Como combater o politicamente correto

Em um ambiente de normalidade, pessoas normais mantêm um certa polidez no falar, evitando o escândalo desnecessário e moderando suas palavras.

Porém, quando ocorre uma inversão tal na cultura, que o que deveria ser mera urbanidade torna-se uma ditadura, que impõe o que deve e o que não deve ser dito e, pior, protege as piores indecências enquanto condena meras verdades, a afabilidade acaba servindo apenas para fortalecer essa tirania.

Em tempos quando o politicamente correto impõe-se ferozmente, praguejando contra toda e qualquer manifestação que não coadune com seus estreitos limites falso-moralistas, é o momento de abrir mão da civilidade e dizer as coisas da maneira mais crua possível.

Fazer isso não é apenas uma forma de tentar expressar as coisas como são, mas tem o objetivo de enfrentar a falsidade contrária com uma força condizente.

A raiz do mal se combate com o bem, mas quando o mal já está manifestado, só o uso de uma força equivalente pode derrotá-lo.

Ditadura dos virtuosos

O mundo moderno está cheio de boas intenções, de pessoas que acreditam que podem mudá-lo para melhor. E como quem não faz o bem que está ao seu alcance erra, assumem como uma missão a tarefa de transformar a sociedade.

Mas não teria sentido tentarem promover tais mudanças sem eles mesmos serem portadores das qualidades necessárias para tanto. Quando alguém se dispõe a ser um agente de transformação, isso já pressupõe que ele mesmo carrega as virtudes que podem colaborar com ela. Os novos missionários, portanto, se veem como virtuosos.

E se a virtude está com eles, impo-las sobre todo o restante do mundo é quase uma obrigação. Por isso, não vacilam ao exigir que todas as pessoas sigam suas determinações.

Nesta empreitada, deparam-se com os resistentes, que, na perspectiva dos apóstolos do novo mundo, são maus, afinal, opõem-se ao que é virtuoso, ao bem, à utopia. Quem se acha bom tem por mau quem entende por bem bens que contrariam os seus.

No entanto, as virtudes que esses pregadores creem possuir não passam de conceitos abstratos, de slogans bonitos, de meras palavras que não possuem aplicação imediata no mundo visível. É fato que uma virtude só pode ser entendida quando diante de uma realidade concreta, de circunstâncias reais. Quando apenas no campo das ideias, uma virtude não passa de um motivo, de uma intenção. Mas eles não entendem isso. Não percebem que a absolutização de qualquer bem anula esse mesmo bem. Não pensam, por exemplo, como a oferta de liberdade absoluta é uma ameaça à liberdade de cada um e como a proposta de tolerância absoluta é o caminho que exigirá a tolerância com a intolerância alheia.

Como diz Jonah Goldberg, os virtuosos da modernidade acreditam “que não existem escolhas difíceis“. Eles pensam que as ideias bastam por si mesmas e aplicá-las na sociedade é apenas uma questão de boa vontade. Não aceitam que podem haver conflitos e que, nem sempre, as virtudes podem ser exigidas sem que se observe as circunstâncias específicas de cada caso.

O que há, então, é uma infinidade de apóstolos de meros conceitos abstratos, assanhados por aplicar esses direitos indiscriminadamente sobre todo mundo e prontos para expurgar da sociedade aqueles que se opõem de alguma maneira a essa sua missão. Não pensam nas consequências da aceitação indiscriminada do que exigem, mantendo-se intransigentes em relação aos que se recusam a aceitar isso bovinamente.

O resultado disso é a criação de uma ditadura de opinião que, progressivamente, vai se tornando uma ditadura de fato. Uma ditadura que não condena com base em atos concretos, em fatos reais, mas pela simples convicção de que aqueles que se colocam contrários às suas bandeiras estão errados.

E os que não concordam com essas ideias totalitárias são as pessoas que possuem algum senso de realidade, que têm consciência de que a vida concreta é complexa e de que as virtudes existem, mas dependem de interpretação de acordo com os fatos onde estão sendo aplicadas. São também aqueles que entendem que é impossível impor todas as virtudes, ao mesmo tempo, sobre todos. Em suma, as vítimas da ditadura do novo mundo são as pessoas realistas, que aceitam as circunstâncias da vida, que entendem as nuances do cotidiano e que, por isso, são se colocam na posição de transformadoras, nem de justiceiras sociais.

Ademais, se opor a um totalitarismo físico é uma coisa: as injustiças e os desmandos são evidentes e facilmente determináveis. Quem vê um governo lançando tanques sobre jovens sentados pacificamente em uma praça sabe que aquilo é um ato indubitavelmente tirânico. Porém, se opor à ditadura das ideias abstratas é um exercício bastante frustrante, pois, independentemente da oposição que se exerça, sempre parecerá uma oposição às virtudes mesmas e, portanto, sempre uma oposição equivocada. Ser contra os novos revolucionários parece ser, automaticamente, contra o bem, contra a tolerância, contra a liberdade, pelo preconceito, pela discriminação. Dizer, simplesmente, que nem tudo deve ser respeitado soa como uma defesa do desrespeito absoluto; falar que nem tudo deve ser tolerado, parece uma defesa absoluta da intolerância. Contra isso, não há o que fazer. Se opor à virtuosidade destes novos tempos, ainda que apenas em parte, torna a pessoa imediatamente má e passível de punição.

Por isso, a ditadura moderna é tão cruel.

O imigrante e a nova cultura

O imigrante que não se deixa absorver pela cultura do país no qual vive é um ingrato. Sua postura é incoerente com seu status e sua atitude é uma agressão contra quem o acolheu.

O país que recebe um imigrante é aquele que lhe deu a oportunidade de seguir sua vida – oportunidade que, provavelmente, não teve em sua terra natal. Alguém apenas se muda para outro lugar porque este lugar lhe oferece algo que ele não encontrou onde vivia. Não considerar tudo isso é arrogância, ou como diz Cervantes, “a ingratidão é filha da soberba”.

São as regras do país que acolhe o imigrante que o protegem. Se o imigrante pôde estabelecer-se ali é porque o sistema legal existente permite isso. Por isso que levantar-se contra a ordem da nação é a maior afronta que o imigrante pode fazer contra quem abriu seus braços para recebê-lo.

Até porque é exatamente o sistema jurídico-econômico da nação o fator que proporcionou as circunstâncias que permitiram ao imigrante encontrar o ambiente propício para dar andamento a sua vida. Ir contra esse sistema é, além de ingratidão, um tremendo contrassenso.

E que não se argumente que há as diferenças culturais e elas devem ser mantidas. Tais diferenças são óbvias, porque se todos os países defendessem os mesmos valores e possuíssem formas de pensar idênticas, provavelmente as oportunidades oferecidas por eles seriam semelhantes, o que tornaria a imigração quase desnecessária. Um país que valoriza o trabalho, por exemplo, provavelmente gerará mais empregos que um que cultua suas belezas naturais ou o bem estar de seu povo. Assim, quando o imigrante se muda para o novo país é porque a cultura do local para onde se dirige preenche uma lacuna de necessidade, exatamente por possuir elementos que certamente faltam em sua cultura natal. Assim, ele tem obrigação moral de honrar essa cultura nova, pois foi ela que saciou seus anseios e supriu aquilo que lhe faltava. Se sua cultura original for mantida intacta, se não houver nenhuma tentativa de absorção no novo ambiente, haverá um conflito que, invariavelmente, acabará em perturbação.

A verdade é que a assimilação do imigrante assemelha-se, guardadas as devidas proporções, a uma adoção. É sob a égide da nova casa que o estrangeiro irá educar-se e desenvolver-se. É sob a proteção da nação acolhedora que ele poderá dar andamento aos seus planos e realizar seus sonhos. Portanto, de seu lado deve haver o verdadeiro respeito de um filho, que reconhece as autoridades de seus pais, que segue as regras da casa deles e os defende de toda a acusação leviana que possa vir de fora.

 

Ódio ao burguês

O discurso socialista apenas teve recepção nos corações e mentes de uma infinidade de gente porque já havia neles uma boa dose de ressentimento em relação às pessoas pertencentes às classes mais altas. É possível identificar isso desde o século XVIII, mas esse sentimento tornou-se mais evidente a partir do século XIX. 

O interessante é que apesar de haver uma certa inveja em relação à aristocracia, eram os chamados burgueses aqueles que mais causavam irritação. Isso porque o burguês, segundo a concepção marxista, não era necessariamente alguém que possuía uma condição de vida mais favorável por conta de hereditariedade ou tradição, mas por ter se beneficiado, de alguma maneira, das conquistas do mundo industrializado. O burguês, em essência, não era diferente do trabalhador ordinário, mas era comum que, por causa de suas condições materiais mais favoráveis, começasse a assumir ares afetados e emulasse modos aristocráticos. Isto era absolutamente irritante para o homem do povo, que via no burguês apenas um sortudo arrogante, de mau gosto e hipócrita. 

O ser humano é assim: pode conviver muito bem com o fato de que existam pessoas superiores a ele, desde que não tenham a mesma origem que a dele. O proletário não tem tanta inveja do aristocrata ou do nobre, que possui seu status por hereditariedade, do que do dono de fábrica que conquistou sua posição começando como trabalhador como ele. O sucesso de um igual é o espelho do próprio fracasso. E os movimentos socialistas sempre foram formados, em grande parte, por gente desse tipo: invejosos e fracassados.

Confio mais em mim que no Estado

Eu não confio nas instituições estatais. Sei que é impossível prescindir totalmente delas, mas prefiro, sempre que está ao meu alcance, tentar resolver minhas questões por mim mesmo. Eu sei que, como advogado, é estranho que eu faça tal afirmação. No entanto, é exatamente minha experiência de fórum que fortaleceu essa convicção. Principalmente, em situações envolvendo questões morais e ofensas, não consigo deixar de lembrar do caso Oscar Wilde, que, ao mover a máquina judiciária para defender-se de difamações e injúrias praticadas pelo pai de seu amante, acabou, em uma inversão processual, ele mesmo preso por dois anos, condenado por atos imorais e homossexualidade. Este foi o fim de sua trágica e errante vida, sendo que poderia ter usado seu talento literário, em vez do arbítrio de um funcionário público, para reaver aquilo que considerava sua honra aviltada. Quando eu vejo, por exemplo, o Jair Bolsonaro vacilante em tomar alguma atitude contra seus detratores, ainda que isso seja um provável erro estratégico, consigo compreender sua hesitação. É que se não for para impingir uma fragorosa derrota ao adversário, para que valem tais ações? Mas como ter certeza que a justiça será plenamente satisfeita, quando os julgadores variam tremendamente em suas visões de mundo e até ideologias? Mover um processo e perder é pior que não mover. Veja o caso do Jean Willys e seu cuspe. Acabou ele saindo fortalecido da história. Por isso, prefiro, sempre que me é possível, resolver minhas querelas por mim mesmo, deixando para o Estado apenas aquilo que não consigo obter com minhas próprias forças.