Por que celebrar o Natal

Sempre ouvi, de pessoas que passam por momentos tristes em suas vidas, ou de outras que acreditam não haver muita felicidade nelas, ou simplesmente de quem diz não ver muito sentido nessa data, que preferem não “comemorar” o Natal.

Como querendo afastar-se de qualquer tipo de celebração, crendo que essa data só é válida se for passada como um festejo, essas pessoas escolhem ignorá-la, ou, no máximo, minimizá-la, transformando-a quase em uma data comum.

São esses que dizem que o Natal é besteira, que é um dia sem importância e que falam que apenas se reúnem nesse dia por causa das crianças ou por pressão dos familiares.

O que eu respondo para gente que pensa assim é que o Natal não é bem um festejo, nem mesmo uma comemoração.

Na verdade, o Natal tem duas características essenciais: é um memorial, ou seja, uma lembrança, mais ou menos ritualística, de um fato específico – no caso, o nascimento de Cristo; além disso, o Natal é também uma tradição, ou seja, algo que se faz, por séculos, no Ocidente e que, de alguma maneira, mantém viva sua história e personalidade.

Ninguém precisa estar feliz para celebrar o Natal, nem mesmo achar que essa deve ser uma data para encontrar-se alegre. Não é preciso beber muito, nem comer muito, nem encontrar-se com os amigos e familiares para se divertir.

O mais importante do Natal é manter viva nossas raízes, lembrando-se, a cada ano, de que foi o nascimento de um homem que permitiu e forneceu-nos os elementos para que fôssemos o que somos – como indivíduos e como povos.

Ignorar o Natal é quase como virar as costas para a própria herança e querer viver neste mundo como um ser isolado.

Celebre o Natal, sim! Do seu jeito, conforme seu estado de espírito. Só não deixe passar em branco uma data tão importante para você e para todos nós que nos orgulhamos de sermos civilizados.

Discriminação dos paladinos

Toda exaltação do indivíduo, por alguma conquista sua, quando feita com indicação da raça ou gênero dele, sugere, subliminarmente, que pertencer àquela raça ou gênero significa, de alguma maneira, inferioridade ou, pelo menos, que a conquista não é esperada para alguém do seu tipo.

Se a pessoa diz que “fulano, negro, passou em primeiro lugar no concurso público” ou “sicrana, mulher, foi promovida à diretora da empresa”, está, ainda que inconscientemente, aplicando à frase um advérbio oculto, que modifica a expressão, assinalando que tal fato representa, de alguma forma, uma quebra de expectativa. Seria o mesmo que dizer “fulano, apesar de negro…” ou “sicrana, mesmo sendo mulher…”.

Pode até haver boa intenção em querer destacar a raça ou o gênero de alguém, tentando demonstrar que a conquista de certa pessoa se deve também à superação pelas dificuldades impostas pela discriminação. 

No entanto, a discriminação só é superada realmente quando as vítimas deixam de ser tratadas como tais. O que eu quero dizer é que enquanto negros, mulheres e outros grupos são tratados como exceção à regra e suas conquistas como um acontecimento anormal, então saber-se-á que a segregação continua.

Aliás, é nesse sentido que deve ser entendida a fala do ator americano, Morgan Freeman, que, em uma entrevista ao programa 60 Minutes, foi enfático ao dizer que a melhor maneira de combater qualquer tipo de racismo é, simplesmente, não falando dele.

Apesar de ser esta uma fala que vai de encontro a uma percepção inicial sobre o que seria o combate à discriminação, o que ele diz faz muito sentido. Não falar, não quer dizer ignorar eventuais atos discriminatórios, mas demonstrar que realmente as raças e os gêneros não são relevantes.

Obviamente, isso não quer dizer que deve-se fechar os olhos para os reais atos discriminatórios. Eles existem e devem ser combatidos. Porém, quando não são mais os indivíduos, vítimas de discriminações específicas, mas o grupo a ser protegido, todos os indivíduos pertencentes a este grupo estão, imediata e invariavelmente, declarados como inferiores, independentemente de seus méritos pessoais. Além disso, quando tudo é discriminação e todos são vítimas, nada mais é discriminação e ninguém mais é vítima.

Há, porém, de chegar o dia quando as pessoas serão lembradas por seus méritos e sua cor de pele esquecida. Serão louvadas por suas vitórias, sem que seu gênero seja tido por relevante.

Eleição das impressões

Em geral, pessoas comuns não são profundas. Poucas são aquelas que, de fato, refletem para além da mera superficialidade. Isso fica muito claro quando observa-se os debates políticos que se proliferam nessas épocas de eleições. Nestes dias, por toda parte, lê-se e ouve-se conclusões que são grandes edifícios construídos sobre palitos de dentes.

Isso não seria nenhuma excrescência se fosse um fenômeno restrito às pessoas comuns. No entanto, quando nos deparamos com as opiniões de boa parte dos analistas políticos, cientistas, jornalistas, pensadores e, inclusive, dos próprios políticos, constatamos que a opinião superficial deixou de ser a voz das massas, mas passou a ser o coro em uníssono de praticamente todo mundo, inclusive daqueles que dizem fazer parte da elite pensante.

O fato é que estamos viciados em impressões e essa é a origem da superficialidade reinante. Esse vício é a fonte de nossa pobreza cognitiva e, por isso, combato-o na primeira aula de meus cursos sobre leitura e pensamento. Isso porque tenho plena consciência que, enquanto não se supera essa mania por julgar tudo superficialmente, nenhum pensamento que se construa tem algum valor.

O que se constata nessas eleições é exatamente isso: todos os ataques, todas as críticas, todas as opiniões são fruto não de qualquer proposta concreta ou reação a essas propostas, mas simplesmente das sensações provocadas pelo superficialismo reinante. O excesso de adjetivos é a prova disso – homofóbico, racista, sexista, fascista não são, nem de longe, descrições da realidade, mas apenas xingamentos reflexos de sentimentos despertados. E quando isso acontece, tudo é possível, como chamar de nazista um defensor de Israel ou de fascista quem quer permitir o armamento da população.

Da psicopatia à normalidade

Em qualquer país minimamente civilizado, o atentado sofrido por Jair Bolsonaro seria motivo de consternação em todas suas esferas. Em qualquer sociedade minimamente desenvolvida, a facada recebida pelo candidato seria a causa de reflexão profunda em toda a nação.

No entanto, vivemos no Brasil e aqui, em boa parte de seu povo, o que prevalece é o cinismo, a indiferença, o ódio e o completo desprezo à vida humana.

Parece que as dezenas de milhares de vítimas da violência brasileira estão dessensibilizando as pessoas em relação às vidas que são desperdiçadas diariamente em nossas ruas, a ponto de quando um homem sexagenário sofre uma tentativa de assassinato tão cruel isso acaba não significando muita coisa. Como na Guerra, onde as mortes já não causam mais nenhum efeito, aqui também está se perdendo a noção de como a vida humana realmente importa.

Falo isso porque o que eu vi, nesses dias pós-atentado, foi estarrecedor: jovens duvidando da veracidade do ocorrido, comediantes tripudiando do agredido, jornalistas minimizando a seriedade do fato e militantes até lamentando a imperícia do assassino. No entanto, de tudo, o que mais me incomodou foi ver a imensidão de gente comum, que sabidamente não tem nenhum vínculo político nem ideológico, tratando o atentado como algo trivial, indiferente, quase sem importância. O candidato que está a frente de todas as pesquisas de intenções de voto para presidência da República foi quase morto na rua e as pessoas tratam isso como se fosse tudo como um lance de uma partida de futebol, algo sem maiores consequências.

Quando, em meu artigo “Uma cultura psicopática”, me questionei se não estaríamos vivendo em uma sociedade psicopática, que cultiva a falta de empatia e a falta de sensibilidade, tinha em vista situações como esta que estou presenciando: de pessoas agindo, diante de um fato de extrema seriedade, como algo absolutamente trivial, senão desprezível. Logo nós, brasileiros, que nos gabávamos de ser calorosos e sensíveis, e até um tanto passionais, agora estamos nos mostrando frios, quase indiferentes ao que está ocorrendo. E não estou dizendo nem de uma consternação pessoal em relação ao agredido, mas da percepção óbvia da seriedade do fato e do momento no qual estamos vivendo.

Lembram-se daquela cena mostrando árabes comemorando o atentado do World Trade Center? Algo muito semelhante está ocorrendo aqui e agora. São hordas de jovens, principalmente, tratando todo o terror do fato ocorrido como fraude, mentira ou algo sem nenhuma importância. Quando não – e não foram poucos -, muitos deles até comemorando o atentado, dizendo que o candidato mereceu a facada.

Não se engane, porém. Tudo isso – a violência e o desprezo à vida – foi inculcado por uma ideologia esquerdista doentia, que se impregnou na mentalidade brasileira, e que nunca prezou pela valorização do ser humano. As valas, os paredões, os campos de concentração, o impulso ao banditismo, a violência e os atentados estão longe de ser acidentes na história socialista. Portanto, neste país onde essa ideologia infiltrou-se amplamente, a forma como muitas pessoas reagiram ao atentado sofrido por Jair Bolsonaro não é uma anormalidade, mas a consequência óbvia de décadas de modelação do pensamento de um povo segundo uma ideologia assassina.

No entanto – bom não se enganar com isso! – a solução para essa situação não virá de um plano de governo específico ou da aplicação de uma ideologia contrária. Pelo contrário, o único movimento salvador, que pode trazer racionalidade à nossa sociedade, é aquele que promova um retorno à vida baseada nos valores universais e eternos que sempre sustentaram a existência das pessoas comuns. Na verdade, o Brasil só precisa voltar a ser um país normal, sadio. Não há nada mais que devemos aspirar.

Pode até ser que as grandes ideias e os grandes líderes sejam os responsáveis por movimentar a história da sociedade, mas são as tradições e os valores comuns e naturais que sempre a sustentaram. Portanto, se quisermos resgatar as pessoas a sua normalidade devemos torcer para que a ideologia morra, de uma vez por todas.

Histeria coletiva e a contaminação do mensageiro

A maior prova da histeria coletiva brasileira é a necessidade obsessiva de ver-se com um povo pacífico, até pacato. Mesmo com a realidade esbofeteando sua cara, mostrando diariamente que vivemos em um dos países mais violentos do mundo, tentamos nos convencer de que a nossa característica marcante é a paz.

Então, quando surgem casos como o atentado contra a vida de um candidato à presidente da República, que, diante das nossas circunstâncias violentas, seria algo até bastante óbvio, há uma enormidade de pessoas querendo tratar isso como uma excrescência, como um ato isolado.

E quando esse mesmo candidato apresenta um discurso forte de ataque à violência existente, em vez dessas pessoas concordarem com ele e afirmarem que, realmente, há muita violência por aqui e ela precisa ser contida – e não se contém violência senão com força -, preferem acusar de violento o autor da proposta, não os criminosos que ele combate.

De certa maneira, isso é explicável, pois Jair Bolsonaro acaba agindo como o portador da má noticia de que nosso país é um lugar selvagem e precisa receber um remédio amargo para conter toda essa selvageria. E “a natureza da má notícia contagia o mensageiro. Existe uma tendência humana natural a desgostar de uma pessoa que traz informações desagradáveis, ainda que ela não tenha causado a má notícia. A simples associação basta para estimular nossa aversão” (Robert Cialdini – As armas da persuasão).

Por isso, para uma parcela da população, Bolsonaro acaba sendo mau simplesmente porque ele fala sobre coisas más. E nisso encontra-se a desculpa perfeita para o histérico: encontrar algo isolado e realmente inofensivo onde possa lançar seus medos. Para essa gente histérica, é mais aceitável dizer que Bolsonaro é perigoso do que dizer que perigoso mesmo é sair na rua segurando um celular, onde pode ser morta por um deliquente. O perigo em relação ao Bolsonaro é falso, mas suportável; já o delinquente que pode lhe abordar a qualquer momento é bastante real, mas insuportável.

É verdade que toda essa tentativa de diminuir a seriedade do atentado, por todos os meios retóricos possíveis, tem muito de canalhice, mas só ecoa porque há muita gente histérica pronta para agarrar a primeira explicação que afaste a verdade feia demais de que estamos vivendo em um país cercado pela criminalidade, pela barbárie e pelos piores sentimentos.

Descaso geral

Todos estão usando a tragédia do Museu Nacional que, em um incêndio, foi completamente destruído, para fazer seus discursos políticos. Sacam desavergonhadamente seus megafones para vociferar sua repentina indignação, despertada pela ardência do fogo, em cima do cadáver. 

No entanto, enquanto o moribundo gemia, corroído pelas traças do esquecimento que, pouco a pouco, o condenavam, quase nada ouvimos falar dele e de suas enfermidades. Nem mesmo de seus méritos e virtudes. 

Portanto, o descaso não é apenas governamental; é da sociedade mesmo. Se o Estado não valoriza a cultura e o conhecimento é porque o povo despreza-os em proporções ainda maiores.

Escândalo alimentado

Estamos vivendo um momento quando tudo o que se diga pode ser interpretado como uma agressão a um grupo qualquer. Às vezes, até as manifestações mais inocentes são tachadas de discurso de ódio por alguém que, por algum motivo, tenha se sentido ofendido pelas palavras proferidas. Até alusões indiretas ou que apenas remetem de forma distante a um grupo étnico, uma religião, uma ideologia, um gênero, uma opção sexual ou qualquer outro grupo que possa ser representado na infinitude da diversidade humana, se tornam motivo de reclamação.

O que esses protetores da sensibilidade não percebem é que sempre que um grupo sente-se humilhado por uma declaração qualquer, imediatamente está declarando sua própria inferioridade. Isso porque só os fracos sentem-se afetados pelo que se diz deles. Apenas quem é subjugado, portanto inferior, acredita que deve levantar a voz em defesa de si mesmo. Os superiores não precisam disso. Quem sabe que não está abaixo de ninguém não tem a sensibilidade aguçada em relação ao que se fala sobre ele.

Mas os escandalizados se multiplicam. A cada dia surge uma categoria de vítimas da sociedade que enxergam nas palavras alheias algum tipo de violência que lhes afeta. Chegamos ao ponto, portanto, que manifestar-se tornou-se muito perigoso, pois quase sempre o que se diz conterá algum tipo de conteúdo escandaloso para alguém.

No entanto, não é por acaso que isso acontece. Quando uma pessoa fica escandalizada está demonstrando automaticamente seu senso de inferioridade. E quem se sente inferiorizado alimenta, ainda que inconscientemente, uma necessidade de vingança. Portanto, alguém que é estimulado a enxergar agressão em qualquer coisa que se diga em referência a ele está, na verdade, sendo levado ao ressentimento.

A lógica é bem óbvia: estimula-se o escândalo, que leva a um senso de inferioridade, que conduz ao ressentimento e que alimenta o desejo de vingança. Temos, então, delineada a forma como os poderosos mantém sob o cabresto os diversos grupos da sociedade.

Assim, esses grupos, ao mesmo tempo que pensam estar em uma luta por sua liberdade e se vêem como os paladinos da justiça social, estão simplesmente servindo de massa de manobra de quem usa seus ressentimentos – muitas vezes forjados – para controlá-los.

Portanto, se você é dessas pessoas que se sentem ameaçadas e humilhadas por qualquer manifestação que escutam por aí, em referência ao grupos do qual faz parte, repense seus conceitos e observe se não está sendo um mero joguete nas mãos de pessoas que sabem muito bem como lhe controlar.

Deixe de ser frágil! – é o que eu gostaria de lhe dizer.

Se alguém manifestar algo estúpido sobre você ou sobre o grupo ao qual você pertence, em vez de escandalizar-se, aprenda que muitas pessoas são mesmo estúpidas e que não merecem nada mais do que o seu desprezo. Por isso, não humilhe-se, escandalizando-se. Nestes casos, o escândalo é um elogio imerecido.

Do trivial ao escândalo

Era o horário de meu almoço e eu estava no restaurante, na fila para pegar minha comida, quando, no televisor acima de minha cabeça, passava o jornal de notícias da Rede Globo, bem no momento em que eles mostravam o General Hamilton Mourão, candidato à vice-presidência de Jair Bolsonaro, citando um lugar-comum conhecido da mentalidade brasileira: de que somos herdeiros dos defeitos ibéricos, indígenas e africanos, ao mesmo tempo.

Neste momento, uma senhora, que devia estar na faixa dos sessenta anos de idade, sentada a uma das mesas, já comendo sua refeição, olhou-me, com um olhar aterrorizado, como buscando em mim um cúmplice de sua revolta. Eu, obviamente, quando percebi seu intento, desviei meu olhar, para que a conversa – que sei bem onde iria parar – nem começasse. Ainda assim, pude ouvi-la dizendo, com uma voz indignada, a palavra “absurdo”.

Interessante tal reação – a qual, de maneira semelhante, pôde ser percebida em diversos setores da sociedade – pois, ainda que não se concorde com o que o general disse, seu discurso não se encaixa exatamente naqueles que podem ser considerados, imediatamente, como absurdos. Ainda que seja uma tese bem contestável, não é tão estranha a ideia de que os problemas de nosso povo se devem, em grande parte, ao tríade legado deixado pelas culturas que lhe serviram de formação.

O que mais me surpreendeu, ainda, foi ver que mesmo intelectuais de direita têm se manifestado pela absurdidade da declaração, transformando algo que é, no máximo, contestável, em imediatamente condenável. No melhor estilo dos tempos atuais, escandalizam-se com o que nem é para tanto.

Tal reação, com efeito, evidencia dois problemas: primeiro, mostra o quanto a mídia é capaz de forjar o imaginário da população. Como neste caso, transformando uma declaração – que, até algum tempo atrás, era considerada trivial – em algo quase criminoso. O segundo problema acontece na própria ciência (principalmente, nas ciências humanas, mas contaminando também outras áreas): que é a proibição expressa de discutir-se determinados temas, apenas por serem considerados inconvenientes ou sensíveis a certos grupos. Assim, cada vez mais assuntos vão sendo jogados para debaixo do tapete, cristalizando suas conclusões, não com base naquilo que a própria ciência alcançou, mas apenas pelos ditames do politicamente correto.

Sinceramente, eu não saberia dizer, com certeza, se as declarações do general estão completamente equivocadas. Tenho a convicção de que nossa sociedade possui qualidades e defeitos desenvolvidos dentro de nossa própria trajetória peculiar, mas que também alguns deles são fruto de nossas heranças culturais. É bem provável que a afirmação do senhor Mourão seja uma síntese simplista de toda a questão. Porém, tratar isso como algo indubitavelmente indecoroso é uma resposta exagerada, senão histérica.

A droga do vitimismo

O vitimismo tem se tornado a droga do nosso tempo. Isso porque as pessoas têm se agarrado a ele como viciados que não podem viver sem experimentar seu poder anestésico e sedutor.

Como todo droga, ser vítima faz a pessoa se sentir viva porque, pela mentalidade dominante, quem não é vítima é como se não tivesse uma história, como se sua existência fosse inútil. Quem não tem uma história, não tem vida. Assim colocar-se como vítima permite que a pessoa sinta-se, de alguma maneira, especial, reconhecida pelos outros e parte de seu mundo.

Isso é viciante, sem dúvida. Afinal, em um mundo onde parece que somos cada vez mais desprezíveis e irrelevantes, encontrar algo que nos faça especiais é irresistível.

O vitimismo também, como toda droga, cria seus grupos sociais. Assim, ele separa aqueles que são reconhecidos como legítimos representantes de seu círculo – os oprimidos – dos párias que, não raramente, são colocados na posição de opressores e automaticamente vistos como inimigos a ser combatidos.

O vitimismo, portanto, tornou-se a droga aceita e estimulada dos nossos dias. Por isso, quem quer ser bem visto, aceito e até louvado logo busca algo que lhe coloque na posição de vítima. Assim, sabe que terá seu lugar reservado junto à hipocrisia de seus pares.

Capitalismo e cristianismo

Cristãos, se forem coerentes com os escritos e tradição de sua religião, não têm como não experimentar um certo mal-estar ao ser favoráveis ao capitalismo e à busca pela prosperidade. Eu mesmo, no que parece uma bipolaridade intelectual, escrevo constantemente em defesa da riqueza e do capital, enquanto teço críticas à postura de quem dirige sua vida em favor das coisas materiais, perdendo contato com o que é superior. Tal atitude, eu tenho consciência disso, deve causar algum tipo de confusão em quem acompanha meus pensamentos.

O fato é que não há como negar que o cristianismo possui um histórico de, no mínimo, imposição de sérias restrições ao lucro, aos juros, ao acúmulo e à busca pela riqueza, que são o cerne do sistema capitalista. Textos bíblicos, como o que afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” e outro que diz: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus”, além da conhecida tradição católica de condenação ao lucro e aos juros, deixam em uma situação constrangedora qualquer cristão que tente manter-se fiel à sua religião e permanecer favorável ao capitalismo.

Diante desse verdadeiro dilema, muitos não sabem se defendem abertamente o capitalismo, com o risco de não serem tidos como cristãos verdadeiros ou se mantêm a tradição cristã, sob pena de serem vistos como anticapitalistas ou mesmo esquerdistas.

No entanto, toda essa questão, vista desse maneira dualista, está muito mal colocada e necessita ser melhor compreendida, a fim de solucionar essa aparente contradição.

O fato é que não há nenhuma contradição entre o sistema capitalista, com todo seu impulso à riqueza e o cristianismo. Isso porque não há contradição entre a aplicação universal de um valor, um sistema ou uma ideia e, ao mesmo tempo, a condenação do abuso individual em relação a essa mesma ideia.

Por exemplo: todos somos favoráveis à liberdade, como um valor geral. Defendemos que as pessoas devem ser livres e ninguém deve estar sujeito a nada e a ninguém, senão por sua própria decisão. No entanto, ao mesmo tempo, condenamos aqueles que abusam de sua liberdade, que a usam para sua própria degradação e seu próprio mal.

Da mesma maneira, podemos defender o sistema capitalista, com seu fomento à busca pela riqueza, por meio do lucro, do acúmulo e dos juros e, ao mesmo tempo, condenar aqueles que usam desses meios de maneira desordenada, a ponto de perder-se em uma vida preocupada apenas com o dinheiro, com o luxo e com o que é relativo à matéria. Isso porque a defesa do capitalismo diz respeito a algo que é geral, como a liberdade, que mesmo mostrando-se benéfico como regra de aplicação universal, pode corromper o indivíduo que dele faz uso de maneira desmedida e desarrazoada.

Portanto, um cristão favorável ao capitalismo não precisa sentir-se constrangido de condenar o materialismo desmesurado que muitas pessoas praticam, buscando apenas os bens deste mundo e desprezando o que é espiritual. A pregação permanece a mesma: sempre que a atitude do ser humano privilegiar o material em detrimento do espiritual, o cristianismo a denunciará.

No entanto, essa pregação é unicamente moral e tem como alvo o indivíduo. Nunca será uma proposta de sociedade e jamais se tornará uma condenação ao sistema. É apenas um alerta para que a pessoa, em sua individualidade, oriente-se de uma maneira melhor diante de Deus.