Marco Feliciano e as cotas

O deputado Feliciano, depois de lutar ardorosamente contra uma dessas minorias, parece agora estar cedendo docemente para outra

A política, como a vida, é complexa demais para, por conta de uma atitude isolada dentro de seu jogo, darem-se por conhecidas, em profundidade, as ideias que permeiam a cabeça de qualquer pessoa. Atos meritórios em uma área específica podem ser confrontados com terríveis equívocos em outra área qualquer, demonstrando que, quando falamos da luta de poder, coerência não é a qualidade primeira dos participantes.

O pastor Marco Feliciano, por exemplo, de quem jamais fui apreciador como pregador, mas que admirei, até surpreso, sua resistência diante dos ataques daqueles que continuam tentando impor uma lei que tem como objetivo calar a voz dos pregadores que alertam contra a pecaminosidade do homossexualismo, agora se apresenta como defensor das cotas raciais para cargos públicos. Segundo tem sido noticiado na mídia nacional, ele será o relator, na Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, do projeto de lei que prevê a reserva de 20% das vagas dos concursos para cargos públicos para negros. E, se forem fidedignas as reproduções de suas falas, teria ele dito que é a favor do projeto, pois há um atraso social no país. Um atraso de 300 anos, tempo que durou a escravidão.

O problema é que, independente de qualquer débito histórico que possa haver, se qualquer tipo de cota racial, em um país como o Brasil, onde a pobreza é algo tão disseminado, já é bastante discutível, cotas para concursos públicos beira mesmo à insanidade. Isso porque os cargos públicos existem para serem preenchidos pelas pessoas mais capacitadas para exercerem suas funções, as quais, muitas vezes, envolvem trabalhos de grande responsabilidade. Não são, evidentemente, lugares para se fazer qualquer tipo de revisionismo histórico, nem compensações sociais.

E sequer vou me aprofundar na análise das questões históricas envolvidas nessa afirmação do deputado. Outros historiadores e analistas já apresentaram argumentos bem convincentes sobre como a propositura de políticas que privilegiem qualquer raça, no Brasil, pode ser uma injustiça. Entre esses argumentos estão a anterioridade da escravidão promovida por negros em relação a escravidão européia e brasileira e a existência de escravidão mesmo entre os negros africanos e, inclusive, na comunidade do próprio ícone da luta contra a escravidão, Zumbi dos Palmares. Sem falar nas dificuldades de definir-se quem são e quem não são realmente negros.

O que eu quero mesmo é ressaltar a incoerência do deputado Feliciano que, ao mesmo tempo que confronta-se contra as pretensões de uma minoria, como a dos homossexuais, se apresenta como colaborador das pretensões de outra minoria: a daqueles que se auto-intitulam afrodescendentes. E o que eu chamo aqui de minorias, não é a totalidade de homossexuais, nem a totalidade de negros, mas me refiro, sim, aos ativistas ideológicos, que, sendo uma partícula mínima da sociedade brasileira, com muito barulho tentam enfiar goela abaixo suas pretensões. Estes são a minoria que deve ser combatida por todos os meios.

Acontece que essas minorias barulhentas não estão preocupadas com a eficiência dos serviços públicos, mas somente com a imposição de suas políticas que fortaleçam cada vez mais suas próprias posições. E o deputado Feliciano, depois de lutar ardorosamente contra uma dessas minorias, parece agora estar cedendo docemente para outra. Pior, talvez não esteja realmente cedendo, mas acredite, verdadeiramente, que a oferta desse tipo de cotas seja mesmo uma forma, não apenas de diminuir as desigualdades sociais, mas de acertar as contas com a história do país.

Não esqueçamos que Feliciano foi cabo eleitoral da atual presidente e seu partido. Não digo que por alinhamento ideológico, mas, pelo menos, por não ter discordância política em relação ao PT. E, no Brasil, quem não possui convicções políticas claras certamente é levado pela onda esquerdista e politicamente correta que absorveu quase a totalidade do pensamento político e cultural do país.

Não há, por tudo isso, nenhuma razão para as pessoas ficarem espantadas com a posição de Marco Feliciano em relação a esse assunto. O deputado certamente não pode ser tido por um conservador, menos ainda alinhado com as propostas históricas da direita política. O que parece que aconteceu, no caso da luta contra os grupos homossexualistas, foi uma defesa pontual sobre um assunto que afetava diretamente sua fé e sua atividade pastoral. Mas isso não o torna um conservador. Ele pode ser em defesa da família e a favor da liberdade de expressão nos púlpitos, mas isso não significa que suas convicções politicas sequer cheguem perto daquilo que pode ser chamado de conservadorismo político. Talvez seja moralmente conservador, mas pessoas assim o Partido Comunista já teve várias.

Portanto, a atuação atual do deputado Feliciano em favor da aprovação de cotas para negros em cargos públicos não pode ser, para ninguém, uma surpresa. Aliás, os conservadores brasileiros são tão carentes de representantes que qualquer manifestação em favor de alguma das suas ideias ou bandeiras torna, automaticamente, o defensor em um ícone do conservadorismo nacional.

Marco Feliciano não é nada mais do que um congressista brasileiro, tão semelhante a tantos outros, que, na verdade, não possui ideias políticas, culturais e econômicas muito bem definidas. E, no caso do Brasil, isso significa estar sempre sujeito a influência da ideologia esquerdista que é praticamente a única forma de pensamento e discurso existentes nos círculos políticos do país.

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Nota: Falarei, mais adiante, sobre o que entendo por conservadorismo e como analistas como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino e Lobão não podem, segundo meu entendimento, apesar do trabalho valiosíssimo que estão fazendo, ser considerados conservadores.

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