Apresentação do Ortodoxia, de Chesterton

Não se engane pelo nome! O Ortodoxia não é uma defesa da fé baseada em doutrinas expostas em letras frias. Nem uma apologética teológica e dogmática, combatendo heresias com citações bíblicas. Na verdade, essa obra é uma celebração da descoberta de que o sentido da vida não precisa ser buscado em divagações exóticas, nem em idéias mirabolantes, mas esteve sempre disponível, bem diante de nós.

Chesterton, com sua tinta ácida e estilo que beira o jocoso, ao mesmo tempo que destrói a pretensão intelectual daqueles que supõem pensar de maneira desapegada dos princípios, conduz o leitor para a compreensão de que, na verdade, esses princípios nunca deixaram de estar ali, mesmo para quem não os aceita ou enxerga.

Para quem acredita que a pessoa inteligente é aquela que pensa por si mesma, o polemista expõe suas falácias e equívocos de uma maneira tão avassaladora, que no final não sobra nada com que tenham de que se orgulhar.

Por outro lado, para os cristãos vacilantes, que se sentem constrangidos diante de um pensamento mundano que lhes oprime, acusando-os de retrógrados e inferiores, o Ortodoxia lhes dá uma definitiva lição: de que o que possuem é muito maior do que qualquer filosofia avulsa que exista por aí.

Ler esse livro é descobrir, a cada página, que não estamos perdidos. É verdade que, muitas vezes, sentimos que o mundo é complexo demais para ser compreendido e a vida difícil demais para ser vivida. Porém, basta olhar para trás, para aquilo que sempre esteve ali, disponível para qualquer um, e vamos ver que não é que a existência é complicada, mas nós que nos afastamos, por orgulho e rebeldia, da verdade.

Essa obra de Chesterton é a desmoralização do pensamento independente, que toma suas percepções desapegadas de princípios como fonte legítima de filosofias. O que ela mostra é que há uma sabedoria subjacente a tudo e, sem ela, toda perscrutação é vã.

Digo, mais uma vez: não se enganem, porém, pelo nome! Ortodoxia está longe de ser uma defesa doutrinária. Pelo contrário! O pensador inglês faz até um convicto louvor ao que ele chama de misticismo, que, segundo sua concepção, significa nada menos que a aceitação do mistério, como parte da sanidade da inteligência.

Ler esse livro é, enfim, uma experiência única! Para aqueles que confiam demasiadamente em seus próprios livre-pensamentos, pode ser como a exortação de um profeta, alertando-os para o perigo de sua maneira de agir; já para aqueles que, como o filho pródigo, esqueceram, por um tempo, suas raízes, despendendo suas energias na dispersão mundana, o Ortodoxia pode soar como o pai chamando, com os braços abertos, de volta para casa.

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A Nova Era e a Revolução Cultural, de Olavo de Carvalho

Há poucos dias reli o livro “A Nova Era e a Revolução Cultural”, do filósofo Olavo de Carvalho, e ao fazer isso a certeza que eu tive é de que realmente o professor está muito a frente de qualquer outro pensador neste país. O livro é de 1994, mas a análise que ele faz dos fatos, principalmente do movimento esquerdista brasileiro e sua influência na cultura e na política, é esclarecedora. Enquanto a maioria daqueles que tentam explicar o fenômeno petista, ainda hoje, se debatem em dificuldades que parecem, aos seus olhos, intransponíveis, Olavo já deixou tudo muito bem explicado em seu trabalho escrito há mais de vinte anos.

Além da explicação sobre o fenômeno da Nova Era e a aula sobre a estratégia gramsciana, que são a parte central do livro, há diversos outros argumentos que, além de atualíssimos, são a solução para o imbróglio interpretativo que os analistas políticos fazem em relação ao PT. Se eles parassem um pouquinho de apenas tentar dar palpites aleatórios e dedicassem alguns minutos para ler o trabalho do professor, muitas besteiras que repetem por aí cessariam imediatamente.

Por exemplo, sobre a classe artística e intelectual, que temos visto se manifestando em uma defesa irrestrita do PT, Olavo de Carvalho explica que “intelectuais orgânicos são aqueles que, com ou sem vinculação formal a movimentos políticos, estão conscientes de sua posição de classe e não gastam uma palavra sequer que não seja para elaborar, esclarecer e defender sua ideologia de classe“. E ainda sobre isso ele explica que “Gramsci exige que toda atividade cultural e científica se reduza à mera propaganda política, mais ou menos disfarçada“.

Sobre a loucura que temos observado no país, com a total inversão de valores, ele já dizia que ela “é, de fato, um dos objetivos prioritários da revolução gramsciana“.

Da mídia, que temos visto atuar de maneira a tentar manipular os fatos, por meio de matérias jornalísticas enviesadas, o professor escreveu que “para a revolução gramsciana vale menos um orador, um agitador notório, do que um jornalista discreto que, sem tomar posição explícita, vá delicadamente mudando o teor do noticiário…

Temos presenciado atualmente pessoas que, mesmo não fazendo parte do partido, repetem os mesmos chavões, os mesmos preconceitos e as mesmas mentiras dele. Olavo já explicou isso em seu livro ao dizer que “o gramscismo conta menos com a adesão formal de militantes do que com a propagação epidêmica de uma novo senso comum“.

Além disso, conseguimos saber que a derrocada moral que ocorreu no país na última década não é obra do acaso, afinal “o objetivo do gramscismo é muito amplo e geral em seu escopo: nada de política, nada de pregação revolucionária, apenas operar um giro de cento e oitenta graus na cosmovisão do senso comum, mudar os sentimentos morais, as reações de base e o senso das proporções“.

E há ainda algumas pérolas, como quando ele diz que “quanto menos um homem é apto a enxergar o mundo, mais assanhado fica de transformá-lo”.

Tudo isso torna o “A Nova Era e a Revolução Cultural” indispensável para qualquer um que pretenda analisar os fatos da política e da sociedade brasileiras e entender o que está acontecendo. Se fizessem isso, não cometeriam equívocos pueris, como tratar tudo apenas como um problema de corrupção e patrimonialismo, e compreenderiam que por detrás da política cotidiana, há uma verdadeira guerra cultural, com o objetivo de cativar as mentes em favor da ideologia.

Cenas da Nova Ordem Mundial, de Sergio A. A. Coutinho

Em um artigo escrito há algum tempo, indiquei o livro Fascismo de esquerda, escrito por Jonah Goldberg, como forma de entender o funcionamento, a atuação e a mentalidade das esquerdas e como elas usam os poderes políticos, econômicos e culturais para se impor e se consolidar no poder. Realmente este é um livro incrível! No entanto, sendo um escritor americano, Goldberg analisa a história americana, dissecando as táticas esquerdistas nos Estados Unidos. Ainda assim, o que ele apresenta é muito instrutivo e ajuda, mesmo o leitor que não vive a realidade daquele país, a entender como agem e pensam os marxistas, em geral.

Mas antes que o leitor brasileiro creia estar abandonado e que para entender como se deu a formação esquerdista em seu próprio país precise acessar apenas documentos esparsos ou trechos espalhados em livros diversos, é bom que ele conheça uma obra publicada pela sempre relevante Biblioteca do Exército, chamada Cenas da Nova Ordem Mundial – uma visão do mundo como ele é, escrita pelo Gen. Sérgio Augusto de Avellar Coutinho.

Sendo uma reedição atualizada do trabalho Cadernos da Liberdade, do mesmo autor, o livro, antes de tudo, pretende ser um contraponto ao conhecido Cadernos do Cárcere, de Antonio Gramsci, mostrando ao público como está se formando uma Nova Ordem Mundial, baseada no socialismo e alcançada por meio dos métodos de dominação ensinados pelo autor italiano. No entanto, o trabalho do General vai além disso e faz uma dissecação da formação da esquerda contemporânea no Brasil. Sem deixar de explicar como o comunismo nasceu e se espalhou pelo mundo, ele apresenta, com fatos e análises, também como a esquerda brasileira se tornou o que ela é, quais são seus objetivos, quais as táticas empreendidas, quais suas inspirações e como ela se consolidou no poder.

O livro todo é recheado de dados e informações que tornam essa obra uma das melhores referências sobre a história do esquerdismo no Brasil. De Prestes ao atual PT, passando pelos comunistas dos anos 40 e 50, os guerrilheiros da época da ditadura e a nova intelligentsia marxista, Coutinho consegue fazer com que o leitor tenha uma visão, ao mesmo tempo, panorâmica e detalhada, do que é a esquerda brasileira.

Apresentando assim, parece até que o livro tem como objetivo fazer um raio-x do socialismo nacional. Não, não tem! Na verdade, a obra é uma tentativa de explicar o mundo, principalmente em sua composição após a queda da União Soviética. No entanto, o autor, de maneira bastante competente e patriótica, não se eximiu de analisar como os esquerdistas brasileiros, que estão no poder desde a chamada reabertura democrática, se inserem nesse panorama global.

Para o General Coutinho, o termo Nova Ordem Mundial não tem tanto a ver com um projeto monolítico de dominação mundial por uma elite de bilionários, mas, sim, um momento novo na história geopolítica do mundo, quando, com o colapso da União Soviética, o jogo político global se tornou mais complexo do que na época da guerra fria, mantendo, porém, um dos atores ainda bem vivo e atuante, se bem que por meio de novas facetas, a saber, o movimento comunista. Diante disso, ele faz uma análise profunda das origens, desenvolvimento e implantação do socialismo no mundo e no Brasil.

E nenhuma vertente socialista escapa da observação e julgamento do escritor. Dos stalinistas mais radicais, até os socialistas fabianos, todos são investigados por ele e postos em seus devidos lugares na história. Mesmo os contemporâneos FHC, Lula, e até Roberto Freire estão no campo de observação do General. Com isso, o leitor tem acesso a uma análise muito ampla do movimento esquerdista brasileiro, o que torna o livro um dos poucos documentos onde essas informações podem ser encontradas em um único lugar, com detalhes e pareceres competentes.

O trabalho, em sua ideia original, parece ter sido concebido para expor a malignidade das ideias gramscianas, mostrando o quanto elas foram absorvidas pelas esquerdas e vêm sendo implantadas meticulosamente na sociedade. No entanto, a obra extrapola isso e acaba por fazer um apanhado bem amplo do mundo de hoje, suas perspectivas, o perigo que sofre e como ele está se tornando uma grande aldeia socialista.

Minha recomendação por essa obra se dá, principalmente, por oferecer ao leitor brasileiro uma visão bem fundamentada do movimento socialista mundial e, neste caso específico, uma compreensão de como a esquerda de nosso país se relaciona com o comunismo internacional. É verdade que há diversos aspectos não abordados pelo autor, porém, o grande mérito desse livro é aglutinar informações, que temos apenas em documentos muito esparsos, em um só lugar.

Cenas da Nova Ordem Mundial é leitura sugerida para quem quer entender como, após o fim da União Soviética, os comunistas se reagruparam, quais táticas estão implantando atualmente, como o mundo está sendo dominado por sua ideologia e qual a posição dos socialistas brasileiros nisso tudo.

Fascismo de Esquerda

Fascismo de esquerda

O livro Fascismo de Esquerda, de Jonah Goldberg, é, sem dúvida alguma, um dos mais importante trabalhos sobre política dos últimos tempos. O autor, em uma demonstração de profundo conhecimento da história americana do século XX, traz, diante dos nossos olhos, a verdadeira face do progressismo nos Estados Unidos, sem as máscaras e fantasias que ele costuma se apresentar para o público.

É notório que, no imaginário da maioria das pessoas, o fascismo é visto como um fenômeno de direita. Tanto ele como o nazismo são tidos como representantes de uma manifestação reacionária, que tem na esquerda sua antagonista. Goldberg, porém, desmonta esse mito com maestria, demonstrando, com um material farto em referências históricas, como o fascismo é um movimento que não apenas possui similaridades com os projetos de esquerda, mas foi promovido por verdadeiros personagens esquerdistas.

Não há como negar que Franklin Roosevelt tem muito mais a ver com Mussolini do que Reagan jamais poderia sonhar, nem que os projetos dos progressistas eram muito parecidos, em seus princípios e objetivos, com os dos fascistas das primeiras décadas do século passado. E, partindo desse ponto, o autor faz um trabalho de iconoclastia, colocando no chão os ídolos esquerdistas americanos, demonstrando como suas ideias estavam, e continuam a estar, lado a lado com muitas das ideias de Hitler e Mussolini.

Se alguém não acredita nisso, leia o livro e comprove. Não é possível sair dele ainda crendo que a esquerda é um movimento cheio de boas intenções e que são os conservadores o verdadeiro perigo.

Fascismo de esquerda é daqueles livros que muda a cabeça das pessoas. A minha não mudou tanto, pois a admiração que eu tinha pelos esquerdistas morrera há muitos anos. Porém, se esse livro cair nas mãos de alguém que ainda tem alguma ilusão quanto à pureza dos projetos socialistas, certamente ele causará um forte impacto em suas ideias.

Totalitarismo, ataque à liberdade, estatismo, coletivismo e tantos outros meios de impor sobre o cidadão o peso de um Estado autoritário sempre foram obras de políticos de esquerda. Foram eles que sempre diminuíram o indivíduo à mera partícula da sociedade. Assim, se o fascismo puder ser caracterizado pelo governo autoritário e pela diminuição da liberdade individual em favor de uma sociedade orgânica, comunitária e planificada, Jonah Goldberg conclui, com toda razão, que essas características sempre fizeram parte dos sonhos progressistas na América. Portanto, se há um fascismo, ele só pode vir da esquerda americana.

Introdução à Nova Ordem Mundial, de Alexandre Costa

Um livro, quando traz em seu título a palavra Introdução, isso pode tratar-se de três coisas: que é um livro superficial e o autor escolhe esse nome para não decepcionar seus leitores; que é um livro que trata o tema com profundidade, mas o autor escolhe esse nome por acreditar que seria possível aprofundar-se ainda mais, mas não o fez por falta de espaço ou tempo; ou, simplesmente, que o livro tem o intuito de ser mesmo uma introdução, ou seja, a entrada para estudos posteriores mais detalhados.

No caso do livro de Alexandre Costa, Introdução à Nova Ordem Mundial, certamente trata-se do terceiro caso. A obra é como um portal que conduz o leitor a uma gama considerável de informações relativas às diversas facetas que o mundo novo tem apresentado. Sem a pretensão de esgotar o assunto, o livro torna-se imprescindível exatamente por servir como um trabalho inaugural para quem deseja iniciar seus estudos sobre o assunto.

Se você nunca leu nada sobre o tema, aconselho: comece por este livro. No final, você terá uma visão bem ampla e bem estruturada sobre os rumos do novo mundo. Se você, porém, já leu algum outro livro sobre o assunto, leia este também, pois, apesar de ser uma obra de introdução, ela está tão bem organizada que lhe ajudará a colocar em ordem as ideias que talvez, até aqui, apenas fossem um amontoado de informações.

A influência de Olavo de Carvalho é inegável. Inclusive, Alexandre Costa não nega, em nenhum momento, a dívida que tem para com o pensamento do filósofo. Aliás, quem desta nova geração de estudiosos conservadores pode negá-la? Ainda assim, consegue ser autêntico em seu trabalho, imprimindo sua forma de enxergar os dados que colheu em, certamente, um tempo considerável de pesquisa.

O que podemos ver, portanto, é o trabalho pedagógico do filósofo sessentão já começando a produzir seus frutos. Seu aluno deixou à disposição dos leitores um bom material de pesquisa, que facilmente pode ser utilizado em palestras e seminários sobre o assunto. Introdução à Nova Ordem Mundial preenche uma lacuna nas prateleiras brasileiras. Não que a matéria já não houvesse sido tratada por outros autores, mas faltava um trabalho que pudesse ser considerado didático, realmente introdutório e, acima de tudo, abrangente.

O livro, de fato, terá um lugar especial em minha biblioteca, pois será objeto de consulta constante quando eu tiver tratando do tema Nova Ordem Mundial.

O missionário e o índio

Dentro do ambiente acadêmico brasileiro, dizer que uma sociedade é superior a outra soa arrogante. É que, hoje em dia, há uma convenção, alardeada por todas as esferas ditas intelectuais deste país, de que não há diferenças valorativas entre as culturas. Com isso, toda alusão ao progresso e às conquistas de um povo acaba recebendo o estigma de preconceituosa. Apontar os erros históricos de nações ou identificar que práticas de uma cultura são inferiores, sem valor ou até maléficas, chega a ser considerado um crime.

A universidade brasileira está tomada por essa ideia. Praticamente, não há um professor de Sociologia, Antropologia ou História que não repita essa mesma ladainha. E o aluno que ousar contestar isso, certamente, será tido por intolerante, quando não ignorante.

Para mostrar como a ideia de igualdade valorativa das culturas está fundada em falácias, trago como amostra o que escreveu, em um livreto muito acolhido nas faculdades brasileiras, chamado Etnocentrismo, o professor da PUC-Rio, Everardo Rocha.

Logo no início do livreto, o autor conta uma estória:

Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens, um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. Muito generoso, comprou para os selvagens contas, espelhos, pentes etc.; modesto, comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes, alarmes, fazer contas, marcar segundos, e até dizer a hora sempre absolutamente certa, infalível (…) Tempos depois, fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas, especialmente, do barulhento, colorido e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. Um dia, por fim, vencido por insistentes pedidos, o pastor perdeu seu relógio dando-o, meio sem jeito e a contragosto, ao jovem índio.

Na sequência, o professor fala do destino dado ao relógio pelo índio:

A surpresa maior estava, porém, por vir. Dias depois, o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe, muito feliz, seu trabalho. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia, o índio fez o pastor divisar, não sem dificuldade, um belo ornamento de pensas e contas multicolores tendo no centro o relógio.

E termina a estória, narrando o retorno do missionário para sua terra:

Passados mais alguns meses o pastor se foi de volta para casa. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios e, naquela manhã, dar uma última revisada na comunicação que iria fazer em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização (…) Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do seu escritório. Nelas, arcos, flechas, tacapes, bordunas, cocares, e até uma flauta formavam uma bela decoração.

É na sua conclusão, no entanto, que o professor Everardo Rocha, demonstra como ele pode ser considerado um modelo exato da fragilidade do pensamento universitário brasileiro. Isso porque ele simplesmente afirma que ambos os personagens fizeram, obviamente a mesma coisa. Privilegiaram ambos as funções estéticas, ornamentais, decorativas de objetos que, na cultura do “outro”, desempenhavam funções que seriam principalmente técnicas.

O que ele disse parece até correto, se não tivesse implícita uma percepção equivocada dos fatos, que ele vai deixar clara na sequência, quando afirma, sobre o índio e o pastor, que cada um “traduziu” nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do “outro”.

Seu equívoco reside, exatamente, em interpretar que o pastor, ao dar um destino decorativo para os objetos indígenas, agiu da mesma maneira e com o mesmo intuito que o índio, quando este ornamentou o relógio recebido de presente.

Ao tentar mostrar uma equivalência nos atos, tentando, assim, mostrar que as culturas simplesmente são diferentes, mas não, necessariamente, superiores ou inferiores, o autor acaba demonstrando exatamente a superioridade da cultura do missionário.

Isso porque, diferente do índio, o missionário deu um destino ornamental aos instrumentos indígenas, não por não saber para o que eles serviam, mas exatamente pelo contrário. As flechas, a flauta e o cocar nas paredes de seu escritório remetiam, para quem que os contemplasse, para a realidade da vida dos índios e para o uso adequado dado aos objetos no contexto próprio destes.

Ao contrário do que o professor Everardo disse, os personagens não fizeram a mesma coisa. O autor, ao tentar mostrar equivalência de intenções onde havia apenas similaridade exterior acaba provando exatamente o contrário do que pretendia.

Isso porque, ao pendurar em suas paredes os objetos indígenas, tendo plena consciência, obviamente, de qual era o destino dados pelos próprios índios a cada um daqueles instrumentos, o missionário demonstrou entender exatamente, não apenas a realidade de sua própria cultura, mas também a alheia. O jovem índio, por outro lado, ao ornamentar o relógio recebido do pastor e pendurado ele em uma árvore, simplesmente porque não sabia usá-lo e não compreendia qual sua utilidade na cultura do visitante, demonstrou sua ignorância quanto a tudo isso.

 O que o autor do livreto acabou provando é que a cultura do missionário é, no mínimo, mais abrangente que a do índio. Sendo assim, provou, também, se bem que sem perceber isso, que a cultura do pastor é, de alguma maneira, superior, sim, já que pode perfeitamente absorver a cultura indígena se quiser, pois tem plena consciência de como ela funciona.

Isso porque o valor de uma cultura é medido pela presença nela de elementos universais, que a possibilitem exatamente transitar por outras culturas sem perder sua própria identidade. É por isso que a cultura europeia era considerada superior à indígena latino-americana, pois podia ingressar no ambiente cultural desta sem sofrer perda de suas próprias características. Já uma cultura como a aborígene, por exemplo, por ser inferior, não sobrevive, sem perder sua essência, se for inserida em outros ambientes culturais.

O professor Everardo Rocha não ter percebido algo tão óbvio, sendo que seu trabalho é acolhido em tantas universidades brasileiras, apenas confirma a pobreza intelectual que assola nossa academia.

Rob Bell e a eternidade do Inferno

A eternidade infernal sempre será uma afronta à nossa percepção do divino. O aconchego do descanso no amor incondicional do Pai parece aviltado pela possibilidade de um castigo que é eterno. Com os instrumentos naturais, com o entendimento e sentimento apenas, acreditar que Deus permitirá que homens e mulheres sejam, sem cessar, punidos, nos parece cruel demais, mesmo em relação aos homens mais pecadores. Se alguém não sente esse incômodo, é porque está anestesiado por uma religiosidade fria, apartada da realidade.

Isso explica muito o sucesso de Rob Bell, pastor-fundador da Mars Hill Bible Church, em Grand Rapids, Michigan, nos Estados Unidos. Ao assumir uma crença universalista, tornando o Inferno, ou algo parecido, apenas uma coisa passageira, afirmando que, no fim das contas, todos serão restaurados para a comunhão divina, foi ao encontro do anseio de muitas pessoas que, mesmo sendo cristãs, não conseguem enfrentar a dureza daquela verdade revelada.

Em seu livro, “O amor vence”, o pastor Bell tenta expor sua doutrina, que, em essência, é universalista e, assim, causou certo alvoroço no meio cristão, principalmente protestante. No entanto, esse debate ocorre menos pelo tema em si, que é tão velho quanto o próprio cristianismo, mas porque o ministro americano é quase uma celebridade e, assim, o que diz, de alguma maneira, tem influência no povo cristão, não apenas daquele país, mas chegando mesmo nestas terras longínquas.

O universalismo é, resumidamente, a crença de que todos os seres inteligentes serão, em algum momento, restaurados à plena comunhão com Deus. Assim, o Inferno, se existir, não será eterno. O fundamento principal para essa crença é o amor divino. Os universalistas acreditam que se Deus é amor, não faria sentido permitir que os homens, que em sua totalidade são objetos desse amor, sofressem infinitamente as penas infernais.

Na história da Igreja, houve pensadores universalistas, muitos deles bem conceituados, como Clemente de Alexandria e Orígenes. Entre os modernos, é conhecido o universalismo de R. N. Champlin, erudito protestante que, em seus escritos, tem servido de apoio para muitos estudantes de Teologia.

Todo esse debate, porém, não está centralizado na questão geral do universalismo, já que este não é um assunto passível de discussões por incautos e incultos. O que acaba se tornando objeto de opiniões é o consequente entendimento sobre o Inferno que a ideia universalista lega para os estudiosos, estudantes e leitores da Bíblia.

Se haverá uma restauração derradeira de todas pessoas, o Inferno, logicamente, não é eterno. Se ele existe, no máximo, servirá como um período de emenda. No fim, desaparecerá, por simples inutilidade e esvaziamento, o que o torna muito parecido com um Purgatório, na verdade.

Rob Bell crê nisso, apesar de não deixar claro se o Inferno é um lugar, um estado ou um momento. E quando se depara com as palavras de Cristo, que afirma que irão alguns pecadores “para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna”, o pastor simplesmente afirma que Jesus não está falando de um castigo “para sempre”. Ora, se castigo eterno não significa para sempre, significa o quê, então? Por mais que o pastor faça um malabarismo para explicar o significado da palavra grega aion, no que ele não está essencialmente errado, já que um de seus significados seria mesmo “era”, a palavra usada no livro de Mateus, aionios, é um adjetivo que é, mais usualmente, entendido como algo sem começo, sem fim, ou sem começo e fim, ou seja, eterno. Portanto, é muito difícil interpretar de outra maneira as palavras de Jesus.

A questão principal e mais trivial, no entanto, é que o Inferno, como nos é revelado, existe, como algo sem fim, portador de penas sem fim. Ainda que compreendê-lo dessa forma seja uma afronta à percepção natural, assim é que nos está ensinado pelos Evangelhos. E é exatamente esse incômodo e essa agressão ao natural que o torna tão convincente. Sendo o extremo negativo da existência, o afastamento completo do Criador, sua realidade coloca o homem presente no intermédio entre duas pontas que o direcionam decididamente. Seria ingênuo acreditar que os seres humanos, apenas por sua intuição, raciocínio e sensibilidade naturais, fossem capazes de compreender a realidade da bondade divina e por Deus decidir. O inferno e o céu são realidades que revelam os extremos da existência, que por suas características principais – o afastamento ou a comunhão plena com Deus, têm também a função de fazer o ser humano decidir pela segunda. Sem o entendimento desses dois extremos, restaria ao homem a confusão de sua própria realidade presente, difusa, dicotômica, incerta e vacilante. Neste caso, o certo e o errado, o bem e o mal e a verdade e a mentira estariam misturados a ponto de não se diferenciarem.

Quando o pastor americano afirma, categoricamente, sobre a não eternidade do Inferno, ele está indo um pouco além do que está revelado. Mais importante, porém, de saber se ele tem razão ou não, é entender que afastar a ideia do castigo eterno do imaginário das pessoas é lançá-las na confusão de suas próprias existências dúbias. Se assim o Inferno foi revelado é porque é assim que ele deve ser entendido. O que Deus fará depois, isso é apenas problema Dele.