Editores da nação

A verdade está disponível a todos, porém, nunca toda a verdade. O que sabemos pode ser certo, mas certamente não envolve tudo sobre o que sabemos. Somos como as bacantes de Penteu, que na ânsia de tomá-lo por inteiro, destroçaram-no, ficando, cada uma, com um pedaço de seu corpo.

Podemos, sim, possuir a verdade, mas nunca integralmente. Isso porque a verdade é múltipla, cheia de nuances, tomada de detalhes e aberta a ser vista por perspectivas diferentes. Duas pessoas, se corretas sobre um mesmo objeto, jamais entrarão em conflito. Porém, é possível que o vejam por perspectivas diferentes. Mais ainda, pode ser que a perspectiva de uma seja incompreensível para a outra, porque o conhecimento, mesmo correto, é inevitavelmente parcial, havendo nele sempre aspectos não abarcados.

Ainda assim, há pessoas que confundem o conhecimento que possuem sobre alguma coisa com todo o conhecimento existente sobre ela. É dessa maneira que surgem os censores da sociedade – ditadores que pensam ser os guardiões da verdade, que têm o dever de impedir que a mentira se alastre. Como manifestou-se um ministro da suprema corte brasileira, acreditando ser, junto a seus pares, um tipo de editor da nação, formando com eles um verdadeiro Ministério da Verdade, nos moldes daquele imaginado por George Orwell, em seu 1984.

No entanto, um juiz, mesmo de um tribunal, jamais é o guardião da verdade. Ele é um guardião das leis. Porém, as leis são uma artificialidade, um simulacro da verdade. Leis são convenções sobre determinadas coisas, sobre delimitadas coisas. Um juiz guarda apenas essas coisas, no limite daquilo que está escrito somente. Determinar o que é verdade e o que é mentira, o que é certo e o que é errado, está muito além das atribuições de qualquer magistrado.

O pior é ver esses censuradores dizendo que fazem isso em defesa da democracia. Quando os militares aplicaram a censura (se bem que porcamente), assumiram o caráter ditatorial de seu governo; assumiam que havia uma verdade na qual eles se afiliavam e que estavam determinados a calar quem pensasse de maneira diferente, principalmente de maneira contrária a deles. Era uma confissão de que se tratava de um governo de exceção. No entanto, agora, aqueles que defendem aplicar a censura às vozes discordantes são hipócritas, pois dizem fazer isso em favor da liberdade. Nesse ponto, os militares eram bem mais honestos.

É preciso entender que a defesa da liberdade de expressão é o reconhecimento de que ninguém está apto a determinar se algo é uma completa mentira. Assim, é uma maneira de evitar injustiças. Por esse motivo, jamais devemos aceitar que alguém atue como o censor da sociedade, mesmo que concordemos com ele. Seja ele um youtuber ou um ministro do Supremo Tribunal Federal.


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