Da diversidade de pressupostos

Quando desenvolvemos qualquer tipo de ideia, é imprescindível discernir sobre quais pressupostos estão baseados nossos raciocínios. Muitas vezes, eles são apenas especulações baseadas em percepções subjetivas ou inferências pessoais não colocadas à prova por outras pessoas e outros meios. Então, tudo parece perfeitamente lógico a ainda que cansemos de refletir sobre o assunto, não conseguimos captar qualquer contradição ou erro.

E apesar de todo raciocínio exigir um princípio que o sustente, boa parte deles é apenas retroalimentação do que é pensado sobre os mesmos pressupostos e apenas funcionam se esses pressupostos forem seguidos estritamente.

Todas as filosofias modernas são assim, mas as próprias religiões também. Se as conclusões materialistas só têm sentido quando respeitado o princípio de que tudo tem fundamento na matéria, o calvinismo apenas se sustenta quando obedece-se a Sola Scriptura e de uma maneira bastante rígida. O próprio catolicismo, para ser acolhido plenamente, exige a aceitação de diversos pressupostos que lhe darão a base para suas ideias e conclusões.

É evidente, portanto, que a quase totalidade das discussões que abundam por todos os lados são absolutamente inócuas, pois não tratam de examinar os pressupostos, mas altercam sobre ideias definitivas. Os debatedores raciocinam sobre fundamentos completamente diferentes, a partir de pressupostos totalmente dissonantes, e ainda querem discutir o que se lhes apresenta, que tem apenas aparência de similaridade, mas acabam sendo coisas completamente diferentes.

Esperar, assim, que frutifique algo dessas controvérsias é o mesmo que aguardar que do cruzamento de uma égua com um jumento nasça um quarto de milha. Na verdade, apenas multiplicam-se os burros.

O cristianismo e os filósofos

Uma característica comum das filosofias que pulularam a partir, principalmente, do século XVII, é a tendência a querer explicar tudo partindo de um insight ou de uma conclusão, inferência ou percepção pessoais. Ressaltam um aspecto qualquer da realidade, que, sob um ponto de vista específico, uma perspectiva determinada, pode até ter algum sentido, e extrapolam-no exageradamente, às vezes até o infinito.

Por exemplo, observam que o mundo possui certa ordem e inevitabilidade e concluem por um determinismo absoluto; constatam que as percepções individuais variam e concluem que tudo é relativo; percebem que não podem confiar absolutamente no que veem e concluem que nada é confiável. Praticamente toda escola de pensamento originada a partir daquele período sofre desse viés de exagero. Universalizam o que é parcial e supervalorizam suas próprias descobertas.

Diferente do cristianismo, que, apesar de estender seus efeitos até o infinito, permite que muitas coisas permaneçam misteriosas. Enquanto as filosofias humanistas, sabendo uma parte, pretendem explicar tudo, o cristianismo, abrangendo tudo, explica apenas uma parte.

A diferença é que a verdade proclamada pelo cristianismo é oriunda de uma realidade fundamental, eterna e transcendente, enquanto as verdades dos filósofos são parciais e, geralmente, sem princípios além deles mesmos. Por isso, o cristianismo não precisa explicar tudo, porque pressupõe tudo, enquanto os filósofos tentam explicar tudo, porque o que alcançam, de fato, é muito pouco.

Usando a analogia de Chesterton, a verdade dita pelo cristianismo se torna evidente porque iluminada pelo sol da verdade fundamental, enquanto os filósofos, ao pretenderem ser independentes da luz primordial, acabam sendo apenas luz de lua.

Conquista da liberdade

Uma das ideias mais confusas na mente das pessoas é a relativa à liberdade. Em tempos quando todos acreditam poder requerer tudo e os direitos são mais perseguidos que as obrigações, acreditam-se livres por natureza e exigem que sua liberdade seja respeitada por todo mundo, senão concedida pelos poderes terrestres.

Se observarmos bem, porém, constataremos que, naturalmente, não somos absolutamente livres. Temos apenas um relativo controle sobre nossos atos e pensamentos, mas estamos bem limitados inclusive neles, pelo ambiente que nos cerca, pela sociedade na qual vivemos e principalmente pelas nossas próprias tendências primordiais, que é decaída e tende ao inferior.

Seria bom que as pessoas entendessem que, se querem ser livres, não é reclamando por liberdade que a conquistarão. Como diz Jules Payot, “ninguém é livre se não merece ser-lo. A liberdade não é um direito, nem um fato, mas uma recompensa“.

Só é possível ter liberdade direcionando a própria vida, metodicamente, para conquistá-la. É pelo exercício da consciência e pela prática que é possível obtê-la. É pelo abandono sistemático e determinado dos grilhões que nos prendem que a alcançamos, progressivamente.

Ninguém nasce livre, mas vai se libertando com o tempo. Se bem que, o que mais eu tenho visto, são prisioneiros que jamais conseguem deixar, nem se esforçam para tanto, suas cadeias.

A explicação forçada dos cientistas

Algo que me soa bastante irritante é a insistência dos novos cientistas de interpretar todo comportamento humano com base em uma suposta evolução. Observam algo que as pessoas fazem hoje e dizem que isso é fruto de um processo adaptativo iniciado nos primórdios. Li, por exemplo, que somos invejosos porque nos tempos das cavernas isso era uma forma de sobreviver ao ver que o caçador vizinho havia conseguido um pedaço de carne maior. Como é possível saber isso, senão por um exercício de imaginação? E, convenhamos, esta não é uma atitude nada científica.

Não quero negar que haja algum processo de adaptação. Não tenho os dados para isso, como ninguém tem para confirmá-lo. No entanto, essa explicação “ex post facto” me parece mais uma forma de forçar uma explicação convincente, ainda que ela não esteja disponível. É fruto desse problema que as pessoas têm de aceitarem que há coisas que, ainda que temporariamente, não podem ser entendidas.

Ódio ao burguês

O discurso socialista apenas teve recepção nos corações e mentes de uma infinidade de gente porque já havia neles uma boa dose de ressentimento em relação às pessoas pertencentes às classes mais altas. É possível identificar isso desde o século XVIII, mas esse sentimento tornou-se mais evidente a partir do século XIX. 

O interessante é que apesar de haver uma certa inveja em relação à aristocracia, eram os chamados burgueses aqueles que mais causavam irritação. Isso porque o burguês, segundo a concepção marxista, não era necessariamente alguém que possuía uma condição de vida mais favorável por conta de hereditariedade ou tradição, mas por ter se beneficiado, de alguma maneira, das conquistas do mundo industrializado. O burguês, em essência, não era diferente do trabalhador ordinário, mas era comum que, por causa de suas condições materiais mais favoráveis, começasse a assumir ares afetados e emulasse modos aristocráticos. Isto era absolutamente irritante para o homem do povo, que via no burguês apenas um sortudo arrogante, de mau gosto e hipócrita. 

O ser humano é assim: pode conviver muito bem com o fato de que existam pessoas superiores a ele, desde que não tenham a mesma origem que a dele. O proletário não tem tanta inveja do aristocrata ou do nobre, que possui seu status por hereditariedade, do que do dono de fábrica que conquistou sua posição começando como trabalhador como ele. O sucesso de um igual é o espelho do próprio fracasso. E os movimentos socialistas sempre foram formados, em grande parte, por gente desse tipo: invejosos e fracassados.