Categoria: Teologosofia

Reflexos de Deus

No homem, o corpo, a carne, é a sua parte inferior; é aquilo que se relaciona com seus impulsos, suas reações; é sua animalidade. A mente, o espírito, é sua parte superior, onde reside tudo o que é consciente.

Em Deus, não há corpo, não há carne. Por isso, não há impulso, nem instinto. Nele, nada é sem consciência. Nada é reação, tudo é razão. Deus é razão pura.

A transcendência divina significa, simplesmente, que esse Deus não se rebaixa à animalidade, mas paira, impassível, para além do mundo dos instintos. Seu reino é espiritual.

Obviamente, um Deus não animal, não carnal e não humano, a quem nada pode guiar e que não sofre qualquer tipo de impulso inferior, acaba se tornando distante.

O cristianismo, porém, subverte a concepção da divindade fria e impassível, humanizando-a. O Deus cristão se faz carne, aquela mesma carne inferior, reativa, impulsiva e inconsciente.

Mas como isso seria possível? Como o Deus transcendente pôde assumir uma natureza inferior e completamente diferente da dele? Talvez, por essa natureza não lhe ser assim tão diferente.

O homem é obra de Deus e toda obra existe, antes, no espírito do seu criador. Por isso, o homem, antes de existir, foi pensado por Deus e, assim, gerado do interior do ser divino. A carne não é estranha a Deus porque nela ela esteve antes de ser.

Deus permanece em nós mesmo quando passamos a ser mais do que uma ideia dele. Somos a expressão do seu ser e, por isso, carregamos em nós sua essência. Somos semelhantes a Deus porque trazemos sua imagem, por refletirmos seu ser em nós.

Independentemente de tudo aquilo que nos afasta de sua perfeição e pureza, há uma fagulha divina que sobrevive em nosso ser mais profundo. O que temos de Deus não é toda a sua infinitude, mas resquícios dos seus atributos. Somos como pequenos deuses, cópias imperfeitas daquele que nos criou. Seus atributos estão todos em nós, mas de maneira atenuada, parcial e dependente dele.

De qualquer forma, a humanidade, a carnalidade, não é estranha a Deus. Rebaixar-se a ela não foi um ato de alguém que desce ao desconhecido, mas que se permite envolver-se na realidade inferior que conhece muito bem.

O Verdadeiro Pecado de Adão

Para que alguém seja condenável é necessário que seja, antes, livre para pensar e, portanto, decidir. Sem essa liberdade, seria inimputável, refém de um destino determinado desde fora.

A liberdade, por seu lado, possui o impulso por expansão. Quem pensa quer pensar sempre mais, conhecer sempre mais. Por isso Aristóteles dizia que os homens têm um desejo natural pelo conhecimento. 

O pecado de Adão, considerando que ele era livre, não foi o exercício da liberdade de pensar, mas sua extrapolação. Pecou por reivindicar autonomia e querer entender as coisas por conta própria, tornando-se conhecedor do bem e do mal.

Deus jamais exigiria que os homens abdicassem de sua liberdade de pensar. A ideia sempre foi auxiliá-los no processo de desenvolvimento do conhecimento e da autoconsciência. Mas eles invejaram os deuses e, não contentes em ser livres, quiseram ser soberanos.

A partir do pecado adâmico, a sina humana passou a ser repeti-lo continuamente. A história do pensamento é a história de indivíduos tentando, por si mesmos, desvelar realidade.

Quando, porém, por volta do século XVIII, eles acreditaram estar aptos para concluir sua missão, constataram que eram incapazes de fazê-lo. Perceberam que não podiam confiar em seus sentidos e se conformaram em afirmar a suficiência de seus conteúdos internos.

Com a constatação da incognoscibilidade do real, os homens romperam com ele e lançaram-se numa queda vertiginosa para dentro de si mesmos, onde havia só escuridão e ecos de ruídos fracos e reflexos plácidos do mundo exterior.

Cada um então tornou-se sua própria caverna, com a conscência acorrentada, olhando apenas as sombras da realidade, tratando-as como se realidade fossem. 

A partir dessa penumbra interior, os indivíduos passaram a clamar por resgate. Envoltos em escuridão, esperam que alguém lhes mostre a luz.

O problema é que, incapazes de discernir a origem das ajudas que lhes são oferecidas desde fora, acabam aceitando o socorro das primeiras vozes que lhes parecem fazer algum sentido. Não por acaso, estão sendo constantemente enganados.

A Racionalidade do Cristianismo

Quando abri o NEC, o objetivo era compartilhar, com quem se interessasse, minhas investigações teológicas e filosóficas. A proposta era oferecer reflexões mais profundas do que aquelas que comumente são feitas nas comunidades religiosas.

As abordagens tinham sempre um viés filosófico, mesmo quando os assuntos envolviam religião e espiritualidade. Sempre procurei manter um nível intelectual superior e mostrei para os meus alunos o quanto o cristianismo era uma proposta inteligível, perfeitamente compatível com análises racionais.

Fiz muitos amigos nessas aulas e trouxe para perto muitos companheiros antigos. No entanto, um deles sempre se negou a participar dos meus cursos. Não por ser despreocupado de assuntos intelectuais, mas porque, segundo suas palavras, a teologia não lhe interessava, afinal, ele era uma pessoa muito lógica.

Não sei se vocês conseguem captar o que está por trás do argumento do meu amigo. Segundo ele, estudos teológicos, que estão baseados em uma perspectiva religiosa e espiritual, não possuem a racionalidade mínima para satisfazer as necessidades lógicas de uma pessoa que valorize a inteligência.

Chesterton, certamente, identificaria, nesse meu amigo, o reflexo da forma moderna de pensar. No capítulo “O Suicídio do Pensamento”, do seu livro “Ortodoxia”, ele trata dessa característica que faz da modernidade arrogante e, ao mesmo tempo, contraditória.

O pensamento moderno enxergou-se como o ápice da racionalidade humana. O orgulho racionalista, cientificista e positivista eram evidentes. Ele realmente acreditou que havia superado a “superstição” medieval. De fato, seu objetivo era libertar-se das amarras do pensamento religioso. Ele queria ter autonomia para desenvolver, por si mesmo, as investigações para a compreensão das coisas. Para isso, escolheu abandonar as bases que sustentavam o cristianismo, como a Revelação e a religião.

No entanto, a modernidade não tinha como, simplesmente, negar os valores e princípios cristãos. Restou, então, para ela, replicá-los, porém, fragmentando a realidade que os sustentava. Levantou-se então contra o sistema de pensamento do cristianismo, não o negando, mas despedaçando-o.

O problema é que essa fragmentação do cabedal intelectual cristão, em vez de conduzir o pensamento humano para uma racionalidade superior, fê-lo tresloucado. Isso porque “quando um sistema religioso é estilhaçado (como na Reforma), não apenas os vícios que são liberados, mas as virtudes também são liberadas”. As ideias cristãs permaneciam vivas, mas agora, isoladas, passaram a vagar, sem rumo, no mundo. Isso fez com que ele ficasse “cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas”.

Todavia, essa arrogância não foi apenas uma busca por independência, mas, por mais estranho que pareça, representou uma verdadeira revolta contra o excesso de razão escolástico. Sim, a modernidade, que se apresentou como a superação da superstição medieval, na verdade, estava apenas se levantando contra seu racionalismo.

Isso porque os intelectuais da Idade Média desenvolveram um sistema extremamente racionalizado de pensamento, o que só foi possível porque o cristianismo é uma religião essencialmente racional por ser uma revelação da realidade, a ser compreendida de maneira inteligente pelos homens; apresentar uma proposta que, para se tornar eficaz, depende de que o indivíduo a aceite racionalmente; conter diversos elementos moralizadores que são reflexo de uma doutrina, o que exige uma coerência lógica entre esta e o regramento que lhe segue. Inclusive, nas Escrituras, o próprio Messias é identificado com o Logos, que na filosofia grega representava a Razão. Essa relação é tão íntima que, não por acaso, “na medida em que a religião já desapareceu, a razão vai desaparecendo”.

O cristianismo nunca poderia ser um inimigo da razão, mas era necessário que fosse fiel a ela. A sobrevivência da religião sempre dependeu da manutenção de sua racionalidade. Esse é o motivo por que a religião católica (e mesmo a protestante) desenvolveu sistemas rígidos de proteção à coerência da fé. As inquisições, concílios e confissões existiram exatamente para proteger a inteligibilidade daquilo que era pregado, buscando impedir, com isso, que a religião se desvirtuasse em uma afronta ao pensamento. “Os credos e as cruzadas, as hierarquias e as horríveis perseguições foram organizadas para a difícil defesa da razão. São todas sombrias defesas erigidas em volta de uma autoridade central – a autoridade do homem de pensar”.

O fato é que, sendo o cristianismo uma expressão da própria realidade, comprometido com a verdade em sua inteireza e, por isso, completamente dependente da razão, qualquer tentativa de superá-lo não poderia culminar, por mera impossibilidade lógica, em algo superior, mas só poderia acabar, apesar de sua arrogância, em um tipo de racionalidade inferior.

Indigente espiritual

Cercado pelos vitrais da catedral e acariciado pelo som da voz do ministro, sente-se seguro. Enquanto outros estão por aí, perdidos nas delícias deste mundo, ele cumpre com suas obrigações devocionais. Todo o ornamento ritualístico e o exercício da fé lhe garantem a paz. Sua consciência está aplacada pela certeza de ser um homem piedoso.

Enquanto a puta chora seus pecados pelas manhãs e o bêbado promete que vai mudar de vida, o fiel, satisfeito consigo, nem sequer considera que lhe falte algo. Ao ouvir que é preciso imiscuir-se numa relação mais profunda com a divindade, ignora o conselho, como quem acabara de escutar uma poesia em língua estrangeira.

A religião, nele, desvia-se de seu papel de aplainadora do caminho que conduz ao céu para servir de instrumento para o apaziguamento da consciência. Ela encontra o indigente e, em vez de estender-lhe a mão e oferecer-lhe socorro, convence-o de que está tudo bem, ornando-o com uma roupa bonita e uns acessórios vistosos.

Antes dela, o mendigo ao menos poderia olhar para si mesmo e, contemplando sua miséria nua, convencer-se de sua necessidade. Porém, agora, com as vestes emprestadas da religião, não consegue sequer enxergar sua pobreza. Sente-se rico, apesar de desafortunado. Convence-se de que é próspero, apesar da alma esquálida pela falta de alimento espiritual.

Espanto e familiaridade em relação à realidade

A ideia de que a realidade está justamente dividida entre o mundo material e o transcendente, de alguma maneira, tranquiliza-nos. Enquanto o céu representa o misterioso, o numinoso, a terra é para nós a segurança do mensurável e previsível. E o conforto dessa dualidade reside exatamente no fato de que a existência dessas duas realidades permite-nos o trânsito entre elas conforme nossas necessidades e conveniências. Quando o transcendente parece-nos por demais aterrorizante, por tratar-se essencialmente do desconhecido, sempre podemos abrigar-nos nas certezas das coisas terrenas. Quando, por outro lado, o mundo torna-se por demais sufocante, por causa da pressão de sua entediante previsibilidade, há sempre as coisas do alto para onde é possível escapar.

Essa convicção acaba sendo como um ponto de equilíbrio que parece sustentar nossa sanidade.

A verdade, porém, lança sobre nós a afirmação perturbadora de que o céu e a terra não encontram-se cindidos, como alguns apóstolos da modernidade, como Kierkegaard, quiseram dar a entender. Ela ensina-nos que o céu e a terra unem-se em uma mesma realidade e nos relacionamos com ambos, não em momentos distintos, mas de maneira intercambiável.

Relutamos em aceitar essa verdade porque a separação entre terra e céu representa o conforto que temos de que haverá sempre um dos dois mundos para onde poderemos escapar.

Surge, então, Chesterton, confirmando a supressão da nossa antiga certeza, colocando o céu e a terra unidos em uma única realidade, e acrescentando um questionamento para deixar-nos ainda mais atordoados.

Com sua pergunta, antes de tudo, ele faz deparar-mo-nos com o que talvez represente o nosso maior temor: o confronto com a dubiedade desta existência. Se antes havia, de um lado, a segurança e familiaridade daquilo que conhecemos e com o que nos identificamos e, de outro, o espanto e maravilhamento do mistério superior, agora precisamos aceitar que a realidade é uma só e não há para onde fugir.

Mas sua pergunta, diferente do que pode parecer em um primeiro momento, não traz aquele peso do desconforto que essa nova verdade poderia descortinar. Pelo contrário, ao indagar “como podemos imaginar ficarmos ao mesmo tempo assombrados com o mundo e, mesmo assim, nele nos sentirmos em casa? Como pode esta estranha cidade cósmica, com seus cidadãos de muitas pernas, com suas monstruosas e antigas lâmpadas, como pode este mundo provocar em nós ao mesmo tempo o fascínio de uma cidade estranha e o conforto e a honra de ser a nossa cidade?”, o escritor inglês faz-nos ver uma realidade una, mas com olhos carregados de alegria e esperança. Refutando tratar-se de um paradoxo, ainda que se considere que identidade e surpresa pareçam dois sentimentos antagônicos, o que Chesterton quer mostrar-nos, com sua interrogação, é que há uma realidade única, onde viveremos a experiência plena de nossa existência.

No entanto, para compreender essa experiência, que envolve, ao mesmo tempo, o espanto e a familiaridade, é preciso entender a verdade de nossa condição cognitiva e espiritual presente e como essa condição determina nossa relação com este mundo.

A base para essa compreensão reside no fato de o mundo ser a nossa casa, pois, como seres humanos, sabemos que ele foi feito para nós. Estamos no centro da criação e tudo o que nos cerca existe por nossa causa. Assim, toda a estrutura da realidade identifica-se conosco, da mesma maneira que, independentemente da forma e no nível da manifestação da realidade, nos identificamos com ela.

No entanto, em nosso estado cognitivo e espiritual bruto, conhecemos e compreendemos apenas as manifestações mais superficiais dessa estrutura do real. Ainda que nos identifiquemos com ela, o que sabemos, em princípio, abarca apenas um pedacinho dela.

Ocorre que mesmo a enormidade daquilo que não compreendemos pertence à realidade que para nós foi feita. Por isso, ao mesmo tempo que nos espantamos com essas manifestações que não entendemos, identificamo-nos com ela. É uma identificação, em boa parte, inconsciente, é verdade, mas não deixa de ser uma identificação.

O que torna tudo mais estimulante é o fato de que, mesmo com a expansão do nosso conhecimento e consciência, a realidade jamais deixará de nos surpreender, pois, em virtude de nosso estado atual, o conhecimento e a consciência jamais serão plenos. O mundo permanece, para nós, familiar, mas sem deixar de ser misterioso ao mesmo tempo.

A compreensão disso permite-nos, então, estabelecer uma relação com a realidade muito mais completa. O transcendente deixa de ser o mero escape do mundo visível e passa a ser, na verdade, uma etapa mais profunda do relacionamento que temos com essa mesma realidade.

A busca pelo transcendente, diante disso, deixa de ser a busca pelo que existe lá fora, mas um mergulho no mais profundo do nosso próprio ser, onde podemos conhecer melhor o que a existência tem para oferecer até se encontrar com o próprio Deus.

Cada Coisa no Seu Tempo

Há tempo para tudo nesta vida. Viver é uma arte, e cabe a cada um saber tirar dela o que ela tem de melhor para ofere­cer. Salomão, provável escritor do livro de Eclesiastes, inspirado pelo Espírito Santo, fez uma meditação sobre a vida que nos faz refletir sobre como usufruímos o que temos. A vida é feita de momentos, e são estes momentos, acumulados pelo tempo, que fazem a história de cada ser humano.


Há tempo de plantar e tempo de colher, tempo de chorar e tempo de sorrir. Mais do que saber que tudo tem o seu tempo, o sábio nos ensina que não adianta tentar­mos enxergar nossa existência de uma maneira simplista. É frustrante imaginar que a vida vai ser alegre em todos os momentos, que não vão haver lutas e dificuldades. A vida é complexa, e sua beleza reside exatamente aí.

Para o cristão, a arte de viver torna-se ainda mais especial. Cercado de valores, o crente precisa enxergar a beleza da vida, ainda que sob a ótica de uma religião. O grande erro, provavelmente, está naqueles que espiritualizam a vida religiosa, sepa­rando-a como um momento sagrado, em contraste com os outros momentos seculares. Essa forma dualista de enxergar a vida acaba por impelir-nos à hipocrisia, pois quem assim a vê, tende a esperar os momentos sagrados para praticar a espiritua­lidade. Como ficam então os outros momentos? Se existem momentos espirituais, logi­camente os outros não o são. Esta é uma dedução lógica que nos leva a pensar como es­tamos errados quando fazemos tal distinção. Em nosso cotidiano, praticamos tantas atividades, que fica, às vezes, difícil diferenciar o que é trabalho, o que é estudo, o que é religião. Eu posso estar em meu trabalho e ali evangelizar alguém, ou posso estar na igreja conversando sobre futebol, por exemplo. Quem pode me dizer o que é e o que não é espiritual? Será que quando estamos comen­tando sobre o jogo de domingo, neste momento o Espírito Santo se apaga dentro de nós, aguardando o nosso próximo momento de espiritualidade? Será que Deus fecha seus olhos quando sentamos em uma roda de amigos e conversamos despreocupadamente?

Separar a vida em departamentos pode ser o maior perigo para um cristão. Nor­malmente, isso o conduz a manifestações hipócritas de santidade, a julgamentos alheios e a uma visão absolutamente estreita da vida. Quem pensa dessa maneira tem dois ca­minhos a seguir, ambos prejudiciais: tentar ser absolutamente ‘espiritual’ o tempo todo (e aí partir para a inconveniência) ou viver duas vidas completamente distintas. É muito mais maduro entender que a vida que temos é uma só. Ela é espiritual em to­dos os sentidos, pois o Espírito Santo habita em mim – e não dorme jamais. Se estou na reunião de oração, no culto de adoração ou no estudo bíblico, são todos esses momentos de espiritualidade. Mas se estou com os meus amigos, jogando conversa fora, isso tam­bém é espiritual ou o nome que se queira dar a esse momento.

Na verdade, o que estou tentando dizer, é que não devemos tentar detectar quais sãos os nossos momentos de espiritualidade, por ser isso um perigoso caminho para a compre­ensão da vida. Eu sou espiritual, e isso basta. O que faz a diferença entre o homem espiritual e o mundano são seus conceitos, precei­tos e valores. Quando nossos valores estão voltados para os bens celestiais, as virtudes, a piedade e o amor, tudo o que fazemos agrada a Deus.

Volto para Eclesiastes: há tempo para tudo. Há o tempo de orar, e o tempo de brincar; há o tempo de contrição, e o tempo do largo sorriso; há o tempo do choro, e o tempo da risada alegre; há o tempo da reflexão, e o tempo da banalidade sadia; há o tempo do velório, e o tempo das festas; há o tempo da carestia, e o tempo da abundância responsável; há o tempo da privação, e o tempo dos prazeres; há o tempo do amor ágape, e o tempo do amor eros; há o tempo de viver, e o tempo de morrer. Há vezes que melhor que uma oração (entendam o que digo) é a presença física num instante difícil. Quando alguém está sofrendo, às vezes, melhor do fazer uma oração pelo telefone, seja melhor uma visita pessoal e uma bate-papo agradável. Uma coisa não precisa excluir a outra, necessariamente. Este é o evangelho integral

O que precisamos é ter sabedoria para fazer as coisas no tempo certo, aproveitar cada momento, com responsabilidade e viver intensamente a dádiva divina que nos foi conce­dida: a própria vida.

A Complexidade da Vida

Em minhas aulas de Teologia, as pessoas sempre perguntam sobre as­suntos relacionados às suas vidas práticas, esperando, de alguma forma, ver seus problemas solucionados, através de um resposta pronta e decisiva. Normal­mente, minha resposta a essas perguntas é “Depende…”. A reação, contudo, é, invariavelmente, a mesma: um semblante que mistura dúvida e decepção.


Esperamos, ao fazer parte de uma comunidade religiosa, e de praticar­mos a fé, que todas as respostas para a nossa vida estejam disponíveis e prontas. Pensamos que se antes andávamos sem direção, agora tudo deve ser absoluta­mente claro, lógico. Ora, se Jesus entrou em nossa vida para nos tirar da perdi­ção, não faz sentido que tenhamos alguma dúvida, ainda. Esta é a idéia que nos envolve e, portanto, não responder a qualquer questão existencial é o mesmo que não conhecer a verdade.

Esse pensamento surge, principalmente, de uma visão muito pragmática da vida religiosa. A idéia de que todas as coisas têm uma causa eficiente e uma conseqüência lógica – a conhecida teoria da causa e efeito. Acreditam que todas as coisas, para acontecerem, de alguma maneira, têm uma causa que, ao ser acio­nada, redundará naquele efeito pretendido. Como se houvessem fórmulas pron­tas para todas as áreas de nossas vidas. Como se fosse possível dizer, com certe­za, que ao fazermos algo, o resultado será exatamente outro algo.

O grande perigo que reside nesse pensamento é o fato de que, ao perceberem que nem sempre a causa acionada resulta na conseqüência prevista, a fé enfraqueça, o medo apareça e a esperança morra. Homens e mulheres que acreditam que existem respostas prontas para todas as questões estarão sempre sujeitos à decepção.

Deus, ao enviar Jesus Cristo para morrer por nós, resolveu a questão crucial de nossa existência: quem somos e para onde vamos. Ficou claro o seu amor por nós, a ligação estreita que existe entre o homem e Ele e, de forma decisiva, mostrou que Ele nos quer ao seu lado, por toda a eternidade. Existencialmente, ao conhecer essa verdade, o homem se resolve consigo mesmo. Seu caminhar não é mais um vagar, mas passos firmes numa direção definida. Sabe quem é, de onde veio, para onde vai.

Acontece que, neste ínterim, há toda uma vida de experiências emocionais, físicas e espirituais. Tirando a certeza do principal, surgem as dúvidas acessórias que a acompanham. Mesmo sabendo sua origem e destino, mesmo conhecendo a razão de sua existência, há uma teia de dificuldades pontuais que, dia-a-dia, precisa ser tecida.

A natureza tem sua lógica. Biologicamente, todos os seres são, apesar de complexos, guiados por um caminho natural que se repete. A Física nos ensina leis invariáveis de causa e efeito. Até a História costuma repetir seus fatos, ainda que com variáveis marginais. Tudo isso, nos leva a crer numa lógica geral, num caminho óbvio, ao qual possamos nos apegar e nos sentirmos seguros.

Porém, a experiência nos mostra que a vida é muito mais complexa do que isso. Em seu desenvolvimento, nem sempre atos iguais resultam em fatos idênticos. Certezas transformam-se em dúvidas, quando não em decepções. Ao esperarmos que algo aconteça, simplesmente porque outras vezes daquela forma ocorreu, e, ao final, o que acontece é completamente diferente de nossa expectativa, aparece a desilusão.

Somos seres criados à imagem e semelhança de Deus. Isso significa que possuímos atributos semelhantes ao de Deus. Independente de nossas limitações, como Ele, pensamos, refletimos, imaginamos, decidimos. Esses atributos nos tornam, além de superiores ao restante da criação, também dominadores dela. Não quer dizer que possuímos todo o controle sobre os seus resultados, mas, sim, que, podemos influenciá-la de forma decisiva, posto nossa capacidade mental.

Com o conhecimento adquirido, o ser humano hoje é capaz de modificar, melhorar, experimentar de tal forma a natureza que dá a impressão de que todas as coisas estão sujeitas a ele. Mais ainda, que, conforme a experiência e o conhecimento adquiridos, todas as respostas são encontradas e que, chegará o dia, que nada mais será mistério, tudo se resolverá, e que o homem saberá como fazer todas as coisas. A ciência espera manipular tudo, este é o seu objetivo final.

Acontece que, ao adentrarmos no universo pessoal, no magnífico mundo individual que é cada ser humano, muitas certezas se esvaem, a lógica cambaleia, o inesperado surge constantemente e a complexidade da vida mostra toda a sua força. O homem manipulador que subjuga a natureza de forma tão eficiente, não encontra campo tão fértil na primícia da criação. Homens nascem e morrem, e o ciclo se repete, mas cada ser humano continua a ser único, cada vida uma história singular, cada alma um universo sem igual.

Somos semelhantes ao nosso criador – ser pessoal e inteligente. Ao possuirmos a capacidade de reflexão, muitas certezas acabam por cair por terra, pois o exercício livre do pensamento conduz o homem a viagens infinitas e incarceráveis, mesmo sabendo que tão pouco aproveitamos dessa liberdade.

Como esperar obviedades? Como saber as conseqüências, se estamos lidando com algo que é quase infinito? Será possível querer conhecer todas as respostas quando estamos lidando com um colossal universo de pensamentos, experiências, emoções e conhecimento? Talvez, melhor aprendermos a caminhar mais sentindo o cheiro das flores do caminho, do que sermos conduzidos de olhos fechados por uma trilha reta e sem graça. Conhecemos o final, o principal, isso basta. Ah, e a beleza reside nisto mesmo! Que chatice saber todas as coisas! Que enfado ter certeza de todos os resultados! Se é para sermos máquinas, porque pensar, porque sentir? Certamente, o que Deus nos deu é bem mais valioso, mais belo e, podemos dizer, perfeito. Talvez o nosso anseio religioso clame por certezas, porém, a nossa essência humana apenas se realiza nas vicissitudes da vida, na fé, na esperança e na surpresa. É sim, na surpresa! Esta que, apesar de fazer-nos temê-la, nos estimula a viver cada vez mais, sabendo que cada dia é um presente, e presentes são muito mais gostosos quando nos surpreendem.

Esperemos menos respostas, menos soluções. Vivamos na certeza de quem somos, de onde viemos, para onde vamos e na alegria de todo um mundo cheio de alternativas, que nos conduz a sermos criativos, vivos. O que precisamos resolver, o fazemos lidando com as conseqüências que se apresentarem, costurando caminhos inteligentes e saudáveis, sabendo que cada situação é única, ainda que possa ser parecida com outra. Sem esquecer a sabedoria divina, que é derramada por meio do Espírito Santo, que, mesmo não garantindo que os resultados serão exatamente o que esperamos, nos ensinará a dançar a música da existência de uma maneira muito mais graciosa.

Não faz sentido esperar respostas prontas às questões relativas ao homem e suas circunstâncias. Menos ainda esperar que Deus faça exatamente tudo igual, sempre. Não esqueçamos que semelhante a nós, Deus é um ser inteligente e pessoal. Se alguém quiser pensar nele como um ser mecânico, óbvio e previsível que assim o faça. Eu continuarei a vê-lo como o meu Pai – infinito e perfeito, minha origem, meu modelo, o exemplo do que seríamos se não tivéssemos as limitações que carregamos.

O Abismo

Há um abismo entre nós e Deus. Aqueles que se sentem íntimos do Criador, como se tivessem acesso VIP à sala do trono, podem até discordar, mas tenho certeza que a distância que existe entre nós e Deus é algo imensurável.

Vejo, de nossa parte, uma total incompreensão dos caminhos de Deus, uma presunção de sabedoria que desmorona aos primeiros sinais de decepção, uma idéia de fortaleza que rui diante das primeiras míseras dores. Há tantas doutrinas, tantas idéias, tantas certezas que torna-se impossível dizer quem tem verdadeiramente razão. Minha conclusão: nenhum de nós tem razão. O que temos é uma fagulha da verdade que mantém viva a chama da esperança e da fé; mas é apenas uma fagulha. Construímos castelos de convicções que podem ser postos no chão com argumentos tão simples que têm a capacidade de fazer desaparecer a nossa fé, ainda que nos vejamos como homens de grande espiritualidade.

Há um abismo entre nós e Deus, e o que vejo é uma tentativa imbecil de tentar entender os pormenores do Rei do Universo. Não vejo, diante de tudo isso, nenhuma solução palpável para se achar Deus, para entender Deus ou para viver a vontade de Deus.

Ele fugiu do homem, então? Evidente que não. Nós, com nossa estupidez, nossa corrupção e nosso orgulho é que caminhamos cada vez para mais longe de Deus. E não se engane, não estou falando daqueles que vivem longe dos preceitos religiosos (esses estão ainda mais afastados), mas falo de nós, os espirituais, os religiosos, os cumpridores da vontade do Pai, os filhos, a geração eleita. Nossos passos de religiosidade nos guiam não em direção a Deus, mas por uma linha paralela a Ele. Não nos faz chegar mais perto, a não ser em alguns pequeníssimos passos. Ainda assim, apenas nos momentos que sentimos ter maior intimidade com Ele. Mas são passos tão minúsculos que os dias, às vezes as horas, nos trazem ao status quo ante da mediocridade. Se nossas experiências, estudos e reuniões nos levassem para tão perto de Deus, não recuaríamos tão facilmente nos momentos posteriores. Essa volta à normalidade, às vezes para mais atrás ainda, só mostra que nossa aproximação da divindade foi ridícula. Não creio, porém, que este seja um sacramento eterno, ao qual estamos todos condenados. Alguns homens, ainda que poucos, parecem ter encontrado esse liame que conduz ao Senhor e trazem a nós uma luz de esperança de que é possível, ao menos, encurtar de forma mais significativa o espaço que existe entre nós e Deus. O que vemos neles é, antes de tudo, a total falta de presunção de conhecimento. Absolutamente abertos para receber de Deus a verdade, não discutiam com Ele, não acrescentavam nada a Ele; apenas reproduziam sua vontade. De um esvaziamento completo, surgia o preenchimento pelo poder do céu, sem dividir a glória eterna com a honra corrupta da terra.

Muitos já pregaram sobre isso, mas duvido que a maioria tenha entendido o significado desse esvaziamento. Talvez por ser um conceito tão simples traga tantas dúvidas para o homem. Esvaziar-se não é tornar-se um ser autômato, sem vontade e decisão, mas, sim, compreender a si mesmo como alguém absolutamente limitado, corrupto e ignorante. Já ouvi muitos falarem sobre fazer a vontade do Pai, esvaziar-se a si mesmo, não ser mais nós a viver, mas Cristo. Tudo isso é lindo, e correto. Porém, na prática, vemos a feitura da vontade de Deus conforme a nossa idéia do que seja a sua vontade. Praticamos um esvaziamento de atos, mas não de idéias, pois insistimos em encaixotar Deus em nossas doutrinas humanas. Achamos que não vivermos mais nós mesmos se relacione com vontade, quando, na verdade, tem mais a ver com submissão e obediência. Deus fala que para encontrá-lo o homem deve buscá-lo com toda a força e todo o coração. Acontece que essa busca não pode se dar numa corrida desenfreada por práticas de lisonjeio ou guarda de preceitos presumivelmente agradáveis a Deus. Buscar a Deus, normalmente, tem mais a ver com não fazer, não pensar, não construir, mas deixar Ele trabalhar em nós. Se achamos que podemos encontrar a Deus por meio de nossos atos, talvez estejamos caindo no mesmo erro dos homens que construíram a Torre de Babel. Seu final foi apenas confusão.

Somos incapazes, aceite. Acredito que apenas Deus pode nos conduzir para mais perto de si, desde que em nós não haja barreiras que impeçam o seu agir.