Considerar-se morto

Na contramão dos conselhos motivacionais, que dizem que é preciso dar valor à própria vida e agarrá-la com todas as forças, como se fosse o bem mais precioso que alguém pode possuir, eu afirmo que, se quisermos viver em paz e com abundância, devemos fazer exatamente o contrário.

Tudo aquilo a que nos apegamos, tememos afastarmo-nos; o que valorizamos em demasia, receamos perder; o que temos como muito importante, inquieta-nos ser atingido. E isso tudo torna-nos frágeis na medida em que ficamos com medo de arriscar o que consideramos nossos bens; tememos expô-los. Por isso, apegar-se a vida transforma-nos em covardes.

Lembrei de uma cena da minissérie Band of Brothers, que mostra dois paraquedistas americanos que haviam acabado de descer na Normandia, no fatídico Dia D. Um deles paralisado em um buraco, sem coragem para deixá-lo e enfrentar os inimigos, recebe, ocasionalmente, a visita de outro soldado, o qual estava em pleno combate, desafiando as hostes adversárias viril e audaciosamente. Então, o soldado covarde lhe pergunta: “Como você consegue? Você não tem medo de morrer?”. E o que ele ouve explica tudo: “É que quando eu desci aqui já me considerei morto”.

Da mesma maneira que aquele bravo soldado, quem pretende viver de maneira abundante, completa, sem perder tempo com os medos que paralisam e impedem de conquistar as coisas, precisa também considerar que já morreu.

Considerar-se morto, no caso, significa ter consciência de que o que o que nos rodeia não nos pertence e de que, a morte, é iminente e inapelável; é aceitar que tudo isso aqui é passageiro e pode terminar a qualquer momento; é saber que, como um soldado na batalha, um tiro pode acabar com tudo.

Quando se tem esse entendimento tudo aquilo que parecia importante diminui e o que fica é a consciência de que não vale muito a pena proteger-se demais, resguardar-demais, evitar as circunstâncias. Se já morri, não tenho o que salvaguardar.

Ao considerar-se morto, surge então um guerreiro. Ao viver como se nada fosse uma verdadeira perda, nada mais é uma ameaça e o que passa a prevalecer é a ousadia.

Por isso, quem quiser viver precisa antes morrer.

3 respostas a “Considerar-se morto”

  1. Seja como for: agindo em nome próprio ou de Deus, vivendo por um objetivo ou por uma missão dada pela divindade, apegar-se à vida é a pior escolha. O próprio Cristo disse que quem quisesse salvar a própria vida iria perdê-la.

  2. Sempre considero válidos os pensamentos que navegam contra a “unanimidade”. Numa dimensão de se tentar atingir um objetivo, isso é interessante. Mas a pergunta que faço é em nome do que devo arriscar a minha vida – quando se é um soldado se é uma peça de uma engrenagem. Se acreditamos que possuímos uma alma ou algo parecido, e se essa mesma tem uma missão aqui na terra, estarei eu cumprindo com essa missão e com quem a designou? Qual seria a missão transcendente de cada um de nós?

  3. Excelentes posts, muito esclarecedores, sobre temas que deveriam norteae condutas de onipotência, desconhecendo ou ignorando a finitude da vida.

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