O Erro dos Utopistas

Nisso reside o grande erro de todos os utopistas: acreditar que sua missão de mudar a humanidade era algo nobre

Querer mudar as pessoas, arrancá-las de seus vícios, de suas vidas infrutíferas, de seus pecados, em princípio, parece algo louvável. Quem faz isso, não apenas é visto como um benfeitor, mas é considerado um verdadeiro salvador. Principalmente, se suas intenções se transformarem em atos efetivos, todos verão nesse homem um grande coração, alguém abnegado em favor da melhora dos homens menos desenvolvidos.

Usualmente, pessoas querem mudar outras pessoas, e fazem isso com as melhores intenções. Creem que possuem como que um mandado expedido por Deus, que os autoriza a agir, sem medir esforços e consequências, em favor da transformação das vidas. Se revestem da capa oficial do reino celeste e empreendem palavras e esforços para que os homens sejam melhorados.

A própria pregação cristã parece autorizar isso, quando afirma que todos precisam de transformação. Fundamentados na teologia do pecado original universal, mesmo os cristãos sentem-se obrigados a fazer de tudo para aperfeiçoar os homens, tornando-os mais puros, mais santos.

O que não é surpresa, no entanto, é que seu trabalho, por muitas vezes, é vão. As pessoas não são mudadas tão facilmente. E essa frustração, invariavelmente, torna-se ressentimento no pretenso benfeitor. Isso porque o que ele enxerga não é o fracasso de seu empreendimento, mas a pertinácia do auxiliado e sua obstinação pecaminosa. Seu olhar deixa de ter misericórdia e passa a ver o outro como alguém inferior que necessita ser, ainda que contra sua vontade, corrigido.

Se o amor conduzia o auxiliador, esta boa motivação naturalmente pode ser substituída pela necessidade de confirmação das próprias convicções. Isso tem sua lógica: se há a obrigação moral de transformar uma alma corrompida, e se essa corrupção impede que o corrompido, por esforço próprio, melhore sua vida, então aquele que deseja transformá-lo tem como única atitude possível: o desprezo em relação à vontade do auxiliado.

Está montado, portanto, o arcabouço lógico para a imposição autoritária. E da forma como está posto, não deixa espaço algum para contestação, nem defesa. Quem não tem a capacidade de transformar-se, estando absorvido em sua própria natureza pecaminosa e inferior, não tem o direito de determinar o que é melhor para si e, por isso, deve sofrer a ação daqueles que sabem e podem ajudá-lo.

Nisso reside o grande erro de todos os utopistas: acreditar que sua missão de mudar a humanidade era algo nobre. Todos eles imaginaram sociedades perfeitas, harmoniosas, igualitárias e fraternas. Desde Thomas More e Tommaso Campanella, esses sonhadores imaginaram o paraíso na terra e viajaram, por meio de seus escritos, até o Éden.

Enquanto isso tudo era apenas um sonho, quase uma fuga da opressão cotidiana, não passava de excentricidade de intelectuais. Porém, quando outros utopistas, como Saint-Simon, Robert Owen e Charles Fourier, passaram a acreditar na possibilidade da implantação de suas sociedades ideais, o perigo do autoritarismo se apresentou com toda sua força.

O que eles queriam era uma sociedade evoluída, mas para isso precisavam transformar o ser humano. Sua fórmula, invariavelmente, envolvia a criação de regras de condutas claras e bem definidas, a limitação da espontaneidade, uma igualdade coercitiva, o impedimento à livre expressão e a supressão da liberdade religiosa. Tudo, é claro, bem justificado pelo bem comum e progresso civilizacional.

Se as fórmulas sempre foram idênticas, os resultados que se seguiram também mantiveram-se uniformes: o total fracasso, tanto em relação à evolução da sociedade como em relação à melhora dos homens que nela viviam. Apesar de todas essas ideias utópicas se justificarem pela necessidade de coerção, para o alcance de um mundo livre e fraterno posterior, nenhuma delas jamais ultrapassou a primeira fase do processo. As mesmas mazelas, os mesmos defeitos, os mesmos desvios, mais cedo ou mais tarde (normalmente bem cedo) apareciam com todas as suas cores. O objetivo sempre o mesmo: a construção de uma sociedade melhor; o resultado sempre igual: mudança alguma no caráter humano e menos ainda na sociedade.

Pela experiência já era hora dos que desejam transformar os homens e o mundo se perguntarem: Cabe-nos a transformação dos outros homens? Quem acredita que pode mudar alguém se reveste de uma autoridade que não possui, paramentando-se de um poder que não tem. Com isso, torna-se um tirano inconveniente e, pior, jamais alcança os resultados prometidos.

Apenas o esforço individual é capaz de causar uma mudança verdadeira no ser humano. É pelo entendimento, aliado à vontade, que o homem tem a possibilidade de experimentar um crescimento e uma melhora. Até porque uma evolução individual pressupõe a consciência do estado inferior e a busca pelo superior. Fora isso, nada pode fazer com que alguém deixe suas aberrações.

O que cabe aos homens não é impor a transformação, mas louvá-la. Somente pela pregação, pela difusão dos bons conceitos e da propagação dos nobres valores que podem surgir verdadeiras mudanças. Se uma pessoa souber o que é bom, é, de alguma maneira, previsível que ela o deseje e faça algo para alcançá-lo.

Os que insistiram em impor seus mundos ideais, cultivando uma sociedade autoritária, esperando ver a transformação dos homens, colheram, sempre, o fracasso.


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