A vida é uma tragédia

A vida é uma tragédia. Há tempos não tenho receio de fazer essa afirmação. Porém, não falo essas coisas em tom de desespero, nem mesmo de pesar. Digo isso apenas como uma constatação.

Ser uma tragédia não significa que a vida é triste. Simplesmente, quer dizer que ela é fugaz – hoje a pessoa existe, amanhã ela é arrancada daqui; hoje ela tem milhões de sonhos e, em um segundo, eles são interrompidos definitivamente.

Mas tudo isso não significa que a vida é desanimadora. Pelo contrário, entender sua tragicidade é uma dádiva e uma oportunidade.

Se a vida é assim, como um fio prestes a ser cortado, não existem motivos para preocupações. Se tudo vai acabar de uma hora para outra, nada pode tirar a paz, pois nada, na verdade, é definitivo, nem mesmo duradouro.

Se a vida é trágica, cada momento é uma aventura, cada experiência importante e cada ato único.

Por isso, essa tragicidade, longe de assustar, torna tudo ainda mais belo – e maravilhosamente louco.

A força e a fraqueza do amor

O amor é uma força e uma fraqueza.

O amor é uma força porque desperta, em nós, o melhor que há em nosso interior. Quando amamos, não há barreiras que possam impedir o nosso agir em favor do ser amado. Como está escrito: o amor faz-nos enfrentar todos os medos, superar todos os medos, vencer todos os medos.

Mas o amor é também uma fraqueza, porque torna-nos vulneráveis, pois há um outro envolvido, a quem queremos bem, queremos proteger, mas sobre quem não temos poder para arrancar sua dor.

O amor é uma fraqueza porque superar o sofrimento já não depende mais de nós, mas do amado que sofre e a quem podemos apenas observar e garantir que haverá alguém do seu lado.

A dor de quem amamos é como uma espada enfiada em nosso peito e que não temos como arrancar. Uma ferida que, apesar de ser no outro, nos consome e contra a qual não podemos fazer nada.

Por tudo isso, o amor precisa ser – e é -, antes de tudo, paciente. Só assim para suportar aquilo contra o que não se pode lutar, nem tratar, mas apenas esperar.

Abrigo no ruído

Foi nos momentos mais difíceis da minha vida que entendi a razão das pessoas buscarem o ruído. Quando dormir era difícil e sobressaltado levantava de madrugada, percebi o quanto o silêncio pode ser aterrador. Percebi ainda que o barulho do cotidiano pode servir como a fuga perfeita para quem não está conseguindo lidar bem com a realidade que amedronta. Nele, as vozes dos fantasmas de cada um se perdem em meio ao vozerio confuso que cerca todo mundo. Assim, ali, onde há barulho, é o lugar perfeito para sentir-se seguro e, ao mesmo tempo, despreocupado. Continue lendo

Nunca o único

Aprendi que quando eu percebo algo, muitas outras pessoas já perceberam o mesmo antes de mim. Por isso, nunca alimento aquele sentimento de ser o único a saber alguma coisa. Isso, ao mesmo tempo, me faz mais humilde e menos solitário.

Feiúra no mundo e no pincel

A arte moderna, principalmente na pintura, teve um grande impulso com a invenção da máquina fotográfica. Quando pareceu já não mais ser necessário retratar o mundo, pois a tecnologia prometia fazer isso, boa parte dos artistas passou a preocupar-se mais com as questões internas da arte, como a forma e o método, além de tentar expor menos o que viam e mais o que sentiam.

Nisso está, grosso modo, a origem dos ismos que inundaram o mundo contemporâneo com sua nova proposta artística. O impressionismo, praticamente como o movimento raiz, mas, principalmente, os posteriores, como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo, o dadaísmo entre tantos outros, conduziram a arte a uma manifestação muito mais egocêntrica e subjetiva, praticamente arrancando a possibilidade de novos retratos de realidade que expressassem a natureza de uma maneira bela. Tanto que, a partir do fim do século XIX, não surgem mais grandes pintores que tentassem retratar a realidade de uma maneira fiel ou idealizada.

Isso, ao menos para mim, representa uma grande perda. Com a vitória da arte modernista, praticamente ficamos órfãos de pinturas que conseguissem expressar a beleza da vida conforme percebemos com nossos olhos e nossos sentidos. E, na minha opinião, isso ocorreu por uma percepção equivocada das possibilidades da fotografia. Se é verdade que ela é capaz de captar o momento, todavia ela não consegue escolher o momento que capta. E menos ainda é possível para o fotógrafo retratar um momento imaginado, idealizado e belo. Nem mesmo a fotografia consegue, a não ser por um lance de muita sorte, captar um momento único e inesquecível, o que o pintor poderia fazer, bastando algum talento e técnica, apenas expondo aquilo que reteve em sua memória.

Foi Claude Lorrain que deu início à chamada peinture de genre, ao desenhar belas paisagens, que extasiavam quem as contemplasse. Suas obras foram tão influentes que passaram a servir de modelo para jardins e campos da vida real, em relação aos quais seus proprietários gastavam rios de dinheiro para os deixarem o mais parecidos com os quadros do pintor francês. Atualmente, não há mais nada disso. Não encontramos mais trabalhos que causem esse tipo de efeito.

Hoje, pelo desenrolar dos movimentos artísticos, perdemos essa possibilidade. Não há mais grandes artistas que se dediquem a oferecer-nos pinturas que expressem momentos únicos, modelos de beleza, que nos façam, nem que seja por alguns instantes, mais felizes.

Nosso mundo está mais feio, não apenas na realidade dos olhos, mas também na tinta dos pincéis.

Conquista da liberdade

Uma das ideias mais confusas na mente das pessoas é a relativa à liberdade. Em tempos quando todos acreditam poder requerer tudo e os direitos são mais perseguidos que as obrigações, acreditam-se livres por natureza e exigem que sua liberdade seja respeitada por todo mundo, senão concedida pelos poderes terrestres.

Se observarmos bem, porém, constataremos que, naturalmente, não somos absolutamente livres. Temos apenas um relativo controle sobre nossos atos e pensamentos, mas estamos bem limitados inclusive neles, pelo ambiente que nos cerca, pela sociedade na qual vivemos e principalmente pelas nossas próprias tendências primordiais, que é decaída e tende ao inferior.

Seria bom que as pessoas entendessem que, se querem ser livres, não é reclamando por liberdade que a conquistarão. Como diz Jules Payot, “ninguém é livre se não merece ser-lo. A liberdade não é um direito, nem um fato, mas uma recompensa“.

Só é possível ter liberdade direcionando a própria vida, metodicamente, para conquistá-la. É pelo exercício da consciência e pela prática que é possível obtê-la. É pelo abandono sistemático e determinado dos grilhões que nos prendem que a alcançamos, progressivamente.

Ninguém nasce livre, mas vai se libertando com o tempo. Se bem que, o que mais eu tenho visto, são prisioneiros que jamais conseguem deixar, nem se esforçam para tanto, suas cadeias.

Subjetividade e lembrança

Ninguém pode mudar o passado. Isto é fato! Porém, não significa que os fatos lembrados são todos obviamente claros e igualmente reconhecíveis por todas as pessoas. Na verdade, cada indivíduo acaba aplicando seus próprios filtros sobre o que aconteceu, interpretando-o conforme as capacidades e instrumentos cognitivos que possui.

Isso, de alguma maneira, confunde algumas pessoas, que acabam acreditando que, porque as memórias divergem, os fatos também divergem e porque o passado é lembrado de maneiras diferentes, então o que aconteceu, da mesma forma, deve ser mutável.

Tal confusão, porém, só é possível porque vivemos tempos quando a subjetividade adquiriu valor tão importante, se não maior, do que a própria realidade. De Berkeley a Kant, dos impressionistas aos surrealistas, a percepção subjetiva foi adquirindo status de verdade, assumindo importância tal que os dados brutos da realidade chegam até a ser desprezados.

Não que achem que o passado está mesmo sendo alterado, mas realmente não se importam com isso. O que importa mesmo é como lembram-se dele e como interpretam-no. O mundo dentro de suas cabeças é o único legítimo e ai de quem ousa contestá-los.

São os tempos das “minhas verdades”, quando nada é mais importante do que a forma como cada um enxerga o que vê ou o que pensa que vê.

Em um mundo assim, não há mais espaço para o debate, para o desenvolvimento das ideias, nem para qualquer tipo de exortação. Se a interpretação pessoal é o mesmo que realidade, tudo o que uma pessoa pensa está validado, ainda que para o senso comum possa parecer absurdo.

Indivíduo, o bastião contra o coletivo

macacosHá uma característica comum nos integrantes dos movimentos coletivos, que é aquela atitude descerebrada e macaqueada que torna todos eles semelhantes uns aos outros, esteticamente, psicologicamente e na forma como se comunicam. Observá-los é quase como olhar para uma jaula de símios, onde o que prevalece são as atitudes e hábitos comuns, com apenas pequenos traços de distinção entre seus viventes.

Mas parece mesmo que há um certo primitivismo em todos nós, afinal, o apelo coletivo sempre nos atrai. Isso explica-se pela tendência primordial de agrupar-se, o que é próprio da natureza humana, mas também, não se pode negar, por um certo conforto que se encontra na concordância alheia ao que fazemos. O apoio coletivo afaga e afirma que viver sob sua égide é o que há de mais seguro.

Continue lendo

Fuga na realidade

correria-modernaUm das características das pessoas de hoje em dia é uma forma de refúgio naquilo que parece ser a realidade. Os problemas internos são tão incômodos, a falta de sentido tão evidente, que a melhor maneira de fugir disso é agindo, atuando sem parar no mundo.

E nem estou falando aqui daquelas fugas conhecidas que muitas pessoas escolhem para se entorpecer, como os vícios de todos os tipos e as infinitas formas de divertimentos. Me refiro a uma fuga mais sutil e que aparenta até algum tipo de virtude, que é o uso do trabalho e dos afazeres diários para se esconder de si mesmo.

Se engana quem acredita que as pessoas de hoje em dia estão apenas correndo atrás de dinheiro. Na verdade, elas estão correndo de si mesmas. E não há forma mais eficaz e reconfortante de fazer isso do que mergulhando em uma atividade que lhes desculpe de qualquer peso na consciência, afinal, o trabalho é uma coisa nobre. E assim seguem sem parar, sem pensar, sem se preocupar em contemplar o que é verdadeiro. Até porque, lá no fundo, elas sabem que, se enfrentarem a realidade, verão o vazio que lhes acomete, e isso lhes seria insuportável.

 

A benção da desilusão

desilusaoÉ do senso comum acreditar que uma pessoa desiludida é alguém perdido. Como se a desilusão representasse o fim de qualquer possibilidade de uma existência digna e real. Confundimos desilusão com depressão e costumamos apontar aquelas pessoas mais pessimistas e negativas como desiludidas.

No entanto, desilusão não significa nada mais que perder a ilusão. E perder a ilusão é não ser mais enganado pela vida. E quem pode negar que a vida apresenta caminhos que são pura fantasia, cheios de promessas impossíveis de ser cumpridas?

Continue lendo