de 5 anos, os programas que se pretendem mais inteligentes não passam de discussão para pré-adolescentes, mesmo os documentários que sugerem uma análise mais profunda das coisas podem ser considerados, no máximo, informação para ser passada em salas de aula de turmas de colegiais. Dessa forma, a sociedade é mantida em seus níveis mais rasos, formada por pessoas cada vez mais vazias e mais imaturas.

O que encontramos, então, é uma sociedade infantilizada, que não cresce, nem amadurece. E como a maturidade pressupõe a responsabilidade, vive-se em meio a pessoas que não aprendem a assumir suas vidas, a arcar com os custos de sua escolha, a responder pelos erros que cometem e a resignar-se com suas impossibilidades.

Temos, assim, uma sociedade de pessoas que não estão aptas a assumir seus próprios destinos e dependem sempre dos outros para determinar o que devem fazer, como devem ser e o que devem pensar. Se algo não dá certo, a culpa nunca é delas, mas de alguma força estranha que lhes impede de superar o mal. Se não conseguem satisfazer seus desejos, é porque alguém de fora os está impedindo. Se são o que são, é porque quem deveria não está lhes dando o que merecem.

Como são crianças, incapazes de se responsabilizar por suas próprias vidas, incapazes de direcionarem-se a si mesmas, exigindo sempre que alguém lhes ofereça aquilo que seus parcos interesses demandam. E é nessa hora que surge o Grande Irmão para lhes estender a mão.

Ser cristão, portanto, é mais do que seguir uma religião, do que ter uma cosmovisão específica, mesmo do que aceitar um Messias. Ser cristão é o caminho de escape da miséria humana, que se generaliza cada vez mais. Ser cristão é assumir sua responsabilidade diante de Deus, como indivíduo, sabendo que cada um dará contas das obras que fizer, não podendo lançar sobre os ombros alheios suas escolhas. Ser cristão é, enfim, a única rota de fuga de um mundo escravizado pela estupidez e pela imaturidade.

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