Além dos instintos

Uma das tendências modernas não foi negar a divindade, mas colocá-la acima e à parte dos negócios humanos. É o tempo do deísmo, do salto de fé, do Deus absconditus. Enquanto ele permanece lá em cima, nós ficamos cá embaixo resolvendo nossos problemas e chorando nossas mazelas.

Se Deus não está aqui, então não está em nós e não tem nada a ver conosco. Somos criaturas suas, não reflexos seus. Junte-se a isso a hipótese darwiniana e o que temos é a idéia de que não somos mais do que uns animaizinhos um pouco mais evoluídos.

A Psicologia, que surge nesse ambiente, até reconhece a superioridade da racionalidade humana, mas aceita a animalidade como uma condição essencial. Sendo assim, em suas terapias, tende a propor a compreensão da atuação dos instintos e a melhor maneira de guiá-los.

Isso não chega a ser errado, mas é limitante. Ao ter como meta apenas o direcionamento dos instintos, a Psicologia não conduz o homem para além de sua condição mais baixa. Faz dele um animal um pouco superior aos outros, mas ainda apenas um animal.

Na sabedoria antiga, especialmente a cristã, os homens não eram vistos apenas como animais. Pelo contrário, apesar de reconhecer a porção de animalidade que cada indivíduo carrega e até a possibilidade dele rebaixar-se a ponto de viver como uma besta, o cristianismo sempre ressaltou que os homens são uma imagem da divindade, possuindo neles algo da natureza divina.

Sendo assim, a busca sempre fora pela superação da animalidade em direção à divinização. Não que – pelo menos no cristianismo – houvesse a pretensão dos homens de tornarem-se deuses propriamente ditos, mas havia, sim, o divino como norte e idealização. Cristo, que é humano e divino, fixou-se como o modelo, a referência para todo cristão.

O homem cristão não é uma pessoa tentando guiar seus instintos, mas alguém procurando superá-los. Sua animalidade não é uma condição estática e inapelável em suas manifestações. Pelo contrário, sendo sua parte mais baixa, geralmente mais atrapalhando do que ajudando na realização do ideal humano, reter-se em apenas direcioná-la seria o mesmo que abdicar da possibilidade de realizar-se como ser superior.

Guiar os instintos pode ser útil, mas apenas na realização do que é material, do que tem a ver com as coisas práticas deste mundo. Se quiser tornar-se algo melhor e vivenciar o que está além desta parca experiência terrena, o homem precisa vencê-los. Se não extingui-los – o que talvez seja impossível – ao menos calá-los o máximo que puder.

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