Politicismo integral e a derrocada da cultura

Não escondo minha preferência por Jair Bolsonaro. Tenho convicção que ele é a melhor opção para o país, neste momento. Fiz dezenas de textos elogiando-o por suas características e virtudes. Ainda assim, bastou eu fazer uma pequena crítica ao candidato, ressaltando algo que entendi equivocado da parte dele – apenas um alerta para alguém que precisa estar atento em seu caminho rumo à rampa do Planalto – e logo surgiram aqueles que interpretaram minha crítica pontual como uma ação deliberada contra o candidato. Apesar de tudo o que eu já havia escrito, minha solitária reprimenda serviu para que alguns acólitos me tachassem de atuar contra Bolsonaro. Um deles, inclusive, disse que, com isso, mostro que estou em cima do muro.

Mas não é a reprovação de alguns que me preocupa. O mais importante, para mim, é ressaltar que essa atitude nada mais é do que um sintoma de uma doença que já tomou boa parte dos brasileiros e da qual eles sequer se dão conta. Essa doença, segundo a expressão cunhada por Oretga y Gasset, chama-se politicismo integral. Como afirmou o escritor espanhol:

“O politicismo integral, a absorção de todas as coisas e de todo o homem pela política é a mesma coisa que o fenômeno da rebelião das massas. A massa rebelde perdeu toda a capacidade de religião e de conhecimento. Não pode conter mais que política, uma política exacerbada, frenética, fora de si…”

O homem tomado pelo politicismo integral não entende que nem tudo, mesmo quando se refere às ideias políticas, é política efetivamente. São os marxistas que vociferam “Tudo é política! Tudo é política!”. Das ações partidárias à poesia escrita para a namorada, tudo, para eles, é ação política. Eles ignoram que há vastas áreas da experiência humana que estão além da política e até a desprezam.

Eu mesmo, tendo recebido vários convites para ingressar em movimentos políticos, neguei-os todos, peremptoriamente. Fiz isso, não porque eu entenda ser errado participar – muito pelo contrário! -, mas porque entendo que esta não é minha vocação. Acho muito válida a atitude de quem se embrenha nos meandros da política, mas, decididamente, não é o que me atrai – nem um pouco! Por outro lado, a política, como ciência e como fato social, me interessa demais, e por isso tento atuar junto a ela como um analista, como um crítico, como alguém que observa e comenta os passos que os verdadeiros atores políticos dão.

Porém, para algumas pessoas, não existe isso de não atuar politicamente. Para elas, tudo é política. No entendimento delas, qualquer fungada que você dê, qualquer peido que você solte, tem uma conotação política e uma intenção política. Elas não aceitam que alguém possa fazer algo sem interesse político, apenas com um objetivo científico ou de análise social.

O problema é que foi exatamente esse pensamento, que vê política em tudo, que provocou a derrocada da cultura, de uma maneira geral. É por causa dele que as escolas e universidades estão tomadas por ativistas políticos e os próprios professores já não conseguem enxergar a ciência fora da atuação política. Por isso, qualquer pesquisa precisa responder aos anseios da militância. Por isso, não se forma mais a inteligência, mas apenas o ativista.

E, apesar disso, muita gente, mesmo sendo crítica da ocupação feita por esses militantes em todos os poros culturais, acaba, sem perceber, agindo exatamente segundo os princípios deles. A verdade é que não adianta esperar a salvação da cultura nacional e o desenvolvimento da inteligência dos brasileiros se continuar a ver tudo como ato político. Enquanto não aprenderem a privilegiar a arte em si mesma, a ciência em si mesma, a cultura em si mesma e a inteligência em si mesma, vão continuar a experimentar a mediocridade intelectual que toma conta do país hoje em dia.

Somente o rebaixamento da política ao seu devido lugar fará com que a inteligência brasileira se liberte das amarras a que foi subjugada nas últimas décadas. Apenas a elevação da cultura para além da política e da militância fará com que, daqui a alguns anos, os brasileiros realmente possam participar dos altos círculos intelectuais do mundo e serem respeitados no universo científico.

No entanto, este não é apenas um recado para os que aparelharam os ambientes intelectuais oficiais, mas, principalmente, para aqueles que lutam contra esses invasores, para que não cometam o mesmo erro deles.

Descaso geral

Todos estão usando a tragédia do Museu Nacional que, em um incêndio, foi completamente destruído, para fazer seus discursos políticos. Sacam desavergonhadamente seus megafones para vociferar sua repentina indignação, despertada pela ardência do fogo, em cima do cadáver. 

No entanto, enquanto o moribundo gemia, corroído pelas traças do esquecimento que, pouco a pouco, o condenavam, quase nada ouvimos falar dele e de suas enfermidades. Nem mesmo de seus méritos e virtudes. 

Portanto, o descaso não é apenas governamental; é da sociedade mesmo. Se o Estado não valoriza a cultura e o conhecimento é porque o povo despreza-os em proporções ainda maiores.

Patrocínio descontado

Empresários brasileiros não possuem a cultura do financiamento, do apoio, da geração de valor cultural. Nem mesmo veem a arte como meio de melhorar sua imagem. Só pensam em patrocínio se puderem descontar no Imposto de Renda.

Meia-noite em Paris

Estaria, o homem de cultura, determinado a sofrer com a chamada “Síndrome da Era de Ouro”, condenado a enxergar o passado sempre como uma época superior e a lastimar todas as coisas que, imagina, eram melhores e foram perdidas? A pergunta que a estória de Woody Allen, Meia-Noite em Paris, faz são estas. De uma maneira um tanto surreal, com uma leveza surpreendente para o casting de atores escolhidos e sem perder a estética de um filme moderno, ele brinca com a ideia de seu personagem, um escritor apaixonado pela literatura dos anos 20, poder viver, ainda que por alguns instantes, naquele período visto como mais atraente e estimulante.

E quantos de nós, muitas vezes, não temos saudade do que não vivemos, derramando pesadas reclamações sobre nossa própria época, acreditando que tudo hoje está perdido, restando, talvez, se refugiar nos documentos que nos remetam aos tempos áureos, quando as pessoas eram mais felizes, mais inteligentes e mais satisfeitas?

De fato, quase não há como fugir de tais sensações. Isso porque a pessoa que pensa, que medita sobre a realidade, acaba, por conta de sua sensibilidade e perspicácia, captando as mazelas da vida, percebendo que muitas coisas não estão no lugar que deveriam estar. Inescapavelmente, o homem que reflete acaba por olhar para trás, para o passado, mesmo aquele que ele mesmo não viveu, e o toma como uma época melhor que a sua, quando o mundo parecia mais harmonioso, menos superficial e mais inspirador.

Ao fazer isso, porém, acaba não notando que tais sentimentos não são próprios de seu tempo, mas de todos os tempos. Os intelectuais do passado também se lamuriavam pelas virtudes abandonadas pelos seus contemporâneos. Desde os pensadores romanos, como Cícero, Marco Aurélio, Sêneca e Varrão, passando por toda a intelectualidade ocidental até os dias de hoje, a exclamação O Tempora O Mores*, fora exprimida por cada um, de sua própria maneira, em sua própria língua, em seu próprio tempo.

Também não percebe que, ao lançar para o passado todas as virtudes e todos os bens, acaba por abandonar sua própria realidade, deixando de a ter como uma oportunidade para fazer o que deve ser feito. Não que as degradações não sejam progressivas, nem que, cada vez mais, o mundo não pareça inexoravelmente mais corrompido e insolúvel. Porém, apesar de tudo, este é seu tempo, esta é sua vida e aqui estão suas possibilidades e, principalmente, oportunidades. Negar isso, de alguma forma, é negar a si mesmo, de uma maneira que, ao invés de fazê-lo superior, torna sua existência vazia e sem sentido. O que uma pessoa é depende do que ela faz com que está a sua disposição, em seu momento presente, e é sobre isto que ela deve trabalhar a fim de transformar sua presença neste mundo minimamente relevante.

Eu mesmo acho minha época deprimente. Não sou nem um pouco entusiasta de minha geração. A impressão que tenho é que o mundo fora melhor sempre e que, neste instante, quando existo, ele vive sua fase mais degradante. Mas, seria, por isso, a fuga para o passado a solução para este mal? Certamente, não.

No entanto, se os males presentes são reais e se simplesmente retornar a um passado fantasiosamente glorioso não é a solução, como manter a esperança na existência humana e torná-la, ao menos em si mesmo, algo de valor? A resposta do filme, que talvez tenha ficado escondida para alguns olhares menos sensíveis, é que há valores universais que permanecem e são neles que iremos encontrar os fundamentos para a própria existência. Talvez, no roteiro, isso tenha sido simbolizado pela própria Paris, cidade das luzes, mas é certo que havia algo mais ali. Não são apenas as luzes de uma cidade que permanecem, mas os olhares é que se renovam. E se Paris, de alguma maneira, mantinha seu charme, é porque, apesar das mudanças, permanecia nela algo inalterável. Assim é a vida! Podem ocorrer mudanças e degradações visíveis, mas sempre haverá valores fundamentais que permanecerão. E são sobre estes que o homem sábio fincará seus alicerces.

* Ó Tempos! Ó Costumes! Exclamação de Cícero contra a depravação de seus contemporâneos.

O vazio da nossa geração

É interessante a quantidade de filmes, desde os anos 90, que tratam da falta de sentido. São roteiros sem trama, sem estórias, que apenas mostram a completa ausência de razão para a vida. Normalmente, com personagens jovens, que refletem como esta atual geração não sabe para onde vai, nem quem é, esses filmes me parecem ser, simplesmente, o espelho do nosso tempo.

As gerações mais afetadas por essa ausência de sentido são daquelas pessoas nascidas entre o final dos anos 60 e o comecinho dos 80. Eles são os herdeiros daqueles idealistas que queriam mudar o mundo, que balançaram o planeta com suas bandeiras de libertinagem e amoralidade e legaram para seus filhos nada mais do que ilusão.

Os filhos do amor livre viram seus pais traírem a si mesmos. Estes se tornaram o oposto do que diziam ou, simplesmente, se afundaram naquela visão utópica da vida, que na realidade mostrou-se bem menos florida do que eles mesmos acreditavam. São pais sem autoridade, sem força e sem visão. Abandonaram os princípios e agora que precisariam deles não sabem o que fazer.

Quando esses novos roteiristas apresentam essas películas niilistas percebe-se quase um desespero, uma tentativa de encontrar por detrás dessa total falta de razão algum sentido oculto. Mas que sentido pode haver em uma existência sem fundamentos e sem transcendentalidade? Infelizmente, para esses autores, não há sentido mesmo.

Não há onde buscar algum motivo para a vida quando seus alicerces foram lançados longe. O resultado, então, é a completa falta do que falar, a dificuldade em enxergar algum rumo.

Paradoxalmente, sempre quando assisto alguns desses filmes, eles me fazem pensar talvez até muito mais do que pretendem seus próprios criadores. Me fazem refletir o esforço que a minha geração tem feito para entender a si mesma e o quanto ela tem falhado nessa busca. Me fazem entender, enfim, que enquanto ela não olhar para trás, onde estão os fundamentos de toda a existência e para o alto, onde está a razão de todo o ser, ela vai continuar meditando sobre o nada que é como se apresentam seus próprios dias.

O missionário e o índio

Dentro do ambiente acadêmico brasileiro, dizer que uma sociedade é superior a outra soa arrogante. É que, hoje em dia, há uma convenção, alardeada por todas as esferas ditas intelectuais deste país, de que não há diferenças valorativas entre as culturas. Com isso, toda alusão ao progresso e às conquistas de um povo acaba recebendo o estigma de preconceituosa. Apontar os erros históricos de nações ou identificar que práticas de uma cultura são inferiores, sem valor ou até maléficas, chega a ser considerado um crime.

A universidade brasileira está tomada por essa ideia. Praticamente, não há um professor de Sociologia, Antropologia ou História que não repita essa mesma ladainha. E o aluno que ousar contestar isso, certamente, será tido por intolerante, quando não ignorante.

Para mostrar como a ideia de igualdade valorativa das culturas está fundada em falácias, trago como amostra o que escreveu, em um livreto muito acolhido nas faculdades brasileiras, chamado Etnocentrismo, o professor da PUC-Rio, Everardo Rocha.

Logo no início do livreto, o autor conta uma estória:

Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens, um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. Muito generoso, comprou para os selvagens contas, espelhos, pentes etc.; modesto, comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes, alarmes, fazer contas, marcar segundos, e até dizer a hora sempre absolutamente certa, infalível (…) Tempos depois, fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas, especialmente, do barulhento, colorido e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. Um dia, por fim, vencido por insistentes pedidos, o pastor perdeu seu relógio dando-o, meio sem jeito e a contragosto, ao jovem índio.

Na sequência, o professor fala do destino dado ao relógio pelo índio:

A surpresa maior estava, porém, por vir. Dias depois, o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe, muito feliz, seu trabalho. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia, o índio fez o pastor divisar, não sem dificuldade, um belo ornamento de pensas e contas multicolores tendo no centro o relógio.

E termina a estória, narrando o retorno do missionário para sua terra:

Passados mais alguns meses o pastor se foi de volta para casa. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e, naquela manhã, dar uma última revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização (…) Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do seu escritório. Nelas, arcos, flechas, tacapes, bordunas, cocares, e até uma flauta formavam uma bela decoração.

É na sua conclusão, no entanto, que o professor Everardo Rocha, demonstra como ele pode ser considerado um modelo exato da fragilidade do pensamento universitário brasileiro. Isso porque ele simplesmente afirma que ambos os personagens fizeram, obviamente a mesma coisa. Privilegiaram ambos as funções estéticas, ornamentais, decorativas de objetos que, na cultura do “outro”, desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas.

O que ele disse parece até correto, se não tivesse implícita uma percepção equivocada dos fatos, que ele vai deixar clara na sequência, quando afirma, sobre o índio e o pastor, que cada um “traduziu” nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do “outro”.

Seu equívoco reside, exatamente, em interpretar que o pastor, ao dar um destino decorativo para os objetos indígenas, agiu da mesma maneira e com o mesmo intuito que o índio, quando este ornamentou o relógio recebido de presente.

Ao tentar mostrar uma equivalência nos atos, tentando, assim, mostrar que as culturas simplesmente são diferentes, mas não, necessariamente, superiores ou inferiores, o autor acaba demonstrando exatamente a superioridade da cultura do missionário.

Isso porque, diferente do índio, o missionário deu um destino ornamental aos instrumentos indígenas, não por não saber para o que eles serviam, mas exatamente pelo contrário. As flechas, a flauta e o cocar nas paredes de seu escritório remetiam, para quem que os contemplasse, para a realidade da vida dos índios e para o uso adequado dado aos objetos no contexto próprio destes.

Ao contrário do que o professor Everardo disse, os personagens não fizeram a mesma coisa. O autor, ao tentar mostrar equivalência de intenções onde havia apenas similaridade exterior acaba provando exatamente o contrário do que pretendia.

Isso porque, ao pendurar em suas paredes os objetos indígenas, tendo plena consciência, obviamente, de qual era o destino dados pelos próprios índios a cada um daqueles instrumentos, o missionário demonstrou entender exatamente, não apenas a realidade de sua própria cultura, mas também a alheia. O jovem índio, por outro lado, ao ornamentar o relógio recebido do pastor e pendurado ele em uma árvore, simplesmente porque não sabia usá-lo e não compreendia qual sua utilidade na cultura do visitante, demonstrou sua ignorância quanto a tudo isso.

 O que o autor do livreto acabou provando é que a cultura do missionário é, no mínimo, mais abrangente que a do índio. Sendo assim, provou, também, se bem que sem perceber isso, que a cultura do pastor é, de alguma maneira, superior, sim, já que pode perfeitamente absorver a cultura indígena se quiser, pois tem plena consciência de como ela funciona.

Isso porque o valor de uma cultura é medido pela presença nela de elementos universais, que a possibilitem exatamente transitar por outras culturas sem perder sua própria identidade. É por isso que a cultura europeia era considerada superior à indígena latino-americana, pois podia ingressar no ambiente cultural desta sem sofrer perda de suas próprias características. Já uma cultura como a aborígene, por exemplo, por ser inferior, não sobrevive, sem perder sua essência, se for inserida em outros ambientes culturais.

O professor Everardo Rocha não ter percebido algo tão óbvio, sendo que seu trabalho é acolhido em tantas universidades brasileiras, apenas confirma a pobreza intelectual que assola nossa academia.

‘A Morte da Razão’, de Francis Schaeffer

O homem integral se desfez em pedaços e talvez não se junte jamais!

O desespero do homem moderno não é fruto de seu materialismo, mas de uma espiritualidade vazia de sentido, que valoriza o místico por ele mesmo, não havendo com quem manter comunhão. Tendo substituído a visão do homem integral pela dissociação da graça e da natureza, o ser humano acreditou ter encontrado a liberdade, mas se deparou unicamente com a angústia. Vivendo uma autonomia sem fundamentos, tornou-se escravo de sua própria liberdade, restando apenas a desesperança de qualquer redenção razoavelmente racional.

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