Tolerância com os doentes

Com aquilo que esperamos demais, tendemos a ser mais exigentes. Quando aguardamos muito de algo, a chance de nos frustrar aumenta consideravelmente. Sobre aquilo que acreditamos ser superior, criamos as maiores expectativas.

Além disso, costumamos confundir as pessoas com as instituições das quais elas fazem parte, lançando sobre aquelas toda a esperança que depositamos nestas.

Nisto, portanto, estão postas as condições para as constantes decepções com os grupos humanos. Essa é a razão para o quase inevitável desapontamento, inclusive, com a Igreja. Ao esperar que os membros sejam o reflexo exato da superioridade e virtude da comunidade, lança-se sobre eles as qualidades que não lhes pertence pessoalmente.

O fato é que, no caso da Igreja, as pessoas que dela fazem parte não representam uma elite em nenhum sentido. Não são superiores, como indivíduos, nem moral, nem intelectual, nem espiritualmente. São, sim, apenas agraciados que aceitaram o dom divino e, de alguma maneira, estão esforçando-se para manter-se sob ele. Não há virtude na mera recepção de um presente e aqueles que fazem parte da Igreja possuem o único “mérito” de aceitá-lo.

A Igreja não é formada por santos, mas por pecadores. Quando Cristo afirma que veio para os doentes, não significa que aqueles que o aceitassem estariam imediatamente curados (se assim fosse, não pecariam mais), mas que seriam iniciados em um processo de cura. Isso quer dizer que, mesmo sob a graça divina, permanecem, de alguma maneira, enfermos, se bem que em convalescença.

A compreensão dessa realidade nos torna, obviamente, mais tolerantes com os erros cometidos pelos fiéis. Quando entendemos que a Igreja está menos para uma confraria de iluminados e mais para uma casa de recuperação, nos tornamos mais tolerantes e compreensivos. Em um asilo, podemos até achar que algumas atitudes cometidas ali são insanas, o que não podemos é nos surpreender com isso.

Um olhar tolerante, porém, não significa corroboração às imbecilidades com as quais periodicamente nos deparamos. Representa apenas a compreensão de que a realidade é mesmo assim. Mais ainda: de que nós não somos os médicos, mas os pacientes.

 

Publicado originalmente no Teologosofia

A impossibilidade da unidade transcendente das religiões

Frithjof Schuon, ao propor a existência de uma unidade transcendente das religiões, faz isso baseado em sua convicção de que “uma religião é forçosamente uma forma (…) por seu modo de expressão”.

Considerando que “uma forma, por definição, não pode ser única e exclusiva“, isso daria margem ao entendimento da possibilidade de uma verdade religiosa universal, que seria una em seu mais profundo sentido, apesar de múltipla em sua manifestação externa.

O que, porém, me parece que Schuon deixa de lado é o fato de que uma religião não pode ser definida apenas por sua forma, mas possui fatos históricos que são a base e o fundamento de sua expressão exterior e posterior.

Com isso eu quero dizer que me parece impossível que as religiões possuam algum tipo de unidade quando seus fatos fundadores não são compatíveis entre si, por vezes até contrapondo-se.

Por exemplo, se a morte de Cristo pretende ser um fato expiatório, possibilitando, por meio dele, a salvação de todos aqueles que o aceitarem, como conciliar isso com a expectativa maometana que sequer considera a existência desse fato, menos ainda dos efeitos pretendidos por este?

É verdade que Schuon vai explicar isso dizendo que os fatos, que seriam a Revelação das religiões, possuem um alcance limitado, conforme as circunstâncias e localidade, mas seriam eficazes naquele ambiente específico, apesar de representarem apenas símbolos em um sentido universal. No entanto, dizer isso é o mesmo que negar a validade desses fatos, pois se um fato é apenas um símbolo que, em vez de conduzir ao sentido real mais profundo, apresenta-se como sua negação, inclusive reivindicando a interpretação absoluta de si mesmo, então ele não pode ser considerado verdadeiro, nem mesmo de maneira limitada. O símbolo, para ser válido, não pode negar seu sentido mais profundo, ainda que não o revele com claridade.

Considerando isso, é preciso lembrar que não pode haver unidade onde não há compatibilidade, e esta, para existir conforme a pretensão dos esotéricos, precisa ignorar os fatos históricos, tratando-os, se não como inexistentes, ao menos como irrelevantes em seus efeitos espirituais pretendidos e menores diante das chamadas verdades metafísicas, transcendentes e superiores pregadas pelos iluminados.

Para aceitar-se uma unidade transcendente das religiões, portanto, é preciso mutilá-las, tornando os fatos que lhes dão sentido meros símbolos, com alcance limitado e completamente irrelevantes diante da profundidade da verdade esotérica.

A unidade transcendente das religiões, na verdade, me parece apenas mais uma doutrina competindo na infinidade de doutrinas que já existem por aí. E apesar de parecer unir os credos, o que faz é rejeitá-los, talvez, no máximo, tolerá-los, mas, de fato, torná-los inúteis ante um sentido que apresenta-se como mais profundo que todos eles.

 

Publicado originalmente em Teologosofia

Religiosos anti-religiosos

Hoje, é impossível usar a palavra “religião” sem que boa parte das pessoas, mesmo as ditas cristãs, não torçam o nariz, como se estivessem diante de algo corrompido, de algo inferior. A inversão da mentalidade fez com que aquilo que, em todos os tempos, fora visto como sinônimo de piedade, verdade e espiritualidade, agora trouxesse à mente das pessoas apenas a ideia de hipocrisia e falsidade. A revolta venceu e mesmo os crentes se consideram anti-religiosos. Quando foi que essa mudança efetivamente ocorreu?

Razões para escolher uma religião

Já vi gente escolher uma religião pelos mais diversos motivos: por se sentir bem, por encontrar paz, por alcançar bênçãos, por ser curado, por prosperar, porque ela é a base de uma cultura, porque ela forjou determinada civilização, porque ela é moralmente superior, porque ela cria homens fortes e até por que ela é mais poética.

O que eu menos vejo, porém, são pessoas procurando uma religião, perguntando-se: ela é a verdade?

Equilíbrio pela intensificação dos extremos

A sabedoria milenar exaltou o equilíbrio como uma virtude. O meio-termo foi tido como o ideal ético. E o caminho para ele foi entendido, muitas vezes, como o simples abandono dos extremos. O equilíbrio deveria ser achado pela atenuação das paixões. Tanto que os estóicos chegaram a tentar suprimi-las por completo nessa busca, assim como alguns dos primeiros cristãos também.

Graficamente, considerando amor (A), ódio (O) e equilíbrio (E), seria assim:

O >>>>> E <<<<< A

Chesterton, porém, em seu livro Ortodoxia, interpretando o ensinamento cristão, nos oferece uma outra visão dessa realidade. Sem negar a virtude do equilíbrio, ele entende que este deve ser achado não pela atenuação dos extremos, mas, pelo contrário, por sua intensificação, conforme o seguinte gráfico:

O <<<<< E >>>>> A

É a tensão entre a força exercida pelos extremos que gera o equilíbrio.

O que o pensador inglês queria dizer era que o cristianismo ensina a amarmos intensamente e odiarmos intensamente e isso dará como resultado a vida perfeita, equilibrada e moral. O fato é que não há atenuação possível no amor pelo que deve ser amado, nem no ódio pelo que deve ser odiado. Tudo é intenso, total, verdadeiro.

Em tempos de relativismo, esta é uma mensagem desconcertante.