Ateísmo, cristianismo e o galo de Sócrates O erro do historiador Marco Antonio Villa em relação à contribuição cristã na preservação da cultura grega

Marco Antonio Villa exalta o pensamento grego. Nisto, ele está acompanhado dos maiores eruditos cristãos de todos os tempos. De Justino a Tomás, de Erasmo a qualquer teólogo moderno, todos eles contribuíram para que Sócrates, Platão e Aristóteles fossem admirados, estudados e reconhecidos por seus contemporâneos e por toda a posteridade. Por que, então, o historiador, em vez de tratar o cristianismo como uma mera superstição, não o agradece, pelo menos, por ser o responsável pela cultura helênica ter chegado até nossos tempos?

Não me parece que a raiva destilada por ele, em relação à cultura judaico-cristã, no programa Pânico tenha sido causado por ignorância histórica. O que observei ali foi um enviesamento causado por seu próprio ateísmo, ou melhor, por seu ressentimento em relação à religião e aos religiosos.

Nesse quesito, pelo menos, conheci ateus mais honestos que reconheciam a contribuição cristã para a preservação e desenvolvimento daquilo que fora iniciado lá na Grécia.

Avisem o Villa que, se não fossem os padres, estaria ele ainda sacrificando galos a Esculápio.

Tempos ilógicos Para onde está nos levando a geração do politicamente correto

O discurso da atual geração é, muitas vezes, paradoxal. Exalta a liberdade, ao mesmo tempo que cria mil formas de censura; apoia a diversidade, enquanto tenta calar o adversário político; prega o amor, mas não demora a estimular o ódio contra seus opositores.

Dar ouvidos ao que ela diz, portanto, é de enlouquecer. Tentar agradá-la é frustrante.

Sua esquizofrenia social, aliada a seu histerismo coletivo, é um impeditivo à tentativa de manter qualquer tipo de diálogo com ela. Aliás, quem busca esse tipo de alternativa, invariavelmente, sofre uma grande decepção.

Como tudo o que ela diz parece já vir embalado, como um produto feito em uma fábrica qualquer, não havendo qualquer sinal de um pensamento original, nem mesmo um “flash” de uma mente independente, argumentar com ela, tentando mostrar suas incoerências é inócuo. Quem se dispõe à aventura sai louco ou descrente da humanidade.

Essa geração está nos conduzindo a tempos pós-racionais, nos quais a coerência lógica e a verdade não passarão de meros fetiches de intelectuais.

O que ela quer é o domínio do sentimento e a imposição de suas vontades. E não adianta reclamar, muito menos argumentar.

Acusação ou inferência O que realmente fizeram aqueles que chamaram Caetano Veloso de pedófilo

Existe uma diferença entre acusação e inferência. Tecnicamente, a acusação não pressupõe a culpa, apenas apresenta, diante de quem tem competência para o julgamento, a notícia de um suposto crime. Quem acusa chama à autoridade um fato, a fim de ver seu autor condenado por ela. O acusador não julga, apesar de fazer um juízo prévio.

A inferência, de maneira diferente, não faz nem juízo prévio, nem apresenta notícia alguma. Ela, simplesmente, conclui com base nos dados disponíveis. Não há julgamento, nem condenação, nem análise. Há apenas a aplicação de um raciocínio lógico, com sua devida conclusão.

Assim, dizer que aqueles que chamaram Caetano Veloso de pedófilo estão condenando-o ou mesmo acusando-o é um erro. O que eles fizeram foi apenas concluir, com base na narrativa da própria vítima, esposa do autor do crime, dando a este a nomenclatura própria para quem comete o ato que ele cometeu.

Talvez, a nomenclatura não esteja tecnicamente correta, pois o ato de manter relações com uma menor de 14 anos é tido, pelo Código Penal, não como pedofilia, mas como estupro de vulnerável e, na época, quando ele ocorreu, como, simplesmente, estupro.

Por isso, chamar Caetano de pedófilo ou de estuprador (como preferirem) não pode ser considerado calúnia, nem injúria, nem difamação, afinal, trata-se apenas da denominação própria dada, segundo as leis brasileiras, a quem faz sexo com uma criança. E quanto à ocorrência deste fato, não há dúvida alguma.

Pedofilia perdoada Por que um pedófilo não deve ser tratado como um doente pela lei penal

A doença é um estado, temporário ou permanente que, das maneiras mais diversas, causa algum tipo de limitação ou impossibilidade física ou mental ao acometido por ela. No entanto, os tipos de doenças são os mais variados e as formas como elas impõem-se sobre as pessoas diferem-se infinitamente. Portanto, tratar todas as doenças como se fossem iguais é um erro que, principalmente, tratando-se de leis e punições, pode acarretar sérias injustiças.

E foi exatamente isso que fez o senhor Denis Caramigo Ventura, em seu artigo Sim, pedofilia não é crime. O autor, ao tratar a pedofilia como doença, usa do subterfúgio de equipará-la, indiscriminadamente, a outros tipos de enfermidades que não possuem nenhuma relação, nem identificação, com ela. Com isso, ele acaba chegando à conclusão que os pedófilos devem ser tratados como doentes e, por consequência, não sofrerem a execução da lei penal como criminosos.

A verdade é que, desde que aceitemos seu pressuposto, a saber, a de que o pedófilo é um doente, o advogado até começa bem seu artigo, afirmando que a pedofilia não está prevista no Código Penal e que apenas comete ato criminoso quem pratica algum tipo previsto na lei. Isso quer dizer que um pedófilo, sendo alguém acometido de uma enfermidade, não é um criminoso, mas apenas pode tornar-se um se colocar em prática seus desejos.

O problema do texto vem em seguida, quando o senhor Ventura, em uma síntese previsível, passa a advogar a aplicação de medida de segurança (tipo de execução penal mais branda, em geral aplicada a praticantes de crimes de menor potencial ofensivo ou a doentes mentais) para o pedófilo que, eventualmente, venha cometer algum ato de violência sexual. Seu raciocínio é simples: se o pedófilo é doente e o doente não pode ser tratado como uma pessoa normal, então sua punição deve também ser especial, como a lei prevê para as pessoas enfermas.

Ocorre que o autor do texto comete o erro de confundir doença de desvio do desejo sexual, como seria a de um pedófilo, com doença mental, que é o tipo de enfermidade previsto no artigo 26, do Código Penal, citado pelo criminalista.

A lei penal fala de doentes mentais, que são aqueles que, no momento do crime, não possuem a plena consciência de seus atos, por alguma falha cognitiva própria. Do pedófilo, porém, ainda que seja tratado como um doente, não se pode dizer que, em algum momento de seu ato criminoso, não estava em posse de suas faculdades mentais e não tinha consciência de seus crimes. Se a pedofilia for uma doença, ela é daqueles tipos que despertam o desejo, ainda que forte, na pessoa, mas não lhe tira a consciência de seu ato, nem o torna irresistível. O pedófilo pode até ser um doente, mas não um doente mental, como são todos aqueles que não estão na posse de suas faculdades mentais.

Para requerermos que o pedófilo seja tratado conforme o previsto na lei penal, seria preciso que aceitássemos que ele está inexoravelmente impulsionado à violência sexual. Ocorre que, ainda que a pedofilia seja uma doença, nada indica que ela afete as faculdades cognitivas do criminoso. Pode ser um impulso, inclusive forte, mas não subtrai a consciência do autor da violência. A tendência pedófila pode até ser um fator de influência, nunca, porém, absolutamente determinante.

O fato é que, se o mero impulso for tido por atenuante da punição, isso deveria obviamente ser estendido a quase todos os tipos de crimes. Neste caso, qualquer assassino poderia afirmar que seu desejo pela morte do outro é um distúrbio, um impulso diante do qual ele não possui qualquer controle. Sendo assim, o argumento atenuador poderia, em tese, ser aplicado, ad infinitum, a todo tipo de crime, já que o criminoso, não raramente, possui algum tipo de distúrbio que o leva ao cometimento do ato criminoso.

É possível aceitar que trate-se a pedofilia como doença, como pode ser qualquer outra doença de cunho sexual ou não, mas aceitar que o pedófilo seja tratado como alguém que não está na posse de suas faculdades mentais e, por isso, não deve sofrer as duras penas da lei, é, pelas razões trazidas, praticamente inviabilizar o processo penal, tornando quase todo criminoso inimputável.

Pequenos ditadores

É interessante e, ao mesmo tempo, assustador como o moralismo puritano, tão criticado por aqueles que se dizem defensores das liberdades, está sendo revivido por eles, porém, agora, em uma versão muito mais perigosa, pois, enquanto o antigo puritanismo tinha uma base clara onde delimitava suas ações, a saber, a Bíblia, o novo moralismo é imposto a todos conforme o gosto do acusador, segundo suas mais íntimas percepções e seus mais idiossincráticos entendimentos. Assim, ninguém está a salvo diante de tantos pequenos ditadores.

Rebelde moderno

Muito da rebeldia moderna resume-se à contestação da sociedade, usando dos meios fornecidos por essa mesma sociedade e sobre os fundamentos postos por ela. Pior ainda, esse rebelde se nega veementemente a abandonar tudo aquilo que a sociedade lhe legou, sem abrir mão de seu direito de reclamar dela . Ele é como o filho que amaldiçoa a riqueza do pai, sem ele mesmo arrumar um emprego e vivendo às custas da família.

Pelo fim do monopólio universitário Proposta para matar ou reinventar a universidade brasileira

É do conhecimento geral que as universidades brasileiras se tornaram um antro de agentes de ideologização. Frequentar uma faculdade pode ser uma experiência degradante para qualquer jovem. O fato é que o pouco que se aprende por lá não compensa o mal que afeta a cabeça dos alunos.

Apesar disso, a universidade brasileira mantém sua força de influência social, mas isso não provém do conteúdo que nela é ensinado e sim por ela continuar sendo a única certificadora, por meio de seus diplomas, para o exercício profissional. Médicos, advogados, psicólogos e engenheiros, por exemplo, só podem trabalhar em suas respectivas áreas se forem formados em suas respectivas faculdades. Além disso, o próprio mercado aprendeu a exigir o diploma universitário para contratar seus empregados.

O que há, portanto, é um monopólio que reserva à universidade o direito de ser o que quiser, de agir como bem entender, de atuar até de maneira contrária aos interesses da sociedade, pois o seu poder está garantido pela autoridade que lhe foi constituída pelo nosso ordenamento e cultura.

Dessa forma, não vejo outra maneira de ferir seriamente a universidade brasileira, forçando-a a reinventar-se ou morrer, senão acabando com esse privilégio que ela possui de agir como praticamente a única autorizadora do exercício profissional.

Minha proposta, diante disso, seria bem extrema: permitir que qualquer pessoa exerça a profissão que bem entender, obviamente, sujeita à fiscalização, tanto do Estado como das entidades representativas de classe.

No entanto, tendo plena consciência que tal proposta seria extrema para a mentalidade atual de nossa sociedade, sugeriria que, para o exercício das profissões regulamentadas, fosse exigida apenas a aprovação em exame específico, nos moldes como faz a OAB. Assim, para que alguém pudesse trabalhar em determinada área, bastaria que fosse aprovado em provas que testassem seu conhecimento e preparo, independentemente de sua formação acadêmica.

Assim, caberia a cada pessoa preparar-se adequadamente para obter o certificado. Quem se sentisse capacitado poderia, inclusive, estudar por conta própria, sozinho, em casa. Quem preferisse aprender com professores e orientadores poderia fazer isso nas escolas dos mais diversos tipos e modelos que se ofereceriam para preparar adequadamente os candidatos, nos mesmos moldes como os cursos preparatórios para concursos.

O resultado disso seria, obviamente, a melhora da qualidade do ensino, porque cada escola, para manter-se no mercado, dependeria do resultado de seus alunos. Além disso, por causa da concorrência que surgiria, os preços praticados seriam mais condizentes com a realidade do brasileiro, além de permitir aos alunos maior liberdade de escolha.

Se isso fosse implantado, tenho certeza que as universidades precisariam rever seus conceitos, rever seus professores e, principalmente, rever seus currículos. Quem sabe, elas não voltariam à sua vocação original, que é a de formação de uma elite intelectual? Ou, então, simplesmente, poderiam se fechar em seus muros, regurgitando a ideologia de seus professores militantes, se deliciando na fumaça da maconha expelida por seus alunos, mas, pelo menos, só estaria lá quem quisesse experimentar esse mundo alternativo e estúpido que elas criaram.

Certeza e estagnação

Em muitas das decisões que tomei na vida, só senti paz quando elas de tornaram irrevogáveis. Enquanto estava naquela fase, quando ainda é possível voltar atrás, teve vezes que chegou a doer o estômago de tanta dúvida e medo.

No entanto, tenho plena consciência de que se for esperar ter certeza absoluta para fazer tudo o que eu preciso, quase nada será concretizado.

O fato é que quem depende da paz para agir, não está pronto para a realidade da guerra que é a vida. Quem precisa da certeza para tudo, a única certeza que terá é a sua própria estagnação.
Publicado no Vida Independente

Discussões virtuais Os dois tipos de posturas que se pode ter em um debate

Há duas formas de discussões para quem se dispõe a debater assuntos políticos ou religiosos. Fazendo analogia com um combate real, as partes podem entrar em uma guerra de canhões ou em uma luta de espadas.

No primeiro tipo de batalha, cada um fica do seu lado, atirando suas bolas de convicção, tentando destruir o adversário pela força. Em uma discussão assim, cada um lança seus argumentos, desde suas posições seguras, como eles já existem previamente, preocupando-se apenas que atinjam o inimigo com maior impacto. Não há, portanto, precisão, nem exposição. Apenas barulho e impacto. É uma luta covarde e sem honra.

A outra forma de enfrentar um debate é como em uma luta de espadas. Neste caso, cada lado, não apenas precisa treinar bem seus gestos, desenvolvendo os movimentos e a precisão, como precisa analisar o adversário, conhecendo suas técnicas, suas fraquezas e observando sua forma de lutar, para, aí sim, conseguir atingi-lo no ponto certo, causando sua derrota final. Neste tipo, cada parte se expõe para o adversário, se arrisca, entra em um jogo de vida ou morte que para vencer não basta a força, mas a inteligência e a precisão. É o tipo de batalha para nobres corajosos.

Infelizmente, são poucos debatedores que se dispõem à honra do duelo de espadas. O que eu mais vejo são tiros de canhão, barulhentos e a esmo, em um som repetitivo e enfadonho, que causam tédio em meio à guerra.

A certeza dos relativistas Sobre a confusão que se faz entre dúvida e relativismo

Há uma confusão que reside na mente de alguns iluminados que se consideram exemplos de fé inabalável: entender o vacilo do outro como relativismo. Insensibilizados pela própria arrogância e confundidos pela própria ignorância, acusam quem mostra algum tipo de hesitação, tipicamente humana, de serem propagadores de relativismo.

No entanto, relativismo não se confunde com dúvidas ou vacilos de fé. Enquanto estes se manifestam por situações relativas à experiência, como algum tipo de frustração ou pessimismo, o relativismo caracteriza-se por uma certeza intelectual: a de que tudo é relativo.

O relativismo é, de fato, uma convicção. Quem o defende, acredita, com absoluta certeza, que nada é absolutamente certo. E por mais que isso seja autocontraditório, é a realidade do pensamento do relativista.

Porém, entender que a certeza relativista é equivocada não significa que a única alternativa viável seja a certeza plena sobre todas as coisas. A convicção de quem está certo sobre tudo é tão frágil como a do próprio relativista.

A verdade é que a experiência humana é sujeita a diversas nuances, a graus de certezas variáveis e à realidade inescapável das alterações em relação às convicções que temos em relação aos objetos de nosso conhecimento. E mesmo a fé religiosa não é absoluta. Pelo contrário, ela sofre graus de variações, que é exatamente o que permite que se trabalhe para fortalecê-la. Se a fé fosse tudo ou nada, se simplesmente a tivéssemos ou não, não faria nenhum sentido pedir a Deus que a confirmasse ou a firmasse e não teria nenhum sentido o próprio Cristo dizer acusar seus discípulos de homens de pouca fé. O que pode ser pouco, pode ser muito, pode ser mais ou menos.

Acusar, portanto, alguém que possui incertezas e que talvez não consiga vivenciar plenamente sua fé, a ponto de não possuir dúvida alguma nessa área, de relativista, é um erro conceitual e também uma tremenda insensibilidade.

Pessoas que demonstram suas incertezas não são relativistas. Aliás, nem poderiam ser, afinal, sob um determinado ponto de vista, os relativistas não têm dúvidas.