Autismo intelectual

Boa parte das pessoas com quem tenho contato argumenta muito mal. No entanto, percebo que o maior problema delas não está na forma como concatenam suas ideias, mas argumentam mal porque ouvem muito mal.

Apesar de identificar não ser incomum que muitos desses argumentadores possuam deficiências cognitivas sérias, ainda percebo que o maior problema que carregam é um severo autismo intelectual.

E com autismo intelectual quero dizer de uma tendência a, mesmo quando participantes de debates e discussões, onde pressupõe-se que todos os envolvidos devem ser considerados em suas exposições, fechar-se dentro de sua própria cabeça, revolvendo-se unicamente em seus próprios raciocínios, ignorando completamente as razões do que é dito pelos outros.

E como é típico do autismo, o que os outros expressam não é compreendido em toda sua força argumentativa e lógica, mas apenas em sua expressão mais superficial, causando, no autista intelectual, uma reação que nada tem a ver com o objeto da disputa, mas apenas com o mundo interno que o acompanha.

Por isso, acredito que para o desenvolvimento de uma mente sadia e de uma inteligência capaz de participar ativa, coerente e eficazmente de debates intelectuais, antes de qualquer treinamento argumentativo, filosófico ou cultural, a pessoa deve aprender a ouvir.

Saber ouvir significa ter a atenção despertada para o que acontece ao redor, para o que existe para além de si mesmo, para o que os outros dizem e para os eventos que estão fora de seu mundo interior. Saber ouvir é o princípio de qualquer atividade intelectual porque só assim é possível alimentar a mente para futuro uso do material absorvido.

E para aqueles que se envolvem em discussões, saber ouvir é o primeiro passo para bem argumentar. Afinal, em um debate, não existem bons argumentos se não aqueles que atacam o problema em seu âmago e que abordam exatamente aquilo que o outro está tratando. Sem isso, há apenas uma taramelagem enfadonha, que geralmente só tem sentido e importância para o tagarela que está falando.

Abstratismo epidêmico

Parece até um contrassenso, mas quanto mais as pessoas possuem deficiências cognitivas mais elas tendem a se abrigar sob as asas do pensamento abstrato.

Quase sempre, quando eu peço para meus novos alunos exporem alguma ideia, logo eles veem como uma miscelânea de frases prontas, slogans e expressões de efeito que, na primeira análise um pouco mais acurada, percebe-se que não querem dizer coisa alguma.

Chego a considerar que o abstratismo já é uma grande epidemia cognitiva, que afeta a maior parte das pessoas. E isso porque ele é como que um refúgio, onde elas se escondem para não ter de pensar as coisas como realmente as coisas são.

Afinal, é muito mais fácil falar sobre ideias que pairam nas nuvens e não podem ser colocadas à prova, do que se comprometer expondo algum pensamento que possa ser visualizado materialmente e, por isso, sujeito a todo tipo de análise e crítica.

É bem mais tranquilo lançar expressões como, por exemplo, “liberdade acima de tudo”, “alcance seu sucesso”, “todos são iguais” e “o importante é ser feliz” do que demonstrar, com argumentos e exemplos, como essas coisas se dão de fato.

Quando eu insisto e peço para materializarem o que dizem, invariavelmente percebem que nenhuma dessas expressões, nem qualquer outra ideia abstrata, é tão absoluta quanto parecia quando foram ditas dessa maneira desapegada da realidade concreta.

Por isso, se você quer ficar mais inteligente, force-se a sempre visualizar a concretude daquilo que está saindo da sua boca. Pergunte-se sempre como aquilo acontece na vida real e como se materializa. Questione-se se o que você está pensando é aplicável na realidade e se funciona de verdade. Desça do céu abstrato e coloque à prova suas ideias, deixando-as surgirem como corpos reais, sujeitos, por serem visíveis, a todo tipo de ataque.

Depois disso, fique apenas com aquelas que permanecerem intactas, deixando para trás as que se mostrarem fragilizadas e enfraquecidas. Pois, se você insistir em carregá-las, serão um peso morto insuportável, que servirá apenas para transformar sua caminhada em uma verdadeira ‘via crucis’ intelectual.

Retórica desperdiçada

Até meados do século XX a retórica fora jogada à margem dos estudos da linguagem, naquele afã pela busca de uma forma de dizer que pudesse ser rastreada cientificamente. Viu-se, porém, com o tempo, que isso, além de impossível, era simplesmente um desperdício das possibilidades que o estudo da arte do bem falar permite.

Inteligência e confusão

Mais do que burras, as pessoas são confusas. Muito daquilo que chamamos de burrice nada mais é do que a dificuldade de colocar em ordem os pensamentos, de maneira que eles se tornem claros o suficiente para permitir entender a realidade.
 
Mesmo pessoas de nível cultural inferior, dentro daquilo que seu conhecimento lhes permite saber, poderiam pensar com muito mais claridade se aprendessem a organizar aquilo que está na cabeça delas.
 
É por isso que vemos tantos considerados intelectuais falando asneiras e tomando posições estúpidas. Por mais que tenham muitas informações em suas cacholas, estas são apenas um emaranhado de dados, sem conexão, sem ordem, sem sentido.

Da diversidade de pressupostos

Quando desenvolvemos qualquer tipo de ideia, é imprescindível discernir sobre quais pressupostos estão baseados nossos raciocínios. Muitas vezes, eles são apenas especulações baseadas em percepções subjetivas ou inferências pessoais não colocadas à prova por outras pessoas e outros meios. Então, tudo parece perfeitamente lógico a ainda que cansemos de refletir sobre o assunto, não conseguimos captar qualquer contradição ou erro.

E apesar de todo raciocínio exigir um princípio que o sustente, boa parte deles é apenas retroalimentação do que é pensado sobre os mesmos pressupostos e apenas funcionam se esses pressupostos forem seguidos estritamente.

Todas as filosofias modernas são assim, mas as próprias religiões também. Se as conclusões materialistas só têm sentido quando respeitado o princípio de que tudo tem fundamento na matéria, o calvinismo apenas se sustenta quando obedece-se a Sola Scriptura e de uma maneira bastante rígida. O próprio catolicismo, para ser acolhido plenamente, exige a aceitação de diversos pressupostos que lhe darão a base para suas ideias e conclusões.

É evidente, portanto, que a quase totalidade das discussões que abundam por todos os lados são absolutamente inócuas, pois não tratam de examinar os pressupostos, mas altercam sobre ideias definitivas. Os debatedores raciocinam sobre fundamentos completamente diferentes, a partir de pressupostos totalmente dissonantes, e ainda querem discutir o que se lhes apresenta, que tem apenas aparência de similaridade, mas acabam sendo coisas completamente diferentes.

Esperar, assim, que frutifique algo dessas controvérsias é o mesmo que aguardar que do cruzamento de uma égua com um jumento nasça um quarto de milha. Na verdade, apenas multiplicam-se os burros.

Conversas de malucos

A loucura de uma época pode ser observada pela dificuldade que há nela para as pessoas se comunicarem. Como em um hospício, onde cada indivíduo, apesar de compartilhar o mesmo espaço físico com outros, vive em seu próprio mundo, não tendo suas palavras valor para ninguém mais além dele mesmo, pelo simples fato de representarem apenas as imagens existentes em sua cabeça demente, em nossa sociedade, que tem se assemelhado muito a um grande manicômio, as pessoas mal têm conseguido trocar ideias, debater opiniões ou mesmo exortar-se mutuamente. Cada um tem vivido em seu próprio mundo, com suas próprias fantasias e com suas falsas convicções.

Este é o nosso mundo: um aglomerado de pessoas que não compartilham mais, entre si, os mesmos princípios, o mesmo imaginário, sequer a mesma visão da realidade. Sobraram apenas a linguagem, em sua manifestação meramente funcional e os trabalhos práticos – coisas que existem em qualquer hospital para malucos.

Chegamos a esse ponto, sim, mas não foi por acaso. Isso é resultado de um relativismo plantado há séculos e que agora começa a dar seus últimos frutos. Assim, vivemos um completo desacordo relativo às coisas superiores, sendo que muitos sequer acreditam que existam coisas superiores. Há também uma discordância absoluta nas questões essenciais da vida. O que para uns é um mal aterrador, para outros pode significar o maior exemplo de nobreza e até bondade. Cada um, de fato, vive suas próprias verdades e como louco as professa como realidades universais.

Por isso, não podemos mais acreditar nos debates. As visões de mundo são tão diversas e discrepantes que iniciar uma discussão qualquer é mergulhar em um buraco negro de ideias e palavras que ainda que possuam aparência de realidade, não sabemos bem onde vai dar.

Ainda que exista uma pequena minoria de sãos, a maior parte do mundo está dividida em três tipos de pessoas: os imbecis, os lunáticos e os corrompidos. Os primeiros simplesmente vivem dentro de suas possibilidades limitadas. Tentar travar alguma conversa minimamente complexa com eles é perda de tempo. São estúpidos e permanecerão assim. Os segundos, apesar de possuirem alguma inteligência, têm a imaginação tão apartada da realidade comum que qualquer coisa que se diga a eles é logo transmutado para sua realidade paralela. Estes são os idiotas úteis que tiveram suas cabecinhas encharcadas com o lodo ideológico e, depois disso, não conseguem enxergar nada além do mundo de mentira da utopia. Já os últimos até entendem o mundo e estariam aptos para uma boa conversa, mas seus interesses corroeram tanto sua alma que nada mais lhes interessa senão tirar vantagem de tudo que se apresentar diante deles. Estes são os ditos intelectuais militantes, capacitados, sem dúvida, mas tão consumidos pelos seus desejos de poder que não há nada que se possa falar para eles sem que tentem tirar proveito de tudo a seu favor.

Viver neste mundo, portanto, é estar, a maior parte do tempo, em isolamento. O que nos restou é o silêncio involuntariamente promovido pelos nossos interlocutores. Na sociedade atual, já não é possível nem mesmo a repreensão, pois esta pressupõe que ambos, repreensor e repreeendido, compartilham os mesmos princípios. Mesmo Cristo, se viesse hoje à Terra, não teria mais como exortar os fariseus. Os de seu tempo, no mínimo, aceitavam os mesmos pressupostos que ele. Atualmente, suas broncas seriam apenas sua mera opinião.

A inversão dos termos na modernidade

O mundo de hoje não se importa mais com o que as palavras significam
A sociedade contemporânea, vítima de décadas de propaganda ideológica, está sofrendo de uma mal silencioso, porém terrível: o ressignificar constante dos termos*. Hoje, já não é possível mais ter certeza se o que falamos está sendo entendido da mesma forma por quem escuta. E o problema não reside apenas em uma questão de nível cultural, mas de imaginário mesmo.

Continuar lendo