O hábito de repetir as leituras

As pessoas costumam ler, mesmo os bons livros, apenas uma vez na vida. Agem assim porque entendem que uma leitura é suficiente para absorver o que o livro tem para oferecer. A consequência, no entanto, é que acabam desperdiçando muito do que o livro pode dar.

isso porque somos pessoas muito diferentes nas diversas fases que passamos nesta vida e se, nessas diferentes fases, repetíssemos as leituras que fizemos nas anteriores, teríamos perspectivas bem diversas daquelas que tivemos antes.

A cada período de nossa vida temos conhecimentos novos que se acumulam, experiências que se sucedem e, para aqueles que têm um impulso filosófico, reflexões e insights que periodicamente se apresentam. Sendo assim, seria mesmo impossível interpretar as mesmas leituras da mesma maneira sempre. É outra cabeça que está pensando sobre o livro, são ouros olhos que o veem.

É por isso que a Bíblia e os grandes livros devem ser lidos de novo, de tempos em tempos. Afinal, nunca é o mesmo homem que os lê.

 

Motivação intelectual

Para mim, vida intelectual tem pouco a ver com aquela postura austera, séria e respeitável que inunda o imaginário de boa parte das pessoas.

Quando estou lendo um livro ou quando faço alguma pesquisa, o que eu busco é aquele sentimento que expressa-se por aquele “Puta merda! Isso é incrível!“, em vez daquela não-reação ou impassividade tão comuns aos eruditos.

Eu, como estudioso ou outro nome que se queira dar, me reconheço mais em uma atitude típica de um garoto do Vale do Silício dos anos 70, cheio de ideias, louco por descobrir coisas novas e com projetos infinitos, do que de um enfadonho scholar preso às burocracias e exigências da Academia.

Se em meus estudos e trabalhos eu não tivesse esse tipo de motivação, pouca coisa conseguiria fazer. Se em meus estudos e trabalhos eu não tivesse esse tipo de motivação, pouca coisa conseguiria fazer.

 

A explicação forçada dos cientistas

Algo que me soa bastante irritante é a insistência dos novos cientistas de interpretar todo comportamento humano com base em uma suposta evolução. Observam algo que as pessoas fazem hoje e dizem que isso é fruto de um processo adaptativo iniciado nos primórdios. Li, por exemplo, que somos invejosos porque nos tempos das cavernas isso era uma forma de sobreviver ao ver que o caçador vizinho havia conseguido um pedaço de carne maior. Como é possível saber isso, senão por um exercício de imaginação? E, convenhamos, esta não é uma atitude nada científica.

Não quero negar que haja algum processo de adaptação. Não tenho os dados para isso, como ninguém tem para confirmá-lo. No entanto, essa explicação “ex post facto” me parece mais uma forma de forçar uma explicação convincente, ainda que ela não esteja disponível. É fruto desse problema que as pessoas têm de aceitarem que há coisas que, ainda que temporariamente, não podem ser entendidas.

Rebuscamento afetado

A mente confusa, principalmente quando seu portador possui algum tipo de cultura literária, torna-se uma fonte inesgotável de palavras grandiloquentes, porém sem nexo. A pomposidade da expressão acaba por servir de película protetora sobre a falta de consistência daquilo que se está tentando dizer. De maneira paradoxal, é exatamente esse rebuscamento afetado que torna tudo tão inacessível e, ao mesmo tempo, misterioso, como se fosse algum tipo de sabedoria esotérica, fazendo com que seus autores sejam cultuados como representantes de uma inteligência superior. E essa prática vai se retroalimentando, de tal forma, criando uma elite de estúpidos orgulhosos, que se torna cada vez mais difícil encontrar as possíveis pérolas que possam existir em meio a tanto esterco publicado. No fim das contas, a intelectualidade acadêmica acaba servindo apenas para esconder o que pode haver de verdadeiro conhecimento dentro das universidades e no mundo científico, prestando-se ao papel exatamente contrário para o que existe. Seria muito melhor se fossem mais humildes e seguissem o conselho de Mark Twain: “Se você não tem nada a dizer, não diga nada“.

O intelectual e o mundo

Se a vida intelectual não proporcionar algum tipo de isolamento é sinal que não é tão intelectual assim, afinal, alguém que se preocupe com temas que a maioria das pessoas sequer têm ideia que existem não pode pretender gozar de uma vida social plena. É impossível evitar que o esforço para compreender assuntos que, aos olhos comuns, aparentam ser absolutamente inúteis e gastar tempo com conhecimentos que não produzem nada palpável, seja visto como algo prosaico e seu sujeito tratado como normal.

Carregar livros, em uma sociedade que aprendeu que o valor de cada coisa mede-se por sua utilidade tangível, pode até merecer algum destaque, até mesmo um elogio não efusivo, mas não impede que o vejam como um excêntrico que joga fora o melhor desta vida por algumas letras em papel. E se o intelectual tem a ousadia de compartilhar aquilo que aprendeu com seus mestres mortos, começa a abusar do direito à excentricidade permitida pelos comuns. Uma coisa é gostar de enfadar-se com as besteiras publicadas, outra é achar que tem o direito de incomodar os mortais com isso.

É impossível, portanto, impedir que haja um certo afastamento do intelectual em relação ao restante da sociedade. Se as pessoas que o cercam não demonstram nem um pouco de interesse por aquilo que lhe apraz e lhe dá sentido, esperar que haja perfeita harmonia entre ambos é de uma inocência incrível.

E apesar da inevitável tensão que existe entre o intelectual e o mundo que o cerca, cabe a ele, assumindo a posição que seu status lhe oferece, fazer algo que o aproxime da humanidade, ainda que ela não esteja tão excitada por tê-lo por perto. Afinal, se é ele quem tem acesso às grandes idéias, à sabedoria que os grandes homens compartilharam e se é ele que se dispõe a compreender a realidade, então cabe também a ele agir de maneira superior ao homem comum. E por mais que a reação das pessoas ante ao seu interesse pelas coisas da inteligência seja, por vezes, até hostil, é obrigação de quem se dispôs a viver além do trivial mostrar que suas leituras não são em vão.

Não que o intelectual deva ceder às superficialidades, nem abandonar seus interesses em favor de um mundanismo vazio, que apenas agrada quem dele se alimenta. No entanto, se seu esforço pela compreensão da vida não lhe propiciar uma capacidade de aproximação mesmo junto aqueles que não entendem seu papel, então tanto estudo não serve para muita coisa.