Debate impossível

Não é incomum paladinos da tolerância surgirem com suas admoestações moralistas, dizendo que devemos manter um diálogo com os opositores, apesar das divergências. Aparentemente, as intenções são as melhores, que é manter uma certa civilidade nos debates públicos.

No entanto, quando se trata de debates com defensores da ideologia de esquerda, apesar da democracia obrigar-me a conceder-lhes o direito de falar, respeitá-los ou mesmo considerar seus argumentos é algo que sistema algum do mundo pode exigir de mim.

Isso porque tudo o que a esquerda tem a oferecer – seu ateísmo, seu ódio contra os valores familiares, seu descaso em relação ao nascituro, sua defesa da bandidagem, sua defesa das drogas, seu relativismo moral, sua estética medonha, sua militância anti-religiosa, seu esforço pela destruição do modo de vida ocidental e seu desejo declarado pelo fim de seus adversários políticos – não são matérias passíveis de discussões, mas atentados contra a civilização, que devem ser contidos.

Se a esquerda fosse apenas uma outra forma de enxergar a economia ou o papel do Estado, não haveria problema algum em manter os canais de comunicação e discussões abertos com ela. Porém, estes, na verdade, são os temas menos importantes para os socialistas. O que realmente está no cerne de seu objetivo é a substituição do mundo como conhecemos e vivemos por um outro completamente diferente, onde pessoas como eu não são bem vindos.

Por isso, há muito tempo deixei de considerar o debate político com as esquerdas apenas uma troca de ideias. Não fossem suas intenções declaradas, suas convicções sedimentadas e sua forma de agir, até poderia considerar essa possibilidade. No entanto, quando eu sei o que sei sobre eles, aceitar qualquer tipo de discussão civilizada com essas pessoas é como tentar combater terroristas, munidos de armas e bombas, com meros panfletos de repúdio. E eu não sou idiota a esse ponto.

Marxismo é religião

Causa surpresa a forma como militantes de esquerda defendem sua ideologia. Quem já discutiu com eles sabe o quanto é difícil convencê-los de qualquer coisa que contrarie suas doutrinas. Para eles, quase nunca importam as razões e os fatos, mas vale mesmo a fé no que defendem. Isso acontece porque a ideologia esquerdista não é apenas uma proposta política, mas principalmente uma mensagem religiosa.

Vocês já viram, várias vezes, eu escrever que o marxismo – que é a base doutrinária de toda a esquerda – trata-se de uma doutrina religiosa. Mostrei, em meu artigo ‘Uma ideologia religiosa“, baseado no livro “Marxismo e religião”, de Heraldo Barbuy, o quanto o marxismo possui todas as características de uma seita, com seus profetas, seu livro sagrado, sua escatologia e sua doutrina.

Apesar disso, por essa afirmação sobre a natureza religiosa do marxismo não ser imediatamente perceptível, pois exige enxergar algo para além do discurso puro e simples que os marxistas apresentam, muitas pessoas tratam-na como um exagero ou um mero lance retórico.

Eu entendo essa reação. As pessoas aprendem que marxismo é política, que trata-se, principalmente, de economia. Afirmar que ele é uma religião parece apenas uma acusação de seus inimigos para desmerecê-lo, e nada mais.

Porém, uma coisa é certa: se o marxismo for realmente um tipo de religião, milhões de pessoas foram e estão sendo arrastadas para ele sem ter a mínima noção dessa sua natureza. Tornam-se, assim, presas fáceis de sua abordagem altamente proselitista.

Por isso é importante esclarecer: afinal, marxismo é religião? Ora, existem várias maneiras de se provar isso. O artigo e livro citados acima foi uma delas. Porém, nada melhor do que ler escritos de quem foi um dos maiores líderes da revolução comunista. Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido como Lenin, foi o gênio por trás da revolução bolchevique de 1917, na Rússia. Foi também um de seus mentores e guias – provavelmente, o maior deles. Além disso, era um homem que, comparado com outros líderes comunistas de seu tempo, era bastante ponderado e tido até por conservador pelas alas mais radicais do Partido.

Lenin escreveu vários artigos para os periódicos e manifestos da época e neles expôs muito de como ele entendia o marxismo. Fazia assim até como forma de educar os militantes sobre a natureza e objetivos dessa doutrina. Portanto, para constatar o quanto o marxismo tem forte conotação religiosa, basta ver o que ele expôs em um único artigo, chamado “Três fontes e três partes integrantes do marxismo”, escrito por ocasião do aniversário de 30 anos da morte de Karl Marx.

Nesse artigo, Lenin começa lamentando-se que “a doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa, que vê no marxismo algo assim como uma seita nefasta“. Parece evidente, portanto, que os próprios contemporâneos da revolução já tinham percepção que aquele movimento continha algo além de político. E eles tinham razão.

Basta ver a afirmação que o próprio Lenin vai fazer logo em seguida, ao dizer que “o gênio de Marx reside, precisamente, em haver dado solução aos problemas levantados antes pelo pensamento avançado da humanidade“, para perceber o quanto ele mesmo via em Marx uma espécie de mensageiro religioso. Ora, nenhuma mera doutrina política se pretende solucionadora dos problemas da humanidade. Apenas uma proposta religiosa faz isso. Aliás, a isto se resume a religião: oferecer ao mundo uma solução. Quando Lenin afirma que o marxismo faz isso, está colocando-o não apenas no mesmo nível de outras religiões, mas afirmando que o marxismo é a religião mesma, ou seja, aquela única verdadeira que resolve os problemas do mundo.

Não é por acaso que, na sequência do texto, ele vai afirmar que “a doutrina de Marx é todo-poderosa“. Que expressão poderia ter conotação mais abrangente, chegando a igualar-se ao que se diz do próprio Deus? Todo-poderosa significa algo que possui o poder total, a força plena, que é universal, invencível e inerrante. Não é uma expressão aleatória, nem serve como força de expressão. É uma descrição que demonstra muito bem como os próprios marxistas enxergam seu ídolo.

Lenin, ainda, vai escrever que a doutrina marxista é “completa e harmônica, dando aos homens uma concepção do mundo íntegra“. É fato que nenhuma doutrina meramente política seria capaz disso. Apenas uma revelação religiosa poderia ser tão abrangente a ponto de ser considerada completa, tão perfeita a ponto de ser tida por harmônica e tão profunda a ponto de dar aos homens uma concepção integral do mundo.

Está claro, portanto, que os marxistas, conforme pode ser constatado nos escritos do líder se sua própria revolução, vêem sua doutrina como algo religioso, além das meras disputas políticas comuns. Além disso, há o fato, que poucas pessoas sabem, de os próprios seguidores de Karl Marx e Friedrich Engels, desde a última década do século XIX, chamarem-se a si mesmos de discípulos. Isto demonstra, claramente, que eles mesmos viam-se como seguidores de profetas que portavam uma mensagem redentora, uma doutrina de salvação, não como meros militantes políticos.

Não resta dúvida que não apenas o marxismo é uma ideologia religiosa, como seus próprios seguidores sempre enxergaram-no dessa maneira. Por isso, de nada adianta tentar contraditar marxistas com base em razões políticas e econômicas. Marxismo é religião e seguidores de uma religião não são convencidos por argumentos racionais.

Histeria coletiva e a contaminação do mensageiro

A maior prova da histeria coletiva brasileira é a necessidade obsessiva de ver-se com um povo pacífico, até pacato. Mesmo com a realidade esbofeteando sua cara, mostrando diariamente que vivemos em um dos países mais violentos do mundo, tentamos nos convencer de que a nossa característica marcante é a paz.

Então, quando surgem casos como o atentado contra a vida de um candidato à presidente da República, que, diante das nossas circunstâncias violentas, seria algo até bastante óbvio, há uma enormidade de pessoas querendo tratar isso como uma excrescência, como um ato isolado.

E quando esse mesmo candidato apresenta um discurso forte de ataque à violência existente, em vez dessas pessoas concordarem com ele e afirmarem que, realmente, há muita violência por aqui e ela precisa ser contida – e não se contém violência senão com força -, preferem acusar de violento o autor da proposta, não os criminosos que ele combate.

De certa maneira, isso é explicável, pois Jair Bolsonaro acaba agindo como o portador da má noticia de que nosso país é um lugar selvagem e precisa receber um remédio amargo para conter toda essa selvageria. E “a natureza da má notícia contagia o mensageiro. Existe uma tendência humana natural a desgostar de uma pessoa que traz informações desagradáveis, ainda que ela não tenha causado a má notícia. A simples associação basta para estimular nossa aversão” (Robert Cialdini – As armas da persuasão).

Por isso, para uma parcela da população, Bolsonaro acaba sendo mau simplesmente porque ele fala sobre coisas más. E nisso encontra-se a desculpa perfeita para o histérico: encontrar algo isolado e realmente inofensivo onde possa lançar seus medos. Para essa gente histérica, é mais aceitável dizer que Bolsonaro é perigoso do que dizer que perigoso mesmo é sair na rua segurando um celular, onde pode ser morta por um deliquente. O perigo em relação ao Bolsonaro é falso, mas suportável; já o delinquente que pode lhe abordar a qualquer momento é bastante real, mas insuportável.

É verdade que toda essa tentativa de diminuir a seriedade do atentado, por todos os meios retóricos possíveis, tem muito de canalhice, mas só ecoa porque há muita gente histérica pronta para agarrar a primeira explicação que afaste a verdade feia demais de que estamos vivendo em um país cercado pela criminalidade, pela barbárie e pelos piores sentimentos.

Fenômeno incomparável

João Pereira Coutinho ficou assustado com a recepção a Jair Bolsonaro que ele presenciou em um aeroporto. Diante disso, escreveu um artigo demonstrando preocupação com o que entendeu ser uma demonstração de fanatismo.

Na verdade, o cronista português não entendeu absolutamente nada desse fenômeno e eu até o compreendo. Seu julgamento tem base em referências históricas.

O que ele não percebeu, porém, é que este é um fenômeno de tempos incomparáveis. Tempos da espontaneidade dos meios digitais. Se ele obervasse bem, perceberia como até os mais exaltados apoiadores de Bolsonaro conhecem os defeitos do capitão. Ainda que muitos não gostem de expo-los, têm consciência que eles existem. Outro fator, que é mais decisivo nesse sentido, é o fato de que essas pessoas estão aceitando as propostas de campanha que o candidato tem apresentado, mesmo sendo estas, em sua maioria, as menos populistas da história das campanhas eleitorais brasileiras.

O que o senhor Coutinho não percebeu é que, dessa vez, o povo não está vendo seu candidato com um guia intocável e inerrante, mas sim como um instrumento canalizador de seus anseios. Não vê nele alguém que vai salvá-lo, mas alguém que não vai fodê-lo. No fundo, Bolsonaro não está usando o povo, mas o povo está usando-o para ter alguma voz na cúpula dos poderes da República.

As manifestações de apoio podem até ser parecidas com outras na história, mas, substancialmente, elas são uma novidade.

Politicismo integral e a derrocada da cultura

Não escondo minha preferência por Jair Bolsonaro. Tenho convicção que ele é a melhor opção para o país, neste momento. Fiz dezenas de textos elogiando-o por suas características e virtudes. Ainda assim, bastou eu fazer uma pequena crítica ao candidato, ressaltando algo que entendi equivocado da parte dele – apenas um alerta para alguém que precisa estar atento em seu caminho rumo à rampa do Planalto – e logo surgiram aqueles que interpretaram minha crítica pontual como uma ação deliberada contra o candidato. Apesar de tudo o que eu já havia escrito, minha solitária reprimenda serviu para que alguns acólitos me tachassem de atuar contra Bolsonaro. Um deles, inclusive, disse que, com isso, mostro que estou em cima do muro.

Mas não é a reprovação de alguns que me preocupa. O mais importante, para mim, é ressaltar que essa atitude nada mais é do que um sintoma de uma doença que já tomou boa parte dos brasileiros e da qual eles sequer se dão conta. Essa doença, segundo a expressão cunhada por Oretga y Gasset, chama-se politicismo integral. Como afirmou o escritor espanhol:

“O politicismo integral, a absorção de todas as coisas e de todo o homem pela política é a mesma coisa que o fenômeno da rebelião das massas. A massa rebelde perdeu toda a capacidade de religião e de conhecimento. Não pode conter mais que política, uma política exacerbada, frenética, fora de si…”

O homem tomado pelo politicismo integral não entende que nem tudo, mesmo quando se refere às ideias políticas, é política efetivamente. São os marxistas que vociferam “Tudo é política! Tudo é política!”. Das ações partidárias à poesia escrita para a namorada, tudo, para eles, é ação política. Eles ignoram que há vastas áreas da experiência humana que estão além da política e até a desprezam.

Eu mesmo, tendo recebido vários convites para ingressar em movimentos políticos, neguei-os todos, peremptoriamente. Fiz isso, não porque eu entenda ser errado participar – muito pelo contrário! -, mas porque entendo que esta não é minha vocação. Acho muito válida a atitude de quem se embrenha nos meandros da política, mas, decididamente, não é o que me atrai – nem um pouco! Por outro lado, a política, como ciência e como fato social, me interessa demais, e por isso tento atuar junto a ela como um analista, como um crítico, como alguém que observa e comenta os passos que os verdadeiros atores políticos dão.

Porém, para algumas pessoas, não existe isso de não atuar politicamente. Para elas, tudo é política. No entendimento delas, qualquer fungada que você dê, qualquer peido que você solte, tem uma conotação política e uma intenção política. Elas não aceitam que alguém possa fazer algo sem interesse político, apenas com um objetivo científico ou de análise social.

O problema é que foi exatamente esse pensamento, que vê política em tudo, que provocou a derrocada da cultura, de uma maneira geral. É por causa dele que as escolas e universidades estão tomadas por ativistas políticos e os próprios professores já não conseguem enxergar a ciência fora da atuação política. Por isso, qualquer pesquisa precisa responder aos anseios da militância. Por isso, não se forma mais a inteligência, mas apenas o ativista.

E, apesar disso, muita gente, mesmo sendo crítica da ocupação feita por esses militantes em todos os poros culturais, acaba, sem perceber, agindo exatamente segundo os princípios deles. A verdade é que não adianta esperar a salvação da cultura nacional e o desenvolvimento da inteligência dos brasileiros se continuar a ver tudo como ato político. Enquanto não aprenderem a privilegiar a arte em si mesma, a ciência em si mesma, a cultura em si mesma e a inteligência em si mesma, vão continuar a experimentar a mediocridade intelectual que toma conta do país hoje em dia.

Somente o rebaixamento da política ao seu devido lugar fará com que a inteligência brasileira se liberte das amarras a que foi subjugada nas últimas décadas. Apenas a elevação da cultura para além da política e da militância fará com que, daqui a alguns anos, os brasileiros realmente possam participar dos altos círculos intelectuais do mundo e serem respeitados no universo científico.

No entanto, este não é apenas um recado para os que aparelharam os ambientes intelectuais oficiais, mas, principalmente, para aqueles que lutam contra esses invasores, para que não cometam o mesmo erro deles.

Quem manda no jogo

Eleição não é concurso de etiqueta, nem prova de bons modos. Eleição é voto adquirido geralmente pelas razões mais irracionais, como identificação e simpatia.

Dito isto, deve-se levar em conta que maiores chances tem aquele que aparece, aquele que dá a impressão de estar controlando o pleito. E nesta eleição há apenas um candidato assim. Todos os outros estão agindo como coadjuvantes do ator principal, que é praticamente a única notícia e que, mais ainda, parece controlar a mídia a seu bel-prazer, com frases de efeito, polêmicas e recepções por multidões.

Na cabeça das pessoas, quem vocês acham que está sendo percebido como mais capaz de ser presidente da República? Quem conduz no jogo é visto como aquele quem tem mais autoridade e mais poder. Por isso, Bolsonaro não apenas lidera, mas tende ainda a crescer nas pesquisas.

Ajuda adversária

Narrativas que são criadas para destruir algo, se não alcançam seu intento, acabam por fortalecê-lo. E é isso o que está ocorrendo com Jair Bolsonaro, desde quando ele começou a aparecer na mídia como pretendente à cadeira presidencial. Por mais que se tenha falado dele com o uso dos piores adjetivos, em nenhum momento ele sofreu algum tipo de desgaste ou de perda de vigor entre seus eleitores. Pelo contrário, parece que quanto mais estórias inventam a seu respeito, mas ele se fortalece e cresce nas intenções de voto. Mas isso não acontece por acaso.

Essas narrativas – geralmente, tirando conclusões desvirtuadas de fatos e falas apartadas de seus contextos verdadeiros – pretendem apresentar o candidato como alguém desprezível, reprovável, não digno de confiança. No entanto, deve-se atentar que, antes de mostrar quem ele é, o que essas narrativas fazem é mostra-lo, de qualquer jeito. E isso o ajuda.

O que esses criadores de narrativas não entendem é que as conclusões que eles propõem embutidas nelas não são absorvidas de imediato pelo espectador. Na verdade, essas conclusões precisam ser, de alguma maneira, processadas, compreendidas e, por fim aceitas. Já a imagem que eles apresentam, esta não passa por um processo tão complexo – ela é absorvida na hora.

Em geral, o espectador não conclui que fulano ou sicrano é corrupto, mau, inconfiável. Ele, na verdade, percebe isso. O que eu quero dizer é que a maioria das pessoas, em princípio, não conclui sobre um caráter de uma outra pessoa – sobre o qual elas possuem informações truncadas e parciais – por meio de um processo racional e argumentativo. Caráter – que está ligado a credibilidade e Aristóteles chamava de ethos – é muito mais percebido do que inferido.

Sendo assim, uma narrativa que tenta destruir a imagem de uma pessoa, antes de conseguir isso, vai fazer algo em favor dela: apresentá-la. E ao apresentá-la dará a chance para ela ser observada por aqueles que ainda não a conhecem e, caso ela possua, em aparência, as qualidades positivas que esses espectadores esperam ver nela (credibilidade – ethos), a narrativa negativa será ignorada e o que permanecerá será a imagem positiva.

É por isso que Bolsonaro não ‘desidrata’, como esperavam alguns iluminados da mídia. Porque, cada vez que essa mesma mídia o destaca, ainda que em uma tentativa de destrui-lo, ela acaba dando a chance para que mais pessoas, que ainda não o conheciam melhor, possam olhar para ele, captar sua credibilidade e acabar confiando nele.

Não que essas narrativas maledicentes não tenham efeito em outros contextos. Elas podem funcionar muito bem em relação a pessoas já suficientemente conhecidas. Nestes casos, tais narrativas podem entrar para fortalecer uma percepção já existente nas mentes. No caso de Jair Bolsonaro, porém, isso não acontece, por ser ele ainda razoavelmente desconhecido de boa parte das pessoas, não havendo ainda uma imagem definida a ser destruída pela narrativa.

É por essa razão que insistirem tanto em falar de Bolsonaro é um favor que fazem a ele. Mas é evidente que não seria assim se o capitão não tivesse as caraterísticas pessoais que causassem essa identificação positiva com o povo. No entanto, ele as possui. Na verdade, seu jeito, sua maneira de pensar, sua forma de agir e até suas dificuldades próprias são muito semelhantes a do homem comum, que vê nele, neste momento de completo desalento com qualquer tipo político, alguém semelhante.

Por isso, a mídia e mesmo seus adversários de campanha fazem, ainda que sem querer, um serviço em favor de Bolsonaro. Ainda que ele tenha um espaço menor dentro dos grandes veículos de comunicação para apresentar-se ao povo, ele pode contar com seus adversários para fazer isso por ele.

Menos planos, mais princípios

Uma das maiores incoerências que vejo na análise dos candidatos à presidência é esse fetiche por planos de governo. Nem parece que o Brasil já sofreu o suficiente com os planos mais mirabolantes, que nos colocaram no quase caos que vivemos hoje. Os analistas, ainda assim, continuam exigindo que os candidatos tenham planos minuciosos a apresentar, como se tudo pudesse ser resolvido por meio de planilhas e números.

Isso não esconde que mesmo essa gente que reclama da centralização do governo federal e do excesso de Estado, no fundo, espera algum tipo de Salvador da pátria, que, se não resolverá os problemas por meio do milagre, o fará por meio de suas excelsas capacidades administrativas. Mostram que são, na verdade, estatistas enrustidos, entusiastas da planificação nacional, da mesma maneira que os mais ferrenhos comunistas.

De minha parte, entendo que um presidente não deve ter muitos planos de governo. Ele deve ter, sim, princípios claros. Eu, como alguém que realmente não acredita na eficiência estatal (diferente de muitos liberais que, apesar de declararem isso, ficam exigindo minúcias de planejamento dos potenciais presidentes, como se a ineficiência estatal fosse um problema de gestão e não de natureza), tenho convicção que a presidência mais eficiente é aquela que trabalhe para afastar a si mesma de qualquer administração técnica, lançando para os indivíduos e para os entes menores da federação as responsabilidades por implementar políticas públicas.

O problema é que isso parece impensável, inclusive para os analistas mais liberais que continuam acreditando que um bom candidato é aquele que apresente, em detalhes, tudo o que ele pretende impor sobre a cabeça dos cidadãos. O que eles querem, parece, é um novo Lenin, com seus planos quinquenais.

Cuidado com o vitimismo feminista

O Jair Bolsonaro precisa aprender uma lição urgente: nunca se dirigir a uma mulher, em público, em tom de reprovação, por mais razão que tenha e por mais que a respectiva mulher mereça. Falo isso não em tom de censura moral. Longe disso! Mas única e exclusivamente por razões de impacto eleitoral.

No confronto ocorrido entre ele e Marina Silva, no debate entre os presidenciáveis da Rede TV, em uma investida violenta e histérica da candidata, que o interrompeu, quando não era permitido a ela, segundo as regras do jogo, fazer isso, Bolsonaro reagiu, até com certa calma, dizendo diretamente para ela que ela não poderia interrompê-lo. Diante disso, alguns analistas interpretaram que a reação do Bolsonaro foi absolutamente normal e justa e, por isso, não haveria nada de prejudicial para ele no caso. Fizeram isso, claro, baseados apenas em um senso de justiça e em uma avaliação do que é certo e do que é errado. O problema é que as pessoas comuns – que são movidas essencialmente por impressões – não julgam dessa maneira.

O fato é que, por mais que as pessoas acreditem que suas escolhas são essencialmente racionais, muitas de suas decisões são baseadas em motivos superficiais, geralmente meras impressões que elas têm de um fato, um ato ou uma pessoa. Mesmo as mais intelectualizadas são assim. Quando falamos, então, de pessoas mais simples, menos instruídas, isso torna-se ainda mais evidente.

Agora, soma-se a isso anos de propaganda negativa sobre Bolsonaro, afirmando que ele é misógino, machista, sexista. Temos, então, a fórmula perfeita para destruir sua reputação: pessoas que julgam tudo por impressões, que foram bombardeadas ininterruptamente com informações negativas sobre o candidato, vendo ele agir de uma forma que parece confirmar aquela imagem que aprenderam a ter dele.

Junte-se a isso, ainda, o ambiente favorável ao vitimismo em que vivemos, onde tudo é motivo para escândalo. Um ambiente onde qualquer coisa que um homem diz para uma mulher, principalmente se for em tom de reprovação, já começa a ser tratado como agressão. Acabamos tendo, então, uma confluência de fatores contra Bolsonaro: superficialidade, manipulação e vitimismo.

Sabendo disso, é certo que Marina Silva – principalmente agora que ela percebeu a força de sua estratégia – vai explorar essa situação e, certamente, cada vez com mais força.

Por isso, insisto: Bolsonaro não deve mais se dirigir a ela, nem a qualquer outra mulher, em público, em tom de reprovação, por mais razão que tenha e por mais justa que seja a situação em seu favor. Se ele não quiser passar uma imagem que confirme a ideia de machista e intolerante, que as pessoas aprenderam a fazer sobre ele, não deve mais fazer isso. Reclame para a banca, fale para o público, dirija-se a Deus, mas não repreenda uma mulher diretamente.

Esta parece até uma preocupação pequena diante dos problemas e desafios que ele precisa enfrentar. No entanto, garanto que a maneira como ele agir, neste caso, pode ser crucial nesta eleição.

De qualquer forma, não custa repetir: essa precaução não tem nada a ver com o que é certo ou errado, mas apenas com estratégia política.

Uma tática malévola, mas inteligente

A insistência petista em lançar o Lula como candidato à presidência da República parece, à primeira vista, apenas a teimosia de um partido que viu todo o seu poder desmoronar nos últimos anos. As constantes petições judiciais e a ininterrupta narrativa em favor do presidiário como concorrente oficial ao cargo máximo da nação dão a impressão de tratar-se de mera insistência em algo perdido.

No entanto, quem está apenas enxergando desvario nessa tática, na verdade, não está entendendo nada do que está acontecendo.

O PT, de fato, não possui esperança de que seu líder possa oficialmente participar do pleito. O partido sabe que a decisão da justiça é irrevogável e sequer há apelo popular para a libertação do condenado. Seu objetivo é, com efeito, manter, no imaginário da população, a ideia do Lula candidato. Mais ainda, um candidato injustiçado, impossibilitado de participar plenamente da campanha por forças que não querem permitir o seu retorno. Em uma ofensiva que envolve vários meios, o que o partido quer é que o nome de Lula seja mantido o máximo de tempo possível como alguém que está disputando as eleições, a fim de que seus eleitores cativos sejam mantidos fiéis até o mais próximo possível do dia da votação.

O melhor dos mundos, para eles, seria que o rosto de seu candidato aparecesse nas urnas eletrônicas. Porém, como isso será muito difícil, a tentativa é conseguir com que o nome de Lula chegue o mais próximo possível de outubro para que, em cima da hora, o partido posso sinalizar para seus eleitores que, já que eles estão com Lula, e Lula está sendo impedido de concorrer, então que votem em seu Vice, o Fernando Hadadd.

E por que eles não fazem isso já agora? Simplesmente porque, se fosse pedida a transferência de votos neste momento, ficaria muito claro, para a população, que o candidato é Hadadd, e não Lula. E aquele não tem um centésimo do capital político deste para disputar esse pleito.

Portanto, há de se concordar que essa, apesar de malévola, é uma tática bastante inteligente e não deve ser menosprezada por seus adversários.