ARMAS INVISÍVEIS DO INIMIGO

Uma leitora admoestou-me sem dó. Após assistir um vídeo meu falando de filosofia e do que é composta uma vida filosófica, ela achou aquilo tudo tão sem sentido que fez questão de me repreender, dizendo que eu deveria colocar os pés no chão, afinal, segundo sua percepção do momento, estamos em guerra. O que ela deixou claro é que, em seu entendimento da realidade, eu deveria falar de política, das batalhas sociais que estão ocorrendo e dos problemas visíveis que aparecem todos os dias no noticiário e não de filosofia e suas abstrações.

Minha resposta foi muito direta: não sou eu que estou com a cabeça nas nuvens, mas ela que está com os pés fincados na areia. Lembrei-a que essas lutas que ela está testemunhando, aterrorizada, são, nada menos, do que reflexos de filosofias que foram concebidas há quase dois séculos. Que se há, hoje, uma guerra política, jurídica e, talvez, o prenúncio de uma guerra física, é porque antes houve uma guerra silenciosa, no campo das idéias. Expliquei para ela que se hoje temos de lidar com comportamentos que se mostram perigosos contra a nossa liberdade, nossa moral e nossas tradições é porque permitimos que as concepções que os sustentam vencessem primeiro no campo das idéias. Portanto, quando eu falo de filosofia, longe de estar fugindo de qualquer problema, estou, na verdade, cavando até suas raízes.

Faço dessa maneira não por que esse é o único jeito certo de agir. Apenas fui vocacionado para isso. Infelizmente é bem provável que ela não entenda o que é uma vocação. Compreender a minha, talvez, seja impossível para sua visão de mundo. Obviamente, respeito os mais ativistas, aqueles que lutam no front. No entanto, meu papel é outro: trabalho no campo das discussões racionais e meu objetivo é conscientizar algumas pessoas exatamente para evitar que idéias desvirtuadas desvirtuem seus comportamentos.

Aliás, pessoas como essa leitora falam tanto de enfrentar a esquerda, de lutar contra o socialismo, só não percebem que os socialistas venceram muitas de suas batalhas até aqui exatamente porque não restringiram sua atuação ao campo político. Desde o início do movimento, eles souberam separar muito bem o papel do militante, do político e do intelectual – tendo este papel primordial na proliferação e solidificação de suas idéias.

O fato é que quem se lança contra as armas visíveis de seus inimigos, acaba derrotado pela forças invisíveis que as sustentam. Para o seu bem, espero que minha leitora aprenda isso.


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