Categoria: Filosofia

Gradatividade do Conhecimento

Desde os filósofos da Antiguidade, passando especialmente pelos escolásticos, o conhecimento foi entendido como uma adequação do pensamento à realidade. A realidade era a referência, o ponto de apoio em relação ao qual o pensamento deveria adequar-se.

Nessa perspectiva objetivista, a coisa a ser apreciada, ou seja, o objeto do conhecimento, tendia a ser vista como algo fixo e acabado. Havia um pendor por encarar a existência como um eixo sobre o qual o pensamento deveria se debruçar.

O saber, sob esse entendimento, era visto como uma absorção sequencial de elementos conhecíveis, os quais são ingeridos devida e integralmente, uns após os outros, empilhando-se na alma da pessoa, formando assim o seu cabedal de conhecimento.

No entanto, é preciso reconhecer que nenhum dado, por mais simples que seja, é absorvido, de uma vez, em sua integralidade. Quando tomamos conhecimento de um dado qualquer, esse dado não entra em nós em sua inteireza, mas parcialmente, passando por um filtro ativado em nós por diversos fatores circunstanciais. Entre esses fatores encontram-se a cultura que formou o imaginário da pessoa, sua noção da própria ignorância, seu nível de instrução e muitos outros que podem influenciar a forma como ela assimila o conhecimento.

Assim, aquilo que conhecemos, de acordo com as circunstâncias do momento do conhecimento, não é a coisa em si mesma, mas uma parte dela, um aspecto dela. Quando as circunstâncias mudam (e elas mudam ininterruptamente), absorvemos a mesma coisa absorvida antes de uma maneira diferente, fazendo com que ela não seja, de fato, a mesma coisa.

Em razão disso, cada vez que nos deparamos com uma coisa qualquer, é como se ela se abrisse um pouco mais, se desvelasse um pouco mais, permitindo que descobríssemos algo a mais sobre ela e que nos aproximasse, um pouco mais, de sua essência final. Por isso, dizemos que o conhecimento é um processo gradativo, ou seja, uma abertura progressiva para a realidade.

Isso não significa, porém, que a absorção parcial de uma coisa torna o conhecimento sobre ela inverídico. Pelo contrário, cada ato de conhecimento representa uma insinuação da verdade, um degrau na direção da essência da coisa, um passo em rumo à sua substância. Cada vez que conhecemos algo, ainda que em parte, desvelamo-no. Por isso, Tomás de Aquino dizia que a verdade é antecipada por muitos véus.

Ainda que o conhecimento seja parcial, isso não significa que desanimamos diante do dele; menos ainda tornamo-nos céticos. Pelo contrário, a parcialidade do conhecimento nos instiga a ir mais fundo, a querer saber mais, a esforçar-se para fazer com que a verdade se apresente cada vez iluminada. Ter a noção da parcialidade do que sabemos está longe de ser um motivo para estacionarmos, mas serve de forte inspiração para sempre quererermos conhecer mais.

Aventura do Conhecimento

Todas as formas de liberdade são discutíveis, exceto uma: a liberdade do pensar. O homem pode ser restringido em muitas coisas: em sua ação, em seu movimento e até em sua expressão, mas ninguém pode impedi-lo de pensar o que bem entende.

O pensamento é livre, por definição. Pensar é uma carreira sem margens, é um vôo pelo infinito. Para ser limitado, o pensamento precisaria ter a noção exata do que o limita, porém, se a tivesse, teria que ter também a noção do que transcende esses limites, e ter esta noção já é, de fato, transcendê-los.

Por isso, o pensamento não aceita manter-se circunscrito aos dados que já possui. Ignorante de suas fronteiras, ele sempre quer ir mais longe, seguir adiante. Assim, conhecer acaba sendo o seu impulso natural. Esse é o motivo de Aristóteles dizer que o homem tem um desejo natural pelo conhecimento. Deus o fez assim, com esse ímpeto por investigar, perscrutar, descobrir.

Está claro que o homem não foi feito apenas para gozar o mundo, já que o gozo pressupõe uma certa resignação, um deleite do que já existe. O homem foi feito para desvendar o mundo, meter-se nele, absorvê-lo gradualmente e compreendê-lo pouco a pouco.

Na verdade, Deus lançou o homem numa grande aventura e negá-la é renunciar a um aspecto fundamental do ser. Abandonar a busca pelo conhecimento, resignar-se a uma vida de mera fruição, não se empenhar por aprofundar-se no entendimento das coisas é simplesmente rejeitar uma missão divina e acomodar-se ao lado dos seres inferiores – é, de fato, viver como bicho.

Douto Desconhecimento

Em meus cursos, já me deparei com todos os tipos de alunos: dos interessados aos perdidos, dos atentos aos dispersos, dos participativos aos desdenhosos. Porém, há um tipo especial, aquele que é possuidor de um douto desconhecimento.

O possuidor de um douto desconhecimento possui algum conhecimento, mas sempre limitado e defeituoso. Porém, quando se expressa, faz isso com ar professoral. Geralmente, o que sabe é baseado em frases feitas e em lugares-comuns que pouco ou nada acrescentam à matéria, mas quando sai de sua boca parece tratar-se da última grande descoberta da humanidade.

Por causa do seu imaginário limitado, o possuidor de um douto desconhecimento não percebe o quanto lhe falta de conhecimento. Por consequência, acredita que o que sabe esgota a matéria. Por isso, se acha muito inteligente. Assim, não tendo consciência do que lhe falta, sente-se na obrigação de se expressar como uma autoridade no assunto.

Se o possuidor de um douto desconhecimento pensa que o que sabe alcança tudo, é evidente que acredita que o que diz tem importância vital. Por isso, quando fala exige ser ouvido, disparando seu arsenal de informações como se fossem a última verdade das matérias tratadas. Quando pede um aparte, dificilmente faz uma pergunta, mas quase sempre um comentário, que tem por objetivo expor o seu ponto de vista, que ele considera de suma importância para todos que o escutam.

Obviamente, um possuidor de um douto desconhecimento terá sérias dificuldades de absorver qualquer coisa que lhe seja ensinada. Afinal, quem terá o que ele ainda não possui? Mesmo o professor não passará de mais um ouvinte de suas intervenções sapienciais. Seu pedantismo lhe faz desperdiçar oportunidades de conhecimento e lhe enclausura na própria ignorância. Isso porque quem não se dispõe a aprender com os outros está condenado a viver, perpetuamente, em seu mundo pequeno e hermético.

Falta, na verdade, para o possuidor de um douto desconhecimento o espírito do espectador de uma peça teatral, que assiste uma encenação sem discutir com os personagens, nem criticar o roteiro, mas se deixa usufruir do enredo, sentindo a emoção da narrativa, desvendando o sentido de história, entendendo a proposta do autor.

Da mesma maneira, quando lemos um livro ou assistimos uma aula devemos também permitir-nos ser guiados. O pensamento crítico deve ser suspenso; as objeções, guardadas. Há o tempo certo para eles, mas não antes de nos esforçarmos por entender o ponto de vista de quem ensina — o que só é possível aceitando pensar como ele, sob as categorias dele.

Uma amiga me perguntou, certa vez, como ela deveria ler um livro. Eu expliquei que ela deveria tomar o autor como se fosse seu professor, independentemente de quem ele fosse. Então, ela, assustada, me perguntou: mas se eu não concordar com ele? O que eu retruquei, de pronto: e como você pode discordar de alguém que desconhece? Como criticar quem você sequer deu a oportunidade de se expressar?

Por isso, meu conselho para os estudantes é que se deixem conduzir e não assumam uma posição crítica muito cedo; que ouçam, reflitam e permitam que as ideias que lhes forem apresentadas sejam absorvidas sem muitos filtros, sem muitos preconceitos, sem muitas ressalvas. Aprendam a ser alunos e não permitam que o entendimento das coisas seja impedido por sua petulância, pelo seu douto desconhecimento.

O Que Caracteriza a Dialética Marxista

Sobre dialética, é muito comum referir-se a ela como sinônimo de debate. Nos meios intelectualizados, costuma-se dizer que as partes mantêm uma dialética quando se quer exprimir simplesmente que elas estão discutindo algum assunto. Junto a isso há uma crença estabelecida de que essas discussões “dialéticas” sempre trazem algum bom resultado. Acredita-se que o simples fato de haver discussão levar-se-á a um produto melhor. Inclusive, há uma certa veneração ao debate como necessário à evolução das coisas.

A dialética tornou-se essencial à visão de mundo dos marxistas exatamente porque, segundo o conceito que defendem, ela definiria o processo de desenvolvimento de tudo. Compreendê-la, portanto, significa penetrar no âmago do pensamento esquerdista.

Antes, porém, dos progressistas adotarem a dialética como base de sua concepção da realidade, já havia mais de mil anos de conhecimento sobre ela. Desde os antigos filósofos gregos fala-se de dialética. Mas seria ela a mesma apregoada pelos marxistas?

Alguns estudiosos acreditam que a dialética fora concebida por Parmênides, outros dizem que fora Zenão, outros ainda a atribuem a Heródoto. No entanto, seu formato, como o herdamos, ficou estabelecido em Sócrates e depois categorizado por Aristóteles.

Sócrates, ao desenvolver seus pensamentos, costumava usar o diálogo. O que ele fazia, de fato, era propor algumas perguntas e afirmações e suscitar no interlocutor algum tipo de manifestação, que podia ser desde a mera concordância ou (o que Sócrates adorava!) alguma contestação. Com as ideias postas, ele buscava fazer as inferências necessárias delas, esclarecendo cada vez mais o tema proposto. Por exemplo, ele perguntava: “O que é a justiça?”, então, levantava algumas hipóteses, estabelecia quais eram certas e, a partir delas, por indução, ia conduzindo o raciocínio. As ideias não precisavam, necessariamente, entrar em conflito. Às vezes, elas estavam de acordo, às vezes se completavam e, outras vezes, se opunham. Vê-se, portanto, que o conflito não era a regra.

Mais do que um debate entre pessoas, a dialética era uma confrontação (não necessariamente no sentido conflitivo) de ideias. Tanto que é bem possível fazer um movimento dialético sem um interlocutor real, dentro da própria mente do proponente. As ideias diante umas das outras é o que importava, não as pessoas. É como se elas fossem colocadas sobre a mesa para que se decidisse quais seriam descartadas, quais aproveitadas e quais consertadas. As que sobrevivessem tornavam-se premissas para a sequência dos raciocínios.

Os raciocínios dialéticos, apesar de obedecerem o método da inferência, não criavam nenhuma nova realidade. Pelo contrário, o inferido tinha o caráter de esclarecimento, ou seja, de revelação da verdade, daquilo que ainda não estava claro, que estava oculto.

Aristóteles deu o caráter definitivo à dialética ao identificá-la à busca da verdade. O que ele estava propondo é que nela haveria uma insinuação de ideias em torno da verdade, como se dançassem ao redor dela. Sendo assim, é um requisito da dialética aristotélica que as partes estejam de boa vontade no processo. Se houver, entre elas, um intuito conflitivo, um desejo de impor a própria opinião, a dialética fica prejudicada, já que não haverá aquele movimento benevolente em busca do conhecimento.

A dialética grega, com efeito, não era um processo criativo, mas revelatório; um método para fazer surgir a verdade, ou seja, fazer aparecer uma realidade já existente. Por isso, diz-se que tanto em Platão como em Aristóteles ela era um processo de esclarecimento.

A mudança do conceito da perspectiva sobre a dialética vai ocorrer com Hegel. Nele, ela se transforma não em uma via para o esclarecimento, mas em um processo de desenvolvimento da própria realidade. O que era um movimento centrípeto, em direção à verdade, transforma-se em centrífugo, de criação de novas realidades.

A dialética hegeliana pressupõe que toda ideia possui, em si mesma, uma contradição. Esta contradição gera um conflito, o qual terá como resultado uma nova ideia superior à anterior. Esta nova ideia já nasce com sua contradição, que gera um outro conflito, que gera uma nova ideia e assim indefinidamente. Tem-se, com isso, um processo espiralado e ascendente. Assim, há, na concepção dialética hegeliana, um evidente conteúdo progressista, apesar de conter também um elemento conservador. Isso porque, ao mesmo tempo que ela indica uma evolução constante, também considera que as verdades superadas pelo novo não são descartadas, mas nele absorvidas. O que, porém, a diferencia da dialética grega é seu caráter criativo. Se, para os gregos, ela revela a verdade, para Hegel gera realidades.

Hegel criou uma legião de seguidores. Na verdade, na Alemanha do século XIX, todos os jovens instruídos eram hegelianos. Karl Marx era mais um entre eles e assumiu a dialética hegeliana como a explicação do processo de desenvolvimento da realidade. Porém, o fator distintivo de sua visão do processo dialético, herdado de outro hegeliano, Feuerbach, foi sua materialização. Para Marx, que entendia que tudo era matéria, a dialética constituía o processo de desenvolvimento de tudo, inclusive da história, da sociedade e da economia.

O que vai diferenciar o processo dialético marxista do hegeliano, além de sua aplicação ao mundo material, é o seu caráter essencialmente revolucionário. A dialética, dentro da tradição marxista, acabou se estabelecendo como um processo gerador de novas realidades, mas, diferente de Hegel, e mesmo de Feuerbach, o caráter de preservação é abandonado e estabelece-se que o novo gerado descarta o velho superado. Os filósofos ortodoxos comunistas vão afirmar que o antigo fica caduco e é totalmente deixado para trás.

É verdade que os marxistas mais intelectualizados vão sempre tentar resgatar a dialética à maneira hegeliana, tentando manter parte de seu caráter conservador. No entanto, a visão mais dogmática marxista vai ser radical em tê-lo como um processo revolucionário, ou seja, como superação total do passado.

O fato é que a dialética marxista é essencialmente revolucionária e, acima de tudo, uma concepção da realidade que molda a visão que os progressistas têm sobre todas as coisas, afinal, para eles, ela está em tudo e explica a evolução de tudo. Portanto, quem quiser compreender uma mente progressista precisa entender o papel que a dialética tem na formação de sua inteligência.

Filosofia Esclarecedora

Na cabeça de muita gente, Filosofia é algo complexo. Chegam a imaginá-la como um tipo de conhecimento esotérico, acessível apenas aos iniciados.

Os próprios filósofos acabam sendo os responsáveis pela incompreensão que cerca suas ideias, pois costumam expressar seus conhecimentos de forma hermética, com o uso de termos inusuais e raciocínios obscuros.

Parece até que a filosofia cuida de assuntos que não interessam a quase ninguém, apesar de seu objeto ser algo que interessa a todos nós: nossa própria existência.

Sendo assim, a filosofia não deveria se esconder atrás de conceitos impenetráveis e formas pomposas. Pelo contrário, sua função deve ser superar as aparências que se manifestam por meio de uma infinidade de elementos que escondem a verdadeira realidade por trás delas.

Pode-se dizer que o objetivo da filosofia é dissipar a confusão que os homens e a própria estrutura da realidade impõem. Assim, ela não precisa ser complicada.

Se a vida é complexa, a filosofia está aí para fazê-la simples, ou seja, fazer com que a consciência humana consiga identificar na existência alguma unidade.

É verdade que, às vezes, a própria realidade se apresenta cheia de dificuldades. Pois é nesse momento que a filosofia se faz importante, tornando compreensível aquilo que, em princípio, parece muito difícil de ser entendido.

O filósofo precisa lembrar que a função da sua ciência não é complicar, mas esclarecer. Por isso, seu esforço deve ser por torná-la inteligível, a despeito das dificuldades que encontre para dissipar a névoa de confusão que a realidade impõe. Como diz Locke, a filosofia deve ser complacente a ponto de se vestir segundo a moda ordinária.

Filosofia Prática

Qual a utilidade da Filosofia? Para o senso comum, que a vê como uma divagação estéril ou mera atividade acadêmica, nenhuma. 

Em geral, as pessoas acreditam que a filosofia se encontra longe das questões que fazem parte do seu dia-a-dia. Filosofar, para elas, é o mesmo que se perder em reflexões desapegadas do mundo real.

Muitas vezes, os filósofos contribuíram com isso, promovendo debates que interessavam somente aos especialistas. Eram os filósofos de gabinete.

Não surpreende que a percepção popular tenha dificuldade de enxergar qualquer ligação da Filosofia com a vida cotidiana. Exceto, quando, ao ser despida de sua vocação, ela é rebaixada a mero discurso motivacional.

No entanto, a Filosofia possui mais de dois milênios de ideias que formataram a mentalidade da nossa sociedade. É impossível que, nessa multidão de pensamentos, não existam aqueles que tenham aplicação na vida das pessoas. Não é concebível que sejam apenas séculos de palavrórios e controvérsias irrelevantes.

A Filosofia, como dizem, é a busca pela sabedoria e esta pressupõe saber agir de determinadas maneiras, em determinadas situações. Não existe sabedoria meramente abstrata. Ela sempre envolve algo além da mera reflexão, uma atuação visível.

É verdade que a Filosofia se apresenta, antes de tudo, como um instrumento para a compreensão da realidade. Só que, ao ajudar a compreender a realidade, não há como ela não ser útil na resolução de problemas concretos, na solução dos dilemas da vida, na superação de suas dificuldades. Nesse sentido, não há dúvida que a Filosofia é também prática.

Não que a aplicação prática seja seu objetivo. Este continua sendo a compreensão, o entendimento da realidade. No entanto, não há como compreender a realidade e isso não afetar diretamente a forma como nos relacionamos com ela.

Filosofia é, portanto, mais que reflexão; é um modo de vida; é uma capacitação; é uma maneira de estar no mundo e de encará-lo. Filosofia é mais do que uma matéria de estudo; é, além de tudo, uma maneira de viver.

A Vontade que Sustenta o Mundo

A partir do momento que os pensadores desapegaram-se da Revelação para investigar a natureza por conta própria, tornaram-se obsessivos por descobrir a lei subjacente que a sustenta. O objetivo era desvelar o processo que está por trás de tudo, que faz o mundo ser o que é e que demonstraria que Deus realmente não seria necessário.

Para isso, porém, era preciso que sua filosofia concebesse o cosmos como uma máquina, permitindo assim decifrar seu funcionamento, tornando tudo previsível, sem a preocupação de saber se há alguma inteligência por trás com o risco de tomar decisões inesperadas. Até porque o que mais incomoda a inteligência moderna, ansiosa por autonomia, é aceitar que possa haver porções da existência que sejam inexplicáveis, imprevisíveis, misteriosas. Aceitar que talvez ela dependa, no fim das contas, de uma mente que age como e quando quer lhe é aterrorizante.

Chesterton então toma essa busca por segurança dos cientistas e lança na cara deles que seus esforços são vãos, afinal, nada garante que exista uma lei que sustente toda a realidade. Ele observa que apenas testemunhamos uma mera repetição de fenômenos, e isso, seguindo o próprio rigor científico, não caracteriza uma lei, pois lhe falta um elemento crucial, que é a existência de uma inteligência que lhe determine. Leis são atos de vontade e chamar a mera repetição de acontecimentos de lei não passa de um eufemismo.

A repetição, em vez de indicar que o mundo possua um padrão impessoal e autônomo, insinua que é mais provável que haja uma inteligência determinando que as coisas ajam sempre da mesma maneira. Até porque a recorrência contínua costuma ser uma prova de que há vida envolvida no processo e não uma mera sucessão mecânica. Por exemplo, para acordar todos os dias, no mesmo horário, pela manhã, é preciso que diariamente se tome uma decisão nesse sentido. A repetição exige vontade.

Chesterton insiste que a reiteração dos fenômenos na natureza parece muito mais fruto do querer e do agir de alguém do que de um processo sem vida. Isso não significa que ele estivesse querendo impor uma nova filosofia, nem destruir a ciência. Seu objetivo era apenas ressaltar que aquilo que os cientistas chamam de lei da natureza não precisava ser, necessariamente, uma negação da vontade sustentadora de Deus. Pelo contrário, poderia ser exatamente a prova dela.

A Loucura do Pensamento Moderno

Os pensadores modernos, otimistas com a capacidade humana de decifrar o mundo, decidiram, por si mesmos, apoiando-se em suas percepções, raciocínios e observações, apresentar, cada um, sua própria versão da realidade.

Para isso, negaram os princípios tradicionais da cultura onde estavam inseridos, e Chesterton, em seu livro ‘Ortodoxia’, identifica aí uma característica insana. Afinal, “quem pensa sem os apropriados primeiros princípios fica louco“. 

Mas, segundo Chesterton, a insanidade moderna não se caracteriza – como seria de se esperar – de raciocínios sem sentido. Pelo contrário, como nos loucos, que são “em geral, grandes argumentadores”, há sentido até demais nos argumentos modernos. Há, neles, um excesso de coerência, mas uma coerência interna, que parte dos seus próprios pressupostos, e segue justificando-os, movendo-se sempre em sentido circular.

Chesterton lembra-nos que “o louco costuma ter um raciocínio expansivo e exaustivo com reduzido bom senso“, ou seja, um raciocínio coerente consigo mesmo, ainda que apartado da realidade; é um raciocínio “tão completo como a do sensato, [apesar de não] tão abrangente“.

A partir dessa insanidade do pensamento moderno, Chesterton identificará sua limitação, que “esclarece muita coisa, mas deixa muita coisa de fora”; seu simplismo, que lhe dá uma aparência de perfeição, porém como uma “bala [que] é exatamente tão redonda como o mundo, mas não é o mundo“; e sua obsessão “no sentido de que toma uma explicação superficial e a leva muito longe“.

Por fim, Chesterton ressaltará aquilo que mais aproximará as filosofias modernas da loucura: sua autoconfiança, já que elas costumam apresentar-se como a resposta definitiva às questões a que se propõem e não costumam aceitar oposição. No entanto, só “os loucos nunca têm dúvidas“ e, não por acaso, “os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos em asilos de lunáticos“.

Para Chesterton, a enfermidade da filosofia moderna se encontra exatamente naquilo do que ela mais se orgulha: sua racionalidade. Até porque, o louco “não é alguém que perdeu a razão, mas alguém que perdeu tudo, exceto a razão“.

A Revelação da Verdade

O livro Ortodoxia, de Chesterton, é uma contraposição ao espírito filosófico da modernidade; uma resposta à sua artificialidade e à sua insanidade. O próprio autor confessa que, em sua juventude, foi contaminado por essa maneira de pensar. Explica que tentou desenvolver sua própria compreensão da realidade; buscou desenvolver suas próprias teorias; e acreditou que poderia explicar, por si mesmo, a realidade.

Na verdade, muito do pensamento moderno nasceu da vontade de superar um filosofia alicerçada na Revelação; de mostrar que as ideias anteriores estavam tomadas de superstição; de que o homem não precisa de Deus para compreender a realidade; de buscar uma explicação para a realidade que fosse original.

O próprio Chesterton, usando a si mesmo como exemplo do espírito moderno, conta-nos que, no fervor de sua mocidade, também tentou ser original, desbravando realidades supostamente não abarcadas por ninguém. Como ele diz, criando sua própria heresia, da mesma maneira como fizeram todas as ideologias modernas, como também aquelas filosofias que tentaram explicar o funcionamento do mundo por meio de um princípio qualquer.

No fim das contas, Chesterton descobriu que suas descobertas não eram descobertas, mas verdades que já haviam sido reveladas. Quando ele pensou que havia encontrado novas explicações, percebeu que elas já haviam sido dadas pela revelação.

"Forcei minha voz com penoso exagero juvenil ao proferir minhas verdades. E fui punido da maneira mais adequada e engraçada, pois mantive as verdades: mas descobri, não que não eram verdades, mas simplesmente que não eram minhas".

Justino dizia que tudo o que já havia sido falado de verdadeiro, em todas as épocas, por todas as pessoas, pertence ao cristianismo. Chesterton está querendo transmitir a mesma ideia. Seu objetivo não é se opor à filosofia moderna, mas pontuar que ela não é original, pois seus acertos já se encontram todos naquilo que a “religião civilizada” ensinou.

O cristianismo, diferente das filosofias e ideologias modernas, não é uma versão da realidade, mas sua própria apresentação. Ele lança sobre nós o peso de existência inteira, do experimentável ao transcendente, o visível e o invisível, o imediatamente compreensível e aquilo que está além do que pode ser entendido atualmente.

Por isso, sentimos, neste mundo, uma dupla sensação, de familiaridade e perplexidade. Diante da infinitude que o cristianismo nos apresenta, ao mesmo tempo que convivemos com tudo aquilo que foi criado considerando nossa vida, tornando as coisas próximas de nós, temos de aceitar o incompreensível, o milagroso, o misterioso também como parte da existência.

"Como podemos imaginar ficarmos ao mesmo tempo assombrados com o mundo e, mesmo assim, nele nos sentirmos em casa?"

Diferente de boa parte do pensamento moderno que, partindo de princípios muito bem delineados, encontra explicação para tudo, fechando-se numa perspectiva lógica e hermética, o cristianismo abarca o conhecido e o desconhecido, fala daquilo que faz parte da vida comum, do homem simples, mas também dos milagres, dos grandes destinos. Isso porque não se trata de uma ideia, mas da realidade mesma, com sua amplitude e complexidade.” Ouvir” O cristianismo não é ter resposta para tudo, mas aceitar tudo como parte dessa existência bela e espantosa, às vezes com pleno sentido, outras completamente misteriosa.

Por isso que aquele que busca compreender a verdade não pode fechar-se em sua própria percepção do real, nem alimentar a arrogância de acreditar que pode, por si mesmo, entender tudo. Se for intelectualmente honesto vai perceber que muito daquilo para onde suas especulações conduziram já havia sido dado pela Revelação.

"Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o último acabamento descobri que era a ortodoxia"

"Alimentei a fantasia de escrever um romance sobre um navegador inglês que cometeu um pequeno erro ao calcular sua rota e descobriu a Inglaterra".

Chesterton, simplesmente, quer deixar claro que quem procura a verdade, com sinceridade, vai acabar se deparando com o que ele chama de Ortodoxia, que nada mais é do que a Revelação cristã. Afinal, toda explicação correta nela encontra abrigo.

Direito de Duvidar

Em outros tempos, os inteligentes eram os contestadores. Lembro-me de como se valorizava a pessoa não conformada e que não se rendia às imposições do sistema. Hoje, parece que as coisas mudaram.

Gente bem instruída tem defendido que existem coisas óbvias demais para serem contestadas. Não se engane! Elas não estão se referindo a Deus ou a algum absoluto metafísico, mas a questões naturalmente discutíveis, como experiências científicas, interesses financeiros e jogos políticos.

São pessoas educadas, que têm aceitado – quando não instigado – a censura prévia daqueles que ousam questionar algumas certezas que não parecem certas o suficiente.

Não satisfeitas, acusam os questionadores de obtusos. Afinal, para os censores, há realidades evidentes demais para que se permita levantar dúvidas sobre elas.

No entanto, nada é óbvio para quem olha com atenção.

Somente uma pessoa inteligente é capaz de duvidar. Isso porque apenas alguém com o imaginário expandido tem condições de antever possibilidades, percebendo as diferentes formas como o objeto observado pode se manifestar.

Os inteligentes percebem que aquilo que se manifesta de uma maneira pode também se manifestar de outras. Por isso, para eles, não é que o óbvio não exista, mas se trata de exceção. Observe o mundo, tente identificar o indubitável e verá que quase nada se encaixa nessa definição.

Por isso, a dúvida, sendo necessária para quem pretende enxergar além das aparências, longe de ser uma característica de ignorantes, é, na verdade, um indício de sabedoria. Somente a pratica quem não tem ainda a mente cativa.

Não estou falando dos paranoicos que, por falta de capacidade de discernimento, criam uma realidade alternativa para onde não param de olhar e de onde tiram todas as explicações. Estes não duvidam de nada. Apenas trocam uma certeza pela outra.

Falo, sim, da importância de se preservar o direito de duvidar. Este que é um exercício típico de todos os grandes pensadores que, não conformados às certezas desta vida, ousaram levantar sua voz para desafiá-las.

Sem a dúvida não há ciência, nem evolução. Somente ela pode tirar a humanidade de suas certezas estacionárias e permitir seu amadurecimento. Quando não se permite duvidar, resta apenas a opressão das certezas fabricadas.