A vitória sobre o mundo

paz-espiritual7É impraticável tentar manter-se concentrado nos assuntos superiores quando se tem tantas preocupações menores povoando a mente. As dívidas, a saúde, a segurança e outros problemas cotidianos, muitas vezes, assumem uma dimensão tão grande, que na cabeça não sobra espaço para praticamente mais nada, senão essas inquietudes. O mundo e seus arremedos acabam absorvendo a pessoa a ponto dela não mais ver-se a si mesma a não ser como alguém que tem nós a desatar na vida.

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Que falta fazem os bons filósofos!

filosofoSe a Filosofia se encerrasse apenas em uma busca individual, para o deleite do próprio filósofo, não deixaria de ser importante. Não são apenas as ações coletivas as significativas, mas também aquelas que conduzem o indivíduo ao seu desenvolvimento pessoal e sua felicidade. Isso não significa, porém, que não se deva enxergar uma importância social no exercício filosófico. Não é porque os atos coletivos não representam tudo que eles deixam de existir e deixam de ter relevância.

E o papel social do filósofo nada mais é do que pensar sobre questões que envolvem a vida das pessoas e que, muitas vezes, não são objetos de reflexões mais profundas. Há muitas coisas que acontecem no seio da sociedade, que afetam as pessoas, mas que não são bem compreendidas. Faz falta pessoas que se debrucem sobre esses temas e tentem decifrá-los. Faz falta quem dedique tempo e esforço para tentar compreender as razões e as causas de diversos problemas que envolvem a humanidade.

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As duas mentiras

Existem dois tipos de mentiras. Uma delas é meramente humana e ocorre toda vez que alguém tenta esconder algo, principalmente um erro ou uma atitude condenável. A pessoa que lança mão deste tipo de mentira tem como objetivo proteger-se do julgamento alheio, da condenação, da cobrança, da perseguição ou mesmo quer evitar algum tipo de desconforto.

Obviamente, a mentira, em geral, é condenável. No entanto, ninguém pode negar que ela é recurso humano, usada para livrar a pessoa daquilo que ela entende incômodo ou indesejável. A mentira meramente humana existe para satisfazer o próprio ventre, e é fruto da luxúria, da vaidade, do desejo e da paixão.

Há, porém, um outro tipo de mentira que é muito mais perigosa e tem origem em algo bem além do mero interesse humano. É a mentira demoníaca. Por esta, não apenas a pessoa busca proteger-se, de alguma maneira, mas usa-a para alterar a própria realidade do mundo onde ela e todas as pessoas ao seu redor vivem.

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Somos o que pensamos

Se há uma determinação bíblica para o arrependimento, para a conversão, para a escolha em favor de uma vida virtuosa, de uma vida com fé, isso significa que há, dentro de cada pessoa, a capacidade de decidir seu destino. Portanto, pode-se dizer que o que somos, e o que nos tornamos, é, de alguma maneira, fruto das escolhas que fazemos. E nestas escolhas se encontram, não apenas as atitudes a serem tomadas, as decisões práticas da vida, como a profissão que devo escolher, com quem devo casar ou qual igreja frequentar, mas (e, talvez, principalmente) os conteúdos que serão assimilados no decorrer da existência e que, certamente, irão moldar a forma de pensar, a própria visão das coisas e do mundo.

Por isso, a importância de não ser um personagem passivo na relação com aquilo que será absorvido durante a vida. A pessoa não pode, simplesmente, deixar com que os conteúdos venham até ela, sem qualquer critério, sem que haja uma seleção, sem refletir sobre a conveniência, sobre a utilidade do que está absorvendo. Se o indivíduo é o responsável por sua vida, então essa responsabilidade inclui também aquilo que ele consome e que irá, certamente, refletir em seu próprio caráter.

É por isso que o apóstolo Paulo, em sua carta à Igreja em Filipos (Fp 4.8), aconselha as pessoas a pensar naquilo que é verdadeiro, honesto, puro, amável e de boa fama. Ele insiste que nestas coisas elas devem meditar, nelas devem refletir. E esta não é uma mera determinação moral, mas um aconselhamento prático que, acatado ou não, aí, sim, trará consequências morais óbvias, apesar de diferidas.

Isso porque o que nós pensamos acaba sendo, de alguma maneira, aquilo que nós somos. E o que se encontra nas palavras de Paulo é o reconhecimento de como aquilo que nós absorvemos e recolhemos dentro da nossa mente acaba sendo o que irá definir quem nós seremos.

Nisto, fica evidente a seriedade da escolha que fazemos em relação aquilo que lemos, ouvimos e vemos. E também, obviamente, daquilo que deixamos de ler, ver e ouvir. Porque algumas pessoas acabam acreditando que, se o que absorvemos pode nos prejudicar, é melhor não absorver nada. Grande erro!

O problema é que não assimilar nenhum conteúdo é impossível. Quem não seleciona o que consome, o que absorve, se torna um sujeito passivo, assimilando, ainda que de maneira inconsciente, tudo o que aparece em sua frente. Não há como se fechar às influências externas, para os dados com os quais se deparam cotidianamente. O máximo que se pode alcançar é tornar-se consciente desse processo e tentar separar o que deve ser absorvido daquilo que deve ser rejeitado.

O preceito bíblico aqui trata exatamente dessa capacidade humana de escolher o que pode ser bom e útil, e rejeitar o que é prejudicial. É importante frisar que o texto não trata apenas de rejeição, mas de escolhas. O que o apóstolo aconselha é que as pessoas pensem naquilo que eleva, que conduz a uma vida superior, que aproxima da verdade e de Deus.

No fim das contas, a Bíblia está afirmando que o homem se transforma naquilo que ele pensa. Se pensa em coisas boas e superiores, vai se tornar alguém elevado e superior. Porém, quem enche a cabeça de lixo, não tenha dúvida alguma, que é em lixo que irá se transformar.

 

Meia-noite em Paris

Estaria, o homem de cultura, determinado a sofrer com a chamada “Síndrome da Era de Ouro”, condenado a enxergar o passado sempre como uma época superior e a lastimar todas as coisas que, imagina, eram melhores e foram perdidas? A pergunta que a estória de Woody Allen, Meia-Noite em Paris, faz são estas. De uma maneira um tanto surreal, com uma leveza surpreendente para o casting de atores escolhidos e sem perder a estética de um filme moderno, ele brinca com a ideia de seu personagem, um escritor apaixonado pela literatura dos anos 20, poder viver, ainda que por alguns instantes, naquele período visto como mais atraente e estimulante.

E quantos de nós, muitas vezes, não temos saudade do que não vivemos, derramando pesadas reclamações sobre nossa própria época, acreditando que tudo hoje está perdido, restando, talvez, se refugiar nos documentos que nos remetam aos tempos áureos, quando as pessoas eram mais felizes, mais inteligentes e mais satisfeitas?

De fato, quase não há como fugir de tais sensações. Isso porque a pessoa que pensa, que medita sobre a realidade, acaba, por conta de sua sensibilidade e perspicácia, captando as mazelas da vida, percebendo que muitas coisas não estão no lugar que deveriam estar. Inescapavelmente, o homem que reflete acaba por olhar para trás, para o passado, mesmo aquele que ele mesmo não viveu, e o toma como uma época melhor que a sua, quando o mundo parecia mais harmonioso, menos superficial e mais inspirador.

Ao fazer isso, porém, acaba não notando que tais sentimentos não são próprios de seu tempo, mas de todos os tempos. Os intelectuais do passado também se lamuriavam pelas virtudes abandonadas pelos seus contemporâneos. Desde os pensadores romanos, como Cícero, Marco Aurélio, Sêneca e Varrão, passando por toda a intelectualidade ocidental até os dias de hoje, a exclamação O Tempora O Mores*, fora exprimida por cada um, de sua própria maneira, em sua própria língua, em seu próprio tempo.

Também não percebe que, ao lançar para o passado todas as virtudes e todos os bens, acaba por abandonar sua própria realidade, deixando de a ter como uma oportunidade para fazer o que deve ser feito. Não que as degradações não sejam progressivas, nem que, cada vez mais, o mundo não pareça inexoravelmente mais corrompido e insolúvel. Porém, apesar de tudo, este é seu tempo, esta é sua vida e aqui estão suas possibilidades e, principalmente, oportunidades. Negar isso, de alguma forma, é negar a si mesmo, de uma maneira que, ao invés de fazê-lo superior, torna sua existência vazia e sem sentido. O que uma pessoa é depende do que ela faz com que está a sua disposição, em seu momento presente, e é sobre isto que ela deve trabalhar a fim de transformar sua presença neste mundo minimamente relevante.

Eu mesmo acho minha época deprimente. Não sou nem um pouco entusiasta de minha geração. A impressão que tenho é que o mundo fora melhor sempre e que, neste instante, quando existo, ele vive sua fase mais degradante. Mas, seria, por isso, a fuga para o passado a solução para este mal? Certamente, não.

No entanto, se os males presentes são reais e se simplesmente retornar a um passado fantasiosamente glorioso não é a solução, como manter a esperança na existência humana e torná-la, ao menos em si mesmo, algo de valor? A resposta do filme, que talvez tenha ficado escondida para alguns olhares menos sensíveis, é que há valores universais que permanecem e são neles que iremos encontrar os fundamentos para a própria existência. Talvez, no roteiro, isso tenha sido simbolizado pela própria Paris, cidade das luzes, mas é certo que havia algo mais ali. Não são apenas as luzes de uma cidade que permanecem, mas os olhares é que se renovam. E se Paris, de alguma maneira, mantinha seu charme, é porque, apesar das mudanças, permanecia nela algo inalterável. Assim é a vida! Podem ocorrer mudanças e degradações visíveis, mas sempre haverá valores fundamentais que permanecerão. E são sobre estes que o homem sábio fincará seus alicerces.

* Ó Tempos! Ó Costumes! Exclamação de Cícero contra a depravação de seus contemporâneos.

O vazio da nossa geração

É interessante a quantidade de filmes, desde os anos 90, que tratam da falta de sentido. São roteiros sem trama, sem estórias, que apenas mostram a completa ausência de razão para a vida. Normalmente, com personagens jovens, que refletem como esta atual geração não sabe para onde vai, nem quem é, esses filmes me parecem ser, simplesmente, o espelho do nosso tempo.

As gerações mais afetadas por essa ausência de sentido são daquelas pessoas nascidas entre o final dos anos 60 e o comecinho dos 80. Eles são os herdeiros daqueles idealistas que queriam mudar o mundo, que balançaram o planeta com suas bandeiras de libertinagem e amoralidade e legaram para seus filhos nada mais do que ilusão.

Os filhos do amor livre viram seus pais traírem a si mesmos. Estes se tornaram o oposto do que diziam ou, simplesmente, se afundaram naquela visão utópica da vida, que na realidade mostrou-se bem menos florida do que eles mesmos acreditavam. São pais sem autoridade, sem força e sem visão. Abandonaram os princípios e agora que precisariam deles não sabem o que fazer.

Quando esses novos roteiristas apresentam essas películas niilistas percebe-se quase um desespero, uma tentativa de encontrar por detrás dessa total falta de razão algum sentido oculto. Mas que sentido pode haver em uma existência sem fundamentos e sem transcendentalidade? Infelizmente, para esses autores, não há sentido mesmo.

Não há onde buscar algum motivo para a vida quando seus alicerces foram lançados longe. O resultado, então, é a completa falta do que falar, a dificuldade em enxergar algum rumo.

Paradoxalmente, sempre quando assisto alguns desses filmes, eles me fazem pensar talvez até muito mais do que pretendem seus próprios criadores. Me fazem refletir o esforço que a minha geração tem feito para entender a si mesma e o quanto ela tem falhado nessa busca. Me fazem entender, enfim, que enquanto ela não olhar para trás, onde estão os fundamentos de toda a existência e para o alto, onde está a razão de todo o ser, ela vai continuar meditando sobre o nada que é como se apresentam seus próprios dias.

A riqueza na complexidade e nas incoerências humanas

Nunca é bem compreendida minha afirmação de que as análises que faço sobre religião, sua história e até suas doutrinas são sempre empreendidas, dentro da medida do possível, de uma maneira que minhas convicções mais profundas não interfiram nas conclusões. Algumas pessoas que leem isso deduzem que, na verdade, não tenho convicções, que sou um indeciso ou mesmo alguém que não quer se comprometer com nada, assentando-se em uma posição confortável quase agnóstica.

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A beleza e a alma corrompida

Algumas pessoas podem até dizer que a beleza é algo subjetivo, dependente do gosto e do desejo de cada indivíduo. Porém, não podem negar que há imagens que são tomadas como belas por todos. No mínimo, há alguma referência de beleza que permite que algo seja chamado de bonito e outro de feio. Ainda que se aceite que há graus de beleza, exatamente por isso deve-se aceitar também que existe uma Beleza transcendental, que serve como referência máxima de tudo o que pode ser chamado belo.

Em toda a história, as pessoas representaram o mal com o feio e o bem com o belo. Basta ver as pinturas que retratam seres demoníacos e as que retratam os angélicos. Jamais Cristo foi pintado como alguém feio, nem Belzebu com alguma beleza encantadora. Isso se dá menos por consciência da força simbólica da pintura do que pela expressão pictórica que tenta retratar o sentimento referente ao objeto pintado.

Há, portanto, nos homens, uma imanente relação com a beleza e com a feiúra que demonstra que é a beleza o que é agradável, bom, desejável e, por isso, o fim do ser. Sendo assim, pode-se dizer que a beleza é uma manifestação da própria divindade, enquanto a feiúra, seguindo a ideia agostiniana sobre o bem e o mal, seria a ausência ou, pelo menos, a diminuição dessa manifestação.

Diante disso, é evidente que a relação que as pessoas têm com manifestações de beleza e de feiúra possuem alguma influência sobre suas vidas. Obviamente, o que é bonito enleva, arrebata, encanta, acalma, pacifica. Por outro lado, o que é feio perturba, deprime, incomoda, repele. De qualquer maneira, ninguém é indiferente em relação a essas manifestações.

No entanto, essa relação não é consciente todo o tempo. Pelo contrário, na maioria das vezes ela se dá espontaneamente, exatamente por causa da imanência dessa percepção da transcedentalidade da Beleza, refletida, parcialmente, nas manifestações temporais.

Por isso, não há como negar que as imagens belas influenciam positivamente, elevando o homem a uma imago Dei. O que é belo transporta o homem para a percepção não apenas da existência de Deus, mas também de sua bondade e amor.

No entanto, quando o indivíduo não consegue mais identificar a diferença entre a beleza e a feiúra ou quando passa a denominar de belas coisas repugnantes, isso é sinal de que sua alma já está corrompida. Se a percepção natural remete à beleza como algo bom e a feiúra como algo mal, e, por outro lado, se a pessoa chegar a um estado de não conseguir mais diferenciar o belo e o feio, também não conseguirá diferenciar o bem e o mal, o bom e o ruim, o divino e o diabólico.

E a perda dessas referências se dá pelo hábito.

Uma pessoa acostumada a belas imagens, as terá como referência de beleza. Sendo assim, sua alma permanecerá inalterada em sua relação com o belo e o feio. Isso manterá seus referenciais imanentes vivos e, assim, será muito mais natural para ela compreender o que é o bem e o que é o mal, o certo e o errado. Para ela, aceitar que algumas coisas são invariavelmente ruins e devem ser evitadas será algo tão natural, que a tendência é que se torne uma pessoa realmente virtuosa.

Por outro lado, não basta ser exposto às imagens feias para, de alguma maneira, ter a alma corrompida. O problema ocorre quando essa exposição vem acompanhada da ideia de que essas mesmas imagens, que naturalmente são percebidas como feias, são belas ou, pelo menos, neutras. Isso faz com que, com o tempo, a pessoa exposta a essa constante, tenha sua percepção transformada, chegando ao ponto de não conseguir mais diferenciar o que é belo do que é feio ou perdendo a sensibilidade para identificá-los. Se não identifica mais a beleza, consequentemente terá dificuldades em identificar o certo e o errado.

Isso só não acontece plenamente, porque, diferente da beleza, o certo e o errado são passíveis de conceituação, dogmatização e identificação linguística. Assim, ainda que a pessoa tenha sofrido com a perda da percepção do belo, sua inteligência conhece os conceitos referentes ao que é certo e errado.

No entanto, isso causa um outro problema, que é o conflito entre a percepção e a inteligência. Enquanto a pessoa recebe a informação inteligível de que certas coisas são boas e outras são más, sua percepção não a ratifica, criando, no indivíduo, uma batalha de estímulos contraditórios.

Assim, a tendência é essa pessoa deixar-se conduzir pela percepção corrompida. Isso porque o que alimenta a alma, com o tempo, determina suas percepções. E a razão, quando não corroborada pela percepção, costuma sucumbir a ela.

Daí, quando olhamos para nossas cidades, com toda sua arquitetura utilitarista, sem preocupação estética, suas ruas sujas, seu crescimento desordenado e disforme; as favelas, com toda sua desordem e sujeira; quando somos expostos à exaltação do que é feio, feita por boa parte da mídia contemporânea; quando as próprias artes, querendo apenas chocar, apresentam um culto à feiúra constante; quando mesmo a moda, que sempre fora o bastião da beleza, começa a apresentar estilos que chocam e confundem, ao invés de enlevar, começamos a compreender porque estamos tão corrompidos.

Quando vemos nossas escolas públicas, com seu descaso estético, com suas paredes mal pintadas, seu chão engordurado, suas carteiras quebradas, seus muros pichados, seus uniformes sem graça, seus tetos com infiltração, seus jardins mal cuidados e suas lanchonetes sujas, sabemos que almas estamos forjando para o futuro.

A humildade necessária para aprender

O estudante cristão sério não pode ingressar em suas atividades intelectuais de maneira pedante, sob pena de desperdiçar oportunidades de conhecimento. Quem não se dispõe a ouvir o que os outros têm a dizer está condenado a viver, perpetuamente, em seu mundo pequeno e hermético

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O valor do tempo

Sob o impacto da película, ao olharmos para nossas vidas reais, reconhecemos a importância de não desperdiçarmos tempo

O tempo é um bem precioso, e quem ousaria negar isso? Mesmo imperceptível em seu desenrolar, tão lento que a noção de seu valor esvai-se, uma breve reflexão sobre o custo de seu desperdício é suficiente para perceber que não reverenciá-lo é um tipo de morte. Se a vida apenas pode ser glorificada em seus momentos que apresentam sentido eterno, o abandonar-se à letargia é destruir, a cada vez, a razão de existir.

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