O abismo

Existe um abismo entre nós e Deus. Um abismo, em princípio, intransponível. É um abismo existencial, mas também um abismo cognitivo. Não temos naturalmente acesso direto a Ele, como não temos acesso aos seus pensamentos.

O abismo é tão profundo que os caminhos divinos nos constrangem. Eles destróem nossa presunção de sabedoria; abalam nossa confiança em nós mesmos.

Ainda assim, inconscientes dessa distância e cegos pela soberba, os homens espalham doutrinas, idéias, certezas e teorias, confiantes que, assim, saberão como se aproximar de Deus. Porém, com tantas razões disseminadas por aí, me pergunto: com quem está a verdadeira razão?

Minha conclusão: nenhum de nós tem a razão. O que temos é uma fagulha da verdade que mantém viva a chama da esperança e da fé; mas é apenas um pedaço dela. Somos, como disse Clemente de Alexandria, como os bacantes, disputando o corpo de Penteu e, cada qual, em sua ânsia de possui-lo por inteiro, ficando apenas com uma parte sua.

Essa parte que cada um de nós possui, porém, brilha mais que tudo e, inebriados por seu fugor, construímos castelos de convicções, só para vê-los postos no chão pela força das ações divinas incompreensíveis. Levantamos fortalezas de certezas, só para vê-las destruídas pela sabedoria inabarcável de Deus.

Tudo isso só me levar a fortalecer minha convicção de que há mesmo um abismo entre nós e Deus e o que passa disso é apenas o esforço inútil de quem tenta rastrear os pormenores de suas razões.

Estaríamos, então, destinados ao afastamento definitivo de Deus? Estaríamos condenados a não compreendê-lo inexoravelmente? Seria mesmo Ele apenas um Deus misterioso e inacessível?

Antes de tudo, é preciso dizer que, se esse abismo existe, somos nós, com nossa estupidez, nossa corrupção e, principalmente, nosso orgulho, os responsáveis por ele. Somos nós, com nossa pretensão de religião, que pretende explicar tudo, saber tudo, tornar tudo óbvio, que nos coloca a uma distância segura daquele a quem pretendemos cultuar. É nossa teologia que, prometendo levar-nos aos átrios divinos, tem nos feito mais andar em círculos no deserto.

Há, porém, alguns homens que, contrariando aquilo que parece irremediável, parecem ter, de alguma maneira, transposto esse abismo. Parecem ter encontrado um fio que conduz ao divino e, com isso, trazem para nós uma luz de esperança de que é possível, ao menos, aproximar-se desse Deus Absconditus.

No entanto, o que há em comum nesses homens não é algum conhecimento específico, nem a posse de um segredo esotérico qualquer. Sua exaltação não é fruto da razão, nem do mérito. Pelo contrário, o que se vê neles é uma total falta de presunção de tudo isso. Absolutamente desapegados do reconhecimento humano, ficam abertos para receber a verdade. Em vez de discutir com as razões divinas, resignam-se em aceitá-la, não tentando acrescentar nada a ela. Assim, com um esvaziamento completo, tornam-se cheios do conhecimento celeste, sem dividir a glória eterna com a honra corrupta da terra.

Esvaziam-se, porém, não tornando-se autômatos, sem vontade nem decisão. Eles, na verdade, abandonam as pretensões sobre si mesmo, reconhecendo aa própria ignorância e falibilidade. Seu esvaziamento é, diferente do que possa parecer, uma tomada de consciência, mas consciência da própria pequenez.

Assim, o homem esvaziado torna-se um receptáculo disponível à sabedoria eterna, que o preenche com suas dádivas infinitas. Esse homem, na verdade, deixa de buscar a Deus e passa a abrir-se para Ele. Deixa de confiar nas práticas, nos raciocínios e nos preceitos que prometem entregar-lhe a via certa para a divindade e permite ser conduzido pela força irrastreável do Espírito. No fundo, sua busca acaba constituindo-se mais em um não fazer, um não pensar, um não construir, deixando que Deus faça, pense e construa por ele e por intermédio dele.

A partir daí que nascem os verdadeiros sábios. Disso saem os verdadeiros homens espirituais.

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