Histeria coletiva e a contaminação do mensageiro

A maior prova da histeria coletiva brasileira é a necessidade obsessiva de ver-se com um povo pacífico, até pacato. Mesmo com a realidade esbofeteando sua cara, mostrando diariamente que vivemos em um dos países mais violentos do mundo, tentamos nos convencer de que a nossa característica marcante é a paz.

Então, quando surgem casos como o atentado contra a vida de um candidato à presidente da República, que, diante das nossas circunstâncias violentas, seria algo até bastante óbvio, há uma enormidade de pessoas querendo tratar isso como uma excrescência, como um ato isolado.

E quando esse mesmo candidato apresenta um discurso forte de ataque à violência existente, em vez dessas pessoas concordarem com ele e afirmarem que, realmente, há muita violência por aqui e ela precisa ser contida – e não se contém violência senão com força -, preferem acusar de violento o autor da proposta, não os criminosos que ele combate.

De certa maneira, isso é explicável, pois Jair Bolsonaro acaba agindo como o portador da má noticia de que nosso país é um lugar selvagem e precisa receber um remédio amargo para conter toda essa selvageria. E “a natureza da má notícia contagia o mensageiro. Existe uma tendência humana natural a desgostar de uma pessoa que traz informações desagradáveis, ainda que ela não tenha causado a má notícia. A simples associação basta para estimular nossa aversão” (Robert Cialdini – As armas da persuasão).

Por isso, para uma parcela da população, Bolsonaro acaba sendo mau simplesmente porque ele fala sobre coisas más. E nisso encontra-se a desculpa perfeita para o histérico: encontrar algo isolado e realmente inofensivo onde possa lançar seus medos. Para essa gente histérica, é mais aceitável dizer que Bolsonaro é perigoso do que dizer que perigoso mesmo é sair na rua segurando um celular, onde pode ser morta por um deliquente. O perigo em relação ao Bolsonaro é falso, mas suportável; já o delinquente que pode lhe abordar a qualquer momento é bastante real, mas insuportável.

É verdade que toda essa tentativa de diminuir a seriedade do atentado, por todos os meios retóricos possíveis, tem muito de canalhice, mas só ecoa porque há muita gente histérica pronta para agarrar a primeira explicação que afaste a verdade feia demais de que estamos vivendo em um país cercado pela criminalidade, pela barbárie e pelos piores sentimentos.

Um comentário sobre “Histeria coletiva e a contaminação do mensageiro

  1. Já ouvi muitos dizerem “esquece que dói menos!”
    Percebo uma tendência muito forte de fugir da dor a qualquer custo, a começar por mim e minha família. De fato, uma tentação. Indisposição para lidar com o sofrimento. E mesmo entre cristãos, supostamente imitadores de Cristo e cônscios do vale de lágrimas onde vivemos. Creio que seja um câncer social, ou espiritual, que precisa urgentemente ser extirpado.

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