A droga do vitimismo

O vitimismo tem se tornado a droga do nosso tempo. Isso porque as pessoas têm se agarrado a ele como viciados que não podem viver sem experimentar seu poder anestésico e sedutor.

Como todo droga, ser vítima faz a pessoa se sentir viva porque, pela mentalidade dominante, quem não é vítima é como se não tivesse uma história, como se sua existência fosse inútil. Quem não tem uma história, não tem vida. Assim colocar-se como vítima permite que a pessoa sinta-se, de alguma maneira, especial, reconhecida pelos outros e parte de seu mundo.

Isso é viciante, sem dúvida. Afinal, em um mundo onde parece que somos cada vez mais desprezíveis e irrelevantes, encontrar algo que nos faça especiais é irresistível.

O vitimismo também, como toda droga, cria seus grupos sociais. Assim, ele separa aqueles que são reconhecidos como legítimos representantes de seu círculo – os oprimidos – dos párias que, não raramente, são colocados na posição de opressores e automaticamente vistos como inimigos a ser combatidos.

O vitimismo, portanto, tornou-se a droga aceita e estimulada dos nossos dias. Por isso, quem quer ser bem visto, aceito e até louvado logo busca algo que lhe coloque na posição de vítima. Assim, sabe que terá seu lugar reservado junto à hipocrisia de seus pares.

Capitalismo e cristianismo

Cristãos, se forem coerentes com os escritos e tradição de sua religião, não têm como não experimentar um certo mal-estar ao ser favoráveis ao capitalismo e à busca pela prosperidade. Eu mesmo, no que parece uma bipolaridade intelectual, escrevo constantemente em defesa da riqueza e do capital, enquanto teço críticas à postura de quem dirige sua vida em favor das coisas materiais, perdendo contato com o que é superior. Tal atitude, eu tenho consciência disso, deve causar algum tipo de confusão em quem acompanha meus pensamentos.

O fato é que não há como negar que o cristianismo possui um histórico de, no mínimo, imposição de sérias restrições ao lucro, aos juros, ao acúmulo e à busca pela riqueza, que são o cerne do sistema capitalista. Textos bíblicos, como o que afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” e outro que diz: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus”, além da conhecida tradição católica de condenação ao lucro e aos juros, deixam em uma situação constrangedora qualquer cristão que tente manter-se fiel à sua religião e permanecer favorável ao capitalismo.

Diante desse verdadeiro dilema, muitos não sabem se defendem abertamente o capitalismo, com o risco de não serem tidos como cristãos verdadeiros ou se mantêm a tradição cristã, sob pena de serem vistos como anticapitalistas ou mesmo esquerdistas.

No entanto, toda essa questão, vista desse maneira dualista, está muito mal colocada e necessita ser melhor compreendida, a fim de solucionar essa aparente contradição.

O fato é que não há nenhuma contradição entre o sistema capitalista, com todo seu impulso à riqueza e o cristianismo. Isso porque não há contradição entre a aplicação universal de um valor, um sistema ou uma ideia e, ao mesmo tempo, a condenação do abuso individual em relação a essa mesma ideia.

Por exemplo: todos somos favoráveis à liberdade, como um valor geral. Defendemos que as pessoas devem ser livres e ninguém deve estar sujeito a nada e a ninguém, senão por sua própria decisão. No entanto, ao mesmo tempo, condenamos aqueles que abusam de sua liberdade, que a usam para sua própria degradação e seu próprio mal.

Da mesma maneira, podemos defender o sistema capitalista, com seu fomento à busca pela riqueza, por meio do lucro, do acúmulo e dos juros e, ao mesmo tempo, condenar aqueles que usam desses meios de maneira desordenada, a ponto de perder-se em uma vida preocupada apenas com o dinheiro, com o luxo e com o que é relativo à matéria. Isso porque a defesa do capitalismo diz respeito a algo que é geral, como a liberdade, que mesmo mostrando-se benéfico como regra de aplicação universal, pode corromper o indivíduo que dele faz uso de maneira desmedida e desarrazoada.

Portanto, um cristão favorável ao capitalismo não precisa sentir-se constrangido de condenar o materialismo desmesurado que muitas pessoas praticam, buscando apenas os bens deste mundo e desprezando o que é espiritual. A pregação permanece a mesma: sempre que a atitude do ser humano privilegiar o material em detrimento do espiritual, o cristianismo a denunciará.

No entanto, essa pregação é unicamente moral e tem como alvo o indivíduo. Nunca será uma proposta de sociedade e jamais se tornará uma condenação ao sistema. É apenas um alerta para que a pessoa, em sua individualidade, oriente-se de uma maneira melhor diante de Deus.

Cientistas iconoclastas e o conservadorismo da ciência

Cientistas de mentalidade revolucionária, ansiosos por destruir os pilares da sociedade, são, além de desconhecedores dos princípios de sua própria atividade, altamente contraditórios.

Isso porque o fundamento de toda e qualquer ciência é absolutamente conservador. Por mais que isso soe quase como um insulto às pretensões aniquiladoras dos cientistas e fira seus espíritos iconoclastas, a atividade científica só se torna profícua quando exercida de maneira respeitosa ao que já existe.

O que é a prática científica senão a pressuposição de que há uma estabilidade no mundo que permite com que o cientista repita suas experiências diversas e diversas vezes, muitas delas por um longo período tempo, a fim de comprovar ou ver refutada sua tese? Afinal, se o mundo não oferecesse essa estabilidade, toda experiência seria nova e não se poderia fazer referência às anteriores, pois faltaria aquele elemento de continuidade que permite com que o cientista considere o que foi colhido como válido para suas conclusões atuais.

Além disso, é da prática científica o respeito pelas conquistas das experiências realizadas, considerando-as válidas e tomando-as como base para as experiências atuais e futuras. Não há vivência científica sem isso. E esta é a exata essência de um pensamento conservador, o qual prefere viver sustentado por aquilo que já foi conquistado.

Portanto, quando me deparo com um cientista de pensamento revolucionário, que tem como sua principal motivação o desejo de ver destruídas as conquistas de seus pares, com aquela ânsia por oferecer novidades, como se o papel principal da ciência não fosse, em vez disso, trabalhar sobre o que já existe, ocorrem-me sérias dúvidas sobre sua capacidade técnica, sua inteligência e, inclusive, sua honestidade.

Um desafio aos revolucionários

É muito fácil criticar a civilização com a bunda sentada sobre as conquistas que essa mesma civilização proporciona. É cômodo colocar-se como um opositor do capitalismo, manifestando-se pelos meios super eficientes que o capitalismo criou para isso.

O pior é que quem se coloca como crítico sempre aparece como se estivesse em uma posição superior, como um juiz do mundo moderno, assumindo uma postura de quem possui as soluções para os problemas que insiste em apontar.

E, cinicamente, se manifesta, aproveitando de todas as benesses que a sociedade oferece, com todo seu luxo, seu conforto e seus instrumentos.

Por outro lado, quem se mostra satisfeito com o que existe acaba sendo tachado de inimigo da humanidade, como alguém insensível, elitista e retrógrado

Porém, é certo que não cabe a quem defende a ordem social existente, ou seja, os conservadores, o ônus de provar que ela é boa.

O fato é que todos nós vivemos sob essa ordem e, bem ou mal, é ela que tem nos sustentado. É nela que nos manifestamos, nela que progredimos, nela que construímos nossa vida. E nada disso seria possível se ela não nos oferecesse nenhum recurso que nos possibilitasse tudo isso.

Por isso, antes de tecer críticas à civilização na qual vivemos, é preciso reconhecer que ela nos tem permitido viver. Antes de achar que tudo deve ser colocado abaixo, é preciso identificar o muito que deu certo e está à nossa disposição.

Portanto, se alguém deseja substituir a civilização existente, antes de tudo, precisa mostrar, com argumentos racionais e elementos palpáveis, e não com quimeras, as razões por que ela não serve e como tudo poderia ser melhor. No entanto, isso, essas mentes revolucionárias jamais conseguem fazer.

Extremamente covardes

Por detrás de quase todos os críticos do extremismo residem extremos covardes, que temem se comprometer com algo e querem ter sempre à disposição a possibilidade de escapar.

Ao atacarem o que chamam de extremismo, na verdade, estão criticando a convicção. Isso porque não suportam pessoas que sabem no que acreditam e defendem isso até o fim. Para os frouxos facilmente escandalizáveis, toda demonstração de certeza é uma agressão.

Até porque nem sempre a moderação é uma virtude. A moderação da verdade, do bem, da justiça, por exemplo, não pode ser tida como um objetivo a ser perseguido.

O extremismo que deve ser criticado é apenas aquele alcançado sem reflexão, sem prova, sem razão. O extremo, em si mesmo, não é errado, mas estar nele de maneira leviana e obtusa.

Se porém uma convicção é atingida após ter sido devidamente provada, que mal há em permanecer ali de maneira extrema?

Por isso, eu nunca me pergunto se alguém está sendo radical, extremista ou coisa do gênero. Minha única indagação é: o que ele defende é certo?

Tradição e instinto

É comum ver gente inteligente criticando a forma como assimilamos as tradições, tentando dar a entender que, ao fazermos isso, estamos agindo sem pensar, apenas repetindo padrões já determinados. Há até um vídeo, bastante conhecido, que mostra uns macaquinhos agindo dessa maneira. Acreditam assim que estão levando seus ouvintes a defender a razão.

Não entendem, porém, que a razão humana não é algo que existe sem uma causa e que ela é também parte de um desenvolvimento e, nesse prisma, só existe como fruto das tradições e dos costumes. Sem eles, com efeito, seríamos apenas instinto e, consequentemente, não haveria razão alguma para defender.

Por isso, quando alguém, ao criticar o conhecimento herdado, pensa estar reivindicando liberdade, na verdade está promovendo o exato oposto dela: o cárcere da irracionalidade.

Concorrência na falsidade

As grandes corporações de mídia não estão incomodadas com a profusão de notícias falsas, por causa da essência enganadora que estas possuem. O que as está incomodando é sua perda do monopólio de mentir descaradamente e manipular à vontade seus leitores.

As pequenas mídias mentirosas fizeram, sem querer, um grande serviço. Trouxeram à tona a forma mentirosa como quase toda a imprensa trabalha.

O leitor, que antes acreditava em tudo o que a grande mídia dizia agora não acredita em mais ninguém. Além disso, passou a desconfiar inclusive daquela que antes era tida por fonte fidedigna de informações, mas que está cada dia mais claro que não passa de porta-voz dos interesses de seus patrões.

Idiotices juvenis

Quando eu era menino, tinha minhas ideias esdrúxulas sobre sociedade e politica. Acreditava que daquela mente fértil poderiam sair soluções definitivas para o mundo. Porém, eu possuía uma vantagem em relação aos jovens de agora: aquelas propostas não ousavam, nem podiam, sair do âmbito de minha própria cabeça, quiçá de algum caderninho jamais lido por ninguém além de mim mesmo. Isto foi muito bom para mim e para o mundo. Permanecemos ambos seguros da aplicação de tanta estupidez. Hoje, de forma diferente, qualquer moleque escreve suas idiotices nas redes sociais e todo o mundo pode ler. O pior é que, algumas vezes, são até levados a sério.