Ditadura dos virtuosos

O mundo moderno está cheio de boas intenções, de pessoas que acreditam que podem mudá-lo para melhor. E como quem não faz o bem que está ao seu alcance erra, assumem como uma missão a tarefa de transformar a sociedade.

Mas não teria sentido tentarem promover tais mudanças sem eles mesmos serem portadores das qualidades necessárias para tanto. Quando alguém se dispõe a ser um agente de transformação, isso já pressupõe que ele mesmo carrega as virtudes que podem colaborar com ela. Os novos missionários, portanto, se veem como virtuosos.

E se a virtude está com eles, impo-las sobre todo o restante do mundo é quase uma obrigação. Por isso, não vacilam ao exigir que todas as pessoas sigam suas determinações.

Nesta empreitada, deparam-se com os resistentes, que, na perspectiva dos apóstolos do novo mundo, são maus, afinal, opõem-se ao que é virtuoso, ao bem, à utopia. Quem se acha bom tem por mau quem entende por bem bens que contrariam os seus.

No entanto, as virtudes que esses pregadores creem possuir não passam de conceitos abstratos, de slogans bonitos, de meras palavras que não possuem aplicação imediata no mundo visível. É fato que uma virtude só pode ser entendida quando diante de uma realidade concreta, de circunstâncias reais. Quando apenas no campo das ideias, uma virtude não passa de um motivo, de uma intenção. Mas eles não entendem isso. Não percebem que a absolutização de qualquer bem anula esse mesmo bem. Não pensam, por exemplo, como a oferta de liberdade absoluta é uma ameaça à liberdade de cada um e como a proposta de tolerância absoluta é o caminho que exigirá a tolerância com a intolerância alheia.

Como diz Jonah Goldberg, os virtuosos da modernidade acreditam “que não existem escolhas difíceis“. Eles pensam que as ideias bastam por si mesmas e aplicá-las na sociedade é apenas uma questão de boa vontade. Não aceitam que podem haver conflitos e que, nem sempre, as virtudes podem ser exigidas sem que se observe as circunstâncias específicas de cada caso.

O que há, então, é uma infinidade de apóstolos de meros conceitos abstratos, assanhados por aplicar esses direitos indiscriminadamente sobre todo mundo e prontos para expurgar da sociedade aqueles que se opõem de alguma maneira a essa sua missão. Não pensam nas consequências da aceitação indiscriminada do que exigem, mantendo-se intransigentes em relação aos que se recusam a aceitar isso bovinamente.

O resultado disso é a criação de uma ditadura de opinião que, progressivamente, vai se tornando uma ditadura de fato. Uma ditadura que não condena com base em atos concretos, em fatos reais, mas pela simples convicção de que aqueles que se colocam contrários às suas bandeiras estão errados.

E os que não concordam com essas ideias totalitárias são as pessoas que possuem algum senso de realidade, que têm consciência de que a vida concreta é complexa e de que as virtudes existem, mas dependem de interpretação de acordo com os fatos onde estão sendo aplicadas. São também aqueles que entendem que é impossível impor todas as virtudes, ao mesmo tempo, sobre todos. Em suma, as vítimas da ditadura do novo mundo são as pessoas realistas, que aceitam as circunstâncias da vida, que entendem as nuances do cotidiano e que, por isso, são se colocam na posição de transformadoras, nem de justiceiras sociais.

Ademais, se opor a um totalitarismo físico é uma coisa: as injustiças e os desmandos são evidentes e facilmente determináveis. Quem vê um governo lançando tanques sobre jovens sentados pacificamente em uma praça sabe que aquilo é um ato indubitavelmente tirânico. Porém, se opor à ditadura das ideias abstratas é um exercício bastante frustrante, pois, independentemente da oposição que se exerça, sempre parecerá uma oposição às virtudes mesmas e, portanto, sempre uma oposição equivocada. Ser contra os novos revolucionários parece ser, automaticamente, contra o bem, contra a tolerância, contra a liberdade, pelo preconceito, pela discriminação. Dizer, simplesmente, que nem tudo deve ser respeitado soa como uma defesa do desrespeito absoluto; falar que nem tudo deve ser tolerado, parece uma defesa absoluta da intolerância. Contra isso, não há o que fazer. Se opor à virtuosidade destes novos tempos, ainda que apenas em parte, torna a pessoa imediatamente má e passível de punição.

Por isso, a ditadura moderna é tão cruel.

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2 pensamentos em “Ditadura dos virtuosos

  1. René Descartes, um dos homens mais inteligentes da História, escreveu, em uma de suas obras: “…o bom senso é uma das coisas mais bem distribuídas da humanidade, de tal sorte que, mesmo aqueles que são mais difíceis de se contentar com qualquer outra coisa, não desejam tê-lo mais do que o têm!!!” Assim é a humanidade e, entendendo essa assertiva, procuramos nos corrigir e nos aperfeiçoar como seres humanos, na certeza de que o caminho será longo, árduo e cheio de novas descobertas e novas verdades!” O pensamento se adequa às suas indagações!

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