O Santander e a suposta crítica ao governo

“Há quem acredite que vivemos em um país livre. Há quem imagine que somos já uma democracia avançadíssima. Mas os fatos apenas confirmam que estamos ainda nos tempos do clientelismo, do toma-lá-dá-cá, dos governantes que mandam recado, que ameaçam e que tratam o país como se fosse sua empresa de fundo de quintal”

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Na República Socialista do Brasil não é preciso ser um franco opositor ou um crítico aberto do governo para ser tido por seu inimigo. Com em todas as tiranias, basta que o ditador não se agrade de seus modos para que o cidadão se torne persona non grata, sujeita às retaliações sempre comuns em todos os países que vivenciaram uma revolução de esquerda em seus territórios.

Os funcionários do banco Santander responsáveis por uma análise sobre os movimentos econômicos brasileiros, ao enviarem uma nota aos seus clientes afirmando que a subida da presidente da República, nos índices de intenção de voto para sua reeleição, traria instabilidade para o mercado, sequer teceram alguma crítica ao governo, mas, apenas, fizeram uma análise, como é de costume na área econômica, fria dos fatos.

No entanto, como neste país não é muito comum empresas, principalmente as grandes, e principalmente as instituições financeiras, por meio de seus representantes, demonstrarem qualquer tipo de insatisfação com as políticas governamentais ou tecer mesmo simples comentários que contrariem os interesses do governo, a nota do Santander pareceu um escândalo para o Planalto.

Nem se passaram algumas horas para que Brasília reclamasse e mesmo ameaçasse a instituição financeira, para que esta viesse a público, e em uma atitude de submissão abjeta, pedir desculpas pela nota enviada aos clientes, prometendo que os funcionários responsáveis pelo seu envio seriam sumariamente demitidos.

Na verdade, o fato resume muito bem o espírito brasileiro. A atitude ordinária, por aqui, é o bom e velho peleguismo. Os grandes empresários e mesmo os estrangeiros que atuam nestas terras só sabem puxar o saco dos governantes. Somos, de fato, uma republiqueta, mas não apenas por causa daqueles que estão à frente da nação, e, sim, principalmente, por conta da atitude vil de muitos de seus cidadãos.

E há quem acredite que vivemos em um país livre. Há quem imagine que somos já uma democracia avançadíssima. Mas os fatos apenas confirmam que estamos ainda nos tempos do clientelismo, do toma-lá-dá-cá, dos governantes que mandam recado, que ameaçam e que tratam o país como se fosse sua empresa de fundo de quintal.

E nesta republiqueta, aqueles que, ainda que aparentemente, ousam levantar a voz contra os interesses dos donos do poder, se tornam inimigos públicos, lançados ao ostracismo, longe não apenas dos postos públicos, mas também afastados de suas posições em empresas privadas.

Falta ao país empresários verdadeiramente independentes, que mandem às favas os governantes e garantam suas conquistas apenas com o trabalho e os contatos privados. Se bem que, como é notório, todo o nosso sistema jurídico e econômico é montado para submeter as empresas à vontade do governo. Em um sistema assim, praticamente apenas é possível sobreviver tendo esse mesmo governo como aliado. Quem ousa encará-lo, deve se preparar para as retaliações.

Quanto aos funcionários do Santander, se realmente forem demitidos, necessário é que se levante um amplo desagravo público em favor deles, para que as pessoas entendam que vivemos, sim, sob uma tirania, que castiga aqueles que têm a coragem de agir contra os interesses do poder estabelecido.

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