Entre dois mundos

Pode parecer estranho o que afirmo aqui, mas o mundo tem algum sentido quando a pessoa não se preocupa com nada que esteja além do visível. Ao menos para quem vive neste estado, as satisfações inferiores que buscam e os objetivos imediatos que perseguem podem ser perfeitamente satisfeitos. De alguma maneira, o fim da carne se cumpre e a sensação de realização, ainda que temporária, se manifesta.

Quando, porém, conhecem uma verdade superior, a visão se abre para algo que sequer imaginavam. Viviam com os olhos para o chão e, agora, sua cerviz curva-se, elevando suas vistas para o céu. Neste novo estado, o que é de baixo deixa de satisfazer. Quando o espírito se abre para a transcendência, nenhuma promessa de alegria mundana tem mais força para seduzir. Quando a alma clama, apenas as coisas do espírito podem responder.

Diante disso, a pior maneira de viver, após ter os olhos abertos, é fingindo que Deus não existe. Quem, após experimentar a eternidade, nega-a, não apenas deixa de gozar das delícias do porvir, mas se torna incapaz de apreciar as pequenezas do presente. Ao mesmo tempo que conhecendo a verdade, ignora-a, e, por isso, não a vivencia, sua alma, que não é mais ingênua, pois experimentou a verdade, não mais se sacia com qualquer carnalidade. Quem assim vive, portanto, não possui nem o prazer da carne, nem a alegria do espírito. Tem apenas a culpa do pecado e o remorso da incapacidade espiritual.

Por isso, o pior estado em que o homem pode se encontrar é no meio do caminho entre a vida carnal e a espiritual. Não estando lá nem cá, nem se satisfaz com o mundo, nem encontra a completude do espírito. E essa indefinição humana é tão abjeta que causa náuseas ao próprio Deus (Ap 3.16).

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