Nem cético, nem leviano

O reconhecimento da complexidade da realidade é, afinal, algo bastante cristão

Não se deve confundir ponderação com abstenção. Quando proponho aceitarmos o estado de dúvida e sermos humildes em relação à complexidade da realidade, em nenhum momento quero dizer que não devemos ter convicções ou que nunca chegaremos ao conhecimento de nada. Pelo contrário, é por crer que a verdade existe e é cognoscível que empreendo meus estudos e reflexões, mesmo que com cuidado.

O que reconheço apenas é que a realidade é complexa e entendê-la é uma tarefa muitas vezes bastante complicada. Por mais que eu entenda que há uma verdade imutável que sustenta todas as coisas, sobre estas muitas vezes me sobram mais dúvidas que certezas. Claro que não são aquele tipo de dúvida paralisante, que impede o pensamento, mas sim aquela que nos estimula a ler mais, pesquisar mais, fazer mais força para compreender melhor cada situação.

O reconhecimento da complexidade da realidade é, afinal, algo bastante cristão. É a aceitação da dificuldade do homem decaído de compreender a existência exatamente como ela é. Se antes da Queda, o homem compreendia tudo na imediatidade de sua relação com a realidade, agora ele está entenebrecido pela quantidade de camadas que o separam da verdade plena, pura e simples.

Como se pode perceber, eu não estou advogando qualquer tipo de incognoscibilidade divina ou mesmo uma incompreensibilidade insuperável das coisas superiores. Apenas ressalto que aprendi a reconhecer que os dados da realidade, para homens decaídos como somos, chegam-nos confusos. Devemos nos lembrar, ainda, de toda nossa dificuldade de concentração, de atenção, de persistência, de toda nossa mutabilidade e inconstância para sabermos que tudo isto faz com que mais difícil ainda seja entender plenamente as coisas.

Mas, apesar de tudo isso, nem o ceticismo nem qualquer tipo de abstenção em relação às conclusões sobre a vida são o caminho mais sadio para qualquer um que estude para entender a realidade. Quem se abstém de tirar conclusões e que, por conta das dificuldades de apreensão, escolhe duvidar de tudo, é um derrotado antes mesmo do jogo começar. Isso porque ele renuncia qualquer vitória de antemão. Não há para esse cínico moderno nenhum objetivo, nenhum lugar para chegar, nada para ser compreendido. Vive ele apenas no marasmo do contentamento de possuir o que possui, ou seja, o nada, pois nem o que possui pode ser considerado certo.

Meu estado de dúvida, de maneira diferente, é apenas uma cautela. Se o cético metódico nada tem e nada irá ter, do lado oposto, o radical convicto sofre o sério risco de achar que tudo possui, quando, por causa de sua leviandade, somente acumula ilusão. E se não quero ser alguém que não tem certeza de nada, menos ainda pretendo apostar todas minhas fichas em qualquer tipo de erro ou mentira.

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