O radicalismo secularista

É muito fácil apontar o dedo para um religioso, acusando-o de extremismo, fundamentalismo, radicalismo ou qualquer outra insinuação que denote qualquer tipo de atitude intransigente de sua parte.  Isso faz parecer que um dos lados age sempre com extremo bom senso, enquanto o outro, composto pelos religiosos, precisa ser amansado de sua sanha fanática. A impressão é que os secularistas são todos homens absolutamente equilibrados, que buscam sempre o melhor para a sociedade e defendem os valores mais elevados para ela, enquanto do lado, o da religião, estão aqueles loucos para mandar para a fogueira todos que discordem de sua fé. Por isso, vemos apenas aqueles exigindo moderação destes, como se fossem senhores sábios exortando bons modos a jovens insolentes.

Mas mostrando as coisas como elas realmente são, essa moderação exigida pelo mundo não passa de uma tentativa de atenuar a convicção religiosa alheia e forçar uma aceitação maior dos princípios laicos. Na verdade, quando o religioso se torna um moderado, apenas para se acomodar às convicções mundanas, está, nada menos, que trocando uma convicção por outra. Por exemplo, para um secularista, um homem acreditar e defender que um feto deve ser protegido desde sua concepção pode parecer radical, porém para o religioso, atitude extrema é exatamente a contrária, a saber, insinuar que é possível promover a liberdade para exterminar fetos em algum momento da gestação. Se, portanto, um religioso afrouxa sua convicção contra o aborto, não está sendo moderado, mas acatando uma visão de mundo oposta a que possuía anteriormente.

Na verdade, esse negócio de moderação é uma invenção para ludibriar trouxas. Moderar é atenuar e não pode ser exigido para aquilo que é considerado bom. Não se fala em atenuar o amor, a bondade, a compaixão. Por isso, quando alguém pede para um religioso agir com moderação, está, sutilmente, afirmando que aquilo no que ele acredita é mau, de alguma forma. De fato, toda moderação, quando se trata de convicções, não passa de reconhecimento de que elas não são boas e precisam ser refreadas.

Um religioso, certo de que suas crenças são valorosas, não tem motivo para abrir mão delas. Da mesma forma, um secularista, que crê na superioridade de sua visão de mundo, não aceitará que ela seja suplantada. Para que haja paz, portanto, é necessário um acordo, mas, em muitos casos, a convenção significa, simplesmente, para quem cedeu, a própria negação de sua convicção. Chega-se, então, a um ponto em que a concordância torna-se impossível, sem que um dos lados abra mão de seus princípios. E nenhum dos lados está disposto a fazer isso. Os secularistas pedem moderação dos religiosos, mas eles mesmos não querem ceder um milímetro de suas convicções. Diga para um deles que você é contra o aborto, o casamento gay, a proibição do ensino religioso nas escolas e você verá, no mesmo instante, que a moderação é uma virtude muito fácil de se exigir dos outros.

O que muita gente não percebe é que a visão secularista é tão radical quanto qualquer religião. Ela tem seus próprios princípios, valores e até crenças. Um defensor do laicismo atua como um apóstolo, pregando seu evangelho como se fosse a salvação para os homens. E como um fiel, ele não aceita que visões de mundo opostas se imponham. Por isso, na luta política, aceitar que os princípios secularistas ditem as regras é já dar a vitória para eles. Atenuar o discurso cristão, a fim de parecer menos radical, longe de denotar bom senso e espírito cooperativo, apenas fortalece a visão de mundo contrária, que defende tudo aquilo que um religioso não pode aceitar de maneira alguma. 

Se não há moderação possível para um religioso, é bom saber que não há também para um materialista. Assim, a batalha está posta e ganha esse jogo quem for mais inteligente na luta cultural que se impõe. Eu tenho plena convicção que se os princípios cristãos fossem assumidos, a sociedade viveria em paz, pois a caridade, a benevolência e a misericórdia estão entre seus valores centrais. Se, porém, forem os princípios secularistas a dominar, eu já não tenho tanta certeza. Os bebês, nas barrigas de suas mães, seriam as primeiras vítimas e só Deus sabe quem seriam as outras. Uma coisa é certa: os livros de História me ensinam que quando secularistas dominam uma sociedade, muito sangue é derramado e muitas cabeças rolam pelo chão.

5 respostas a “O radicalismo secularista”

  1. Senhor SIDCLAY ROCHA, peço-lhe que leia meu comentário inteiro, pois estava falando sobre Constitucionalismo, Direitos Humanos e História da Humanidade. Peço-lhe que, além disso, pesquise sobre isso na Wikipédia e noutros sítios. Não confundi Estado Laico com Estado Ateu, pois repudiei os extremos contrários a ele, assim como outros citados no meu comentário anterior. Agradeço-lhe de todo o meu coração! Obrigado!

  2. Caro Leonardo Melanino, você confundiu “Estado Laico” com “Estado Anticlerical”, que são coisas diferentes e opostas.
    Estado Anticlerical é a ausência de envolvimento religioso em assuntos governamentais, bem como ausência de envolvimento do governo nos assuntos religiosos. Pela sua natureza, este conceito tira o direito que as pessoas, que por ventura possuam uma religião, possam aplicar princípios morais e éticos (baseados em sua religião) no campo político.
    O Estado Laico proposto por Rui Barbosa foi a separação política entre Estado e Igreja Católica, visto que naquela época a Igreja tinha Poder de Estado sobre os brasileiros e quem não fosse registrado pela Igreja não tinha a sua cidadania reconhecida. Também ocorria que não havia liberdade religiosa, pois a única religião reconhecida pelo Estado era a católica. O objetivo de Rui Barbosa não era criar um Estado Anticlerical e sim dar às pessoas a liberdade de escolherem a religião que lhes aprouvessem ou simplesmente não ter religião alguma.
    A palavra “laico” remete à palavra grega Laikos (“do povo”, “leigo”), ou seja o Poder do Estado emana do povo. Porém, no meio do caminho de nossa história, alguém mudou o sentido da palavra “laico” para “anticlerical” e como diz a máxima socialista “toda mentira repetida várias vezes se torna uma verdade”, some a isto o fato de que a natureza humana prefere acreditar uma idéia pronta ao invés de pesquisar o verdadeiro sentido dela através da análise de fatos.

  3. Senhor FÁBIO BLANCO, nenhuns dos extremos (anarquias e totalitarismos) são benéficos, pois são farinhas do mesmo saco, assim como absolutismos e relativismos, ascetismos e hedonismos, bioquices e licenciosidades, feminismos e machismos, sacrilégios e santimônias e outros. O melhor Estado do Mundo é o Estado Laico de 1891 (Rui Barbosa, a Águia de Haia), pois Estados Confessionais ou Ateus são tirânicos. Liberdades religiosas devem ser preservadas se elas não forem contra direitos humanos exordiais, como as Vidas, por exemplo (exemplos: recusas de transfusão de sangue por parte de Testemunhas de Jeová (violação do CPB de 1940), sacrifícios animais por parte de religiões afro-brasileiras (violação da LCA de 1998) e outros). Ninguém pode linchar ninguém (fazer justiça com as próprias mãos), assim como ninguém pode cometer bullyings, maltratar, abandonar incapazes, preconceituar ou discriminar (Lei 7.716 de 1989), epidemiar, inundar, incendiar, explodir ou implodir, acidentar, piratear, traficar, assediar, vender bebidas alcoólicas a menores de 18 anos ou fumos a eles, namorá-los, omitir socorro, desmoronar, adulterar placas, cartões ou cloná-los e assim sucessivamente. 10 de dezembro de 1948 (sexta-feira) foi o dia em que a ONU promulgou a DUDH. Mas, infelizmente, muitos países a violam, como a Birmânia, Cuba, o Irã, a Síria, a Venezuela e outros. Por isso, defendamos nosso Estado Democrático de Direito, nossa CRFB de 1988, pois ele é fundamental para os desenvolvimentos de nosso Brasil. Agradeço-lhe de todo o meu coração! Obrigado!

  4. Há uma corrente ideológica nos Estados Unidos que representa a população protestante há três seculos, chamada Paleoconservadorismo. Fomos nós, nossa visão do mundo, no protestantismo do seculo XVII e XVIII que servimos como alicerce para o sistema Republicano nos EUA e a Monarquia Constitucional Parlamentarista Inglesa.

    Pergunto:

    Os fundadores dos sistema não podem mais ser representados por ele?

  5. Acompanho há tempos teu trabalho. Posso dizer que sou teu fã. Tô sempre no Blog do Julio Severo. Gostaria que você indicasse autores conservadores em teologia pro teu irmãozinho aqui, pois quero me aprofundar no assunto sem cair no erro do liberalismo teológico e menos ainda no marxismo teológico (TMI).

    Comentário sobre seu brilhante artigo :

    Precisamos estar representados no Congresso e na cultura. que raio de democracia é essa, de viés unilateral, que não respeita os valores e tradições de sua população? É a “democracia” onde somente a intelligentsia tem voz ativa? Somente os sábios iluminados da esquerda têm direito ao posicionamento político? Só eles têm o direito à reengenharia da sociedade, para fins de sua sonhada utopia marxista? Têm o monopólio sobre a definição de “Paraíso Terrestre”; de parâmetros e fundamentos para a sociedade, mesmo que a revelia da maioria da população, que por sua vez possui outros conceitos? Isso não seria totalitário de desrespeitoso para com “o outro”, para com “o próximo”? As duas visões não poderão ser representadas igualmente no jogo político e cultural e, portanto, disputar o espaço publico de maneira democrática e cordial?

    Um abraço do Neopenteca aqui!

    A Paz do Senhor Jesus Cristo.

Deixe uma resposta