O paradoxo da era da informação

Se alimento algum saudosismo em relação aos antigos jornais impressos, que, até um tempo atrás, eram as nossas únicas fontes de informação, é pelo fato de que, sua leitura, em algum momento, terminava. Você comprava o jornal numa banca, ou recebia-o em casa, e, após folheá-lo o suficiente, tinha a sensação de estar a par de tudo, ainda que soubesse que aquelas notícias se referiam ao dia anterior. Dobrava-o e seguia sua jornada. Quanto ao que está acontecendo agora… Bom, no dia seguinte, a gente pensava nisso.

Agora, tudo mudou. A notícia vem à nossa vista um pouco depois que o fato acontece, quando não ao mesmo tempo. E fatos acontecem o dia inteiro. Com isso, aquela sensação de dever cumprido, de fechar o jornal, satisfeito por ter se colocado a par do que é importante no mundo não existe mais. Há, hoje em dia, um ininterrupto sentimento de que existe algo importante acontecendo e que precisa ser sabido. A notícia em tempo real é a lebre da corrida de cães. Nós, obviamente, somos os cães.

No entanto, como toda estupidez só permanece estupidez porque não é percebida como tal, cuidamos de tirar dessa caça infindável uma razão nobre. Assim, tratamos com orgulho esta nossa época, que chamamos de ‘a era da informação’. Se com a invenção da imprensa, o homem civilizado sentiu-se em uma posição mais vantajosa do que aqueles que viviam apenas dos livros e dos sermões, o cidadão pós-moderno considera-se ainda melhor, pois acha um atraso sobreviver apenas do periódico impresso e das notícias de ontem, envaidecido por passar o dia inteiro atento ao que está acontecendo no mundo.

Por isso, ao tirar o jornal de cima da mesa, onde permanecia pela manhã, e colocá-lo no bolso, o leitor moderno sente-se superior. Afinal, as pessoas têm a convicção de que o conhecimento é o resultado quase espontâneo do acúmulo de dados. Pensam que, quanto mais souberem, mais compreenderão. Não é por acaso que os cientistas e os historiadores são mais admirados que os filósofos. Enquanto estes tentam dar explicações e, por isso, são vistos com desconfiança, aqueles aproveitam seu prestígio ao desfilarem sua memória e seus fichários. Um pesquisador citando, de cabeça, dezenas de fatos históricos parece mais inteligente que um pensador sofrendo para dar forma compreensível a uma única ideia específica.

No entanto, essa é uma perspectiva equivocada. O acúmulo de informações não gera automaticamente conhecimento. Com exceção das verdades auto-evidentes, todas as outras dependem de que o indivíduo que pensa sobre elas, para compreendê-las, faça as devidas conexões, perceba suas relações, desenvolva suas sínteses.

Não adianta, portanto, meramente amontoar informações dentro de si, como se a pessoa fosse um gaveteiro. Conhecer é mais do que saber o que aconteceu ou como as coisas se dão, mas saber por que as coisas se deram de determinada maneira e qual a relação desse fato com o que o envolve e com o todo.

Fica evidente,  portanto, que se chega a um ponto em que o acúmulo de informações começa a se tornar prejudicial para a pretensão de entender as coisas – e este é o paradoxo da era da informação.

No processo de conhecimento, será preciso estabelecer diversas conexões entre os fatos e fenômenos, a fim de entender a verdade dessas relações. O conhecimento surge pela síntese. A cada fato que aparece, a pessoa interpreta-o, relacionando-o com os fatos anteriores, extraindo então uma conclusão, a qual será confrontada com um novo fato, que fará gerar outra conclusão, e assim indefinidamente.

Porém, esse trabalho dialético, que pode ser simples em alguns casos, noutros pode se mostrar bastante complexo e trabalhoso. Há fatos que são imediatamente compreensíveis, enquanto outros, para serem bem entendidos, dependem de conhecimentos diversos e reflexão.

Assim, se os fatos se acumulam, já não é mais possível refletir sobre eles, fazendo com que suas sínteses já não sejam mais seguras. Além disso, cada novo dado que se apresenta exige um novo exercício dialético, o que aumenta as chances de erro de interpretação. A matemática é simples: se, para entender algo, a pessoa tem acesso a quantidade x de informações, ela terá que fazer o exercício de interpretação por x vezes, o que fará com que ela tenha x chances de cometer erros; se ela tem acesso a 10x informações,  as chances de erro multiplicam-se por dez. Portanto, quanto mais informações, mais possibilidades de equívocos a contaminar a compreensão do todo.

Assim, a era da informação, ao contrário do que possa parecer, ao despejar notícias ininterruptamente sobre as pessoas, prejudica a compreensão das coisas, seja por impedi-las do reflexo cuidadoso dos fenômenos, seja por multiplicar as chances de interpretações equivocadas.

O conhecimento é a visão do todo. Por isso  para entender melhor coisas, é preciso afastar-se um pouco delas. Como disse Nietzsche, somente quando deixamos a cidade, vemos a que altura as torres das casas se encontram.

Portanto, o excesso de informação acaba sendo uma ilusão. Em vez de esclarecer, ele atrapalha o entendimento dos fatos. E, talvez, por não perceber isso, é que a geração atual se acha tão esperta e não vê que está se tornando mais ignorante exatamente por aquilo que acredita tornar-lhe mais inteligente.


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