Necessidade de poder

As demonstrações de autoritarismo dos governos não são uma excrescência. Pelo contrário, é da natureza do governante ser autoritário. Se nada o detiver, ele fará de tudo para aumentar seu poder e impor sua vontade.

Todo governante acredita que seu dever é regular a vida das pessoas. Um governante que realmente se veja como representante do povo e creia que sua função existe para obedecê-lo é uma honrosa exceção.

Uma demonstração clara dessa mentalidade foi dada por uma secretária do Governo do Estado de São Paulo, que, ao informar sobre a flexibilização das regras relativas ao funcionamento do comércio, após as duríssimas restrições impostas, fez questão de deixar claro que tal decisão era um “voto de confiança” que o governo estava dando para a população. Na mente dessa funcionária pública, qualquer liberdade que o cidadão goze é uma concessão estatal. Assim, regulamentar até os aspectos mais triviais de sua vida privada parece-lhe bastante natural.

Tal mentalidade, porém, não surgiu do nada, mas é resquício de uma forma de pensar que, inclusive, gerou um gênero literário: o dos socialismos utópicos. Desde o século XVI, pensadores escreveram obras que previam a possibilidade da criação de sociedades comunitárias, onde cada detalhe da vida dos cidadãos seria regulamentada. Thomas More, Tomaso de Campanella, Saint-Simon, Robert Owen, Charles Fourier são apenas alguns exemplos desses escritores que imaginaram tais comunidades utópicas.

O princípio comum dessa literatura era a convicção de que a sociedade ideal não pode ser alcançada por meio de movimentos espontâneos, mas somente pela aplicação rígida de um planejamento detalhado. Todos seus autores criam que, para transformar a sociedade, precisariam regulamentá-la até em seus mínimos detalhes. Assim, pensaram suas utopias imaginando cidades nas quais não haveria espaço para a livre escolha, mas tudo dependeria daquilo que o governo central determinasse. Sendo assim, imaginaram suas comunidades com uma estrita regulamentação das atividades, divisões rígidas do horário de trabalho, de descanso e até de lazer, determinação de função específica de cada cidadão, divisão completa dos bens, inclusive a comunhão de mulheres e crianças.

Depois, surgiram os socialistas científicos que acreditaram poder colocar em prática muito daquilo que, nas penas dos socialistas utópicos, parecia apenas sonhos de deslumbrados.

Os governantes de hoje nada mais são do que herdeiros dessa mentalidade utópica. Não existe um deles que não acredite que precise impor mais regras sobre o povo. Todos eles, se pudessem, aumentariam seu poder. Se não o fazem é por que ainda existem regras e sistemas que os impedem. Porém, na primeira oportunidade que tiverem, não pensarão duas vezes em ampliar esse poder – a atual crise sanitária é a mais clara evidência disso.

Portanto, não se assuste quando se deparar com governantes e autoridades que tentem regulamentar sua vida até nos mínimos detalhes, impedindo-o de trabalhar, de ir a igreja e até de passear no parque. Esse tipo de atitude é uma tendência secular e bem anterior das experiências ditatoriais absolutistas dos séculos XIX e XX. No fundo, nenhum desses governantes acredita em liberdade individual. Sua fé estará sempre no controle absoluto como a única maneira de dirigir a sociedade com eficácia.

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