Utopistas e a necessidade de controle

Há quem se assuste com governantes exercendo seu poder de maneira autoritária. Confundida pela ilusão democrática, muita gente pensa que essas demonstrações de tirania são uma excrescência, quando, na verdade, fazem parte de uma tendência quase natural dos detentores de poder.

O sonho de quase todo governante é poder controlar nossa vida, mesmo nos aspectos mais comezinhos. Este é um sonho antigo. Não se contentam em regulamentar o que faz parte da vida comum, mas querem determinar o que fazer inclusive naquilo que se refere ao nosso trabalho, nosso lazer e, até, nossos relacionamentos.

Portanto, quando eles determinam que você não pode trabalhar ou tem de trabalhar sob suas rígidas regulamentações, proibindo suas caminhadas na praia ou no parque e regulamentando até com quem você deve se encontrar pode parecer estranho para quem vive na ilusão temporária da democracia, mas não espanta quem conhece um pouco de história.

Não faz tanto tempo assim que passamos por experiências sociais totalitárias. Comunismo, nazismo e fascismo são três demonstrações de governança autoritária que dominaram todo o século XX e, sobrevivem, às sombras, espreitando uma chance de retomar seus dias gloriosos. Sem contar os filhotes remanescentes, como Cuba, Coreia do Norte e seu mais ilustre rebento: a China.

No entanto, bem antes disso, já havia um tipo de literatura que, por cinco séculos, forjou a mentalidade de governantes do mundo todo. Uma literatura utópica que imaginava poder moldar a sociedade, segundo as concepções de seu idealizador, por meio do controle total.

Na verdade, Platão já havia pensado em uma utopia desse tipo, mas foi Thomas More quem inaugurou esse estilo literário na modernidade. Em seu livro ‘Utopia’ já encontramos aspectos de imaginação totalitária, como distribuição de riquezas e divisão forçada de trabalho. Depois dele, na ‘Cidade do Sol’, de Tommaso Campanella, encontra-se uma comunidade de mulheres, controle alimentar, trabalho obrigatório e uma religião única, formando uma teocracia. Até Rousseau, em seus primeiros escritos, flertou com a utopia, sendo, por causa disso, e por sua forte influência posterior, considerado o pai do comunismo moderno. Após isso, encontraremos outros exemplos, como a utopia do padre Gabriel Mably, onde há uma busca por um ideal comunitário por meio da restrição do direito da propredade. Restif de La Bretonne, que sonha com um comunismo agrário e retrógrado. Morelly que quer dividir tudo, inclusive as mulheres, além de pensar um sistema geral de assistência. Houve, ainda, Saint-Simon, que concebe uma sociedade industrial, sem grandes proprietários, que será a condutora a uma sociedade sem classes. Seus discípulos, os saint-simonistas, que já começam a vislumbrar a constituição de uma sociedade comunista, alcançada por regras específicas, propõem a supressão da herança. Destaque especial deve ser dado a Robert Owen, que após uma experiência utópica de sucesso na Usina de New Lanark, teve a oportunidade de vê-la replicada na própria sociedade inglesa onde vivia, em um projeto que se configurava uma verdadeira proposta de planificação comunista, o que, contrastando com sua experiência no universo fechado de New Lanark, resultou em retumbante fracasso. A partir daí, vários autores utópicos surgiram, como Charles Fourier, Etienne Cabet e uma série de outros pensadores que acabaram formando uma verdadeira tradição nesse estilo literário e moldaram a mentalidade de muitos governantes durante todo esse tempo.

O mais importante é notar que o que havia de mais comum em todos essas concepções sociais era o fato de seus idealizadores acreditarem que a sociedade ideal imaginada por eles jamais seria alcançada espontaneamente e que era preciso haver regras, muitas vezes rígidas e bastante restritivas, para que a utopia fosse definitivamente alcançada.

Até mesmo o marxismo, que se enfronhou no mundo das disputas políticas, revoluções e guerras bastante reais traz isso em sua gênese: a crença de que um mundo perfeito alcançado depois de passada a fase do planejamento e controle absolutos.

Portanto, não se assuste quando você se depara com governantes e autoridades que tentam regulamentar a sua vida até nos mínimos detalhes. Isso é uma tendência há séculos e bem anterior das experiências ditatoriais absolutistas dos séculos XIX e XX. No fundo, nenhum deles acredita em liberdade individual coisa nenhuma. Sua fé está sempre no controle absoluto como a única maneira de dirigir a sociedade com eficácia.

Há, porém, algo a se ressaltar: os antigos utopistas nunca tiveram, a seu dispor, os instrumentos tecnológicos e os conhecimentos manipulatórios que os novos aspirantes a ditadores possuem e isso pode fazer toda a diferença.


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