Os novos moralistas

Quando eu era jovem, acreditava que tinha a obrigação de ser rebelde. Fazia de tudo para contestar os padrões sociais: da religião às regras de etiqueta, da ética imposta aos valores estabelecidos. Com o tempo, a gente aprende que muitos desses preceitos são essenciais à manutenção da sociedade, mas, ainda moço, pensava que eu tinha mesmo de infringir as regras.

No entanto, apesar do amadurecimento que o tempo traz, algo nunca mudou: jamais me senti responsável por salvar o mundo. Minha rebeldia juvenil tinha uma razão exatamente contrária, que era o fato de me sentir deslocado dos padrões seculares. Por isso, nunca quis impor nada sobre ninguém, apenas não queria que impusessem suas regras sobre mim.

Sempre contestei, jamais determinei o que os outros deveriam fazer. Isso porque minha percepção era de que o mundo tinha seus donos e eu precisava lutar para conquistar algum espaço que fosse apenas meu nele.

As gerações atuais, porém, possuem uma idéia completamente diferente. Elas não se vêem como renegadas. Assim, longe de tentar estabelecer seu lugar nesta terra, enxergam-se como aliadas dos grandes poderes globais, missionárias, enviadas por eles, para o estabelecimento de uma nova ordem.

Não por acaso, as novas gerações atuam no sentido de salvar a humanidade dos erros de seus antepassados (inclusive de seus pais), o que lhes autoriza fiscalizar, denunciar e até perseguir aqueles que agem segundo os velhos padrões de comportamento.

A juventude de hoje é como os antigos moralistas que, religiosos, quando conseguiam estabelecer-se como comunidade independente, tinham a convicção de que sua missão, como servos de Deus, era de preservar a pureza da doutrina que sustentava essa sociedade. Denunciar seus concidadãos, por conta de pecados cometidos, era o mesmo que denunciar um subversivo.

Os novos moralistas são assim também. Exigem que a fala e o comportamento estejam de acordo com os preceitos de seu novo mundo. No entanto, os pecados perseguidos já não são aqueles prescritos por uma religião, mas os conceitos aprendidos de uma elite mundana e materialista.

No fim das contas, a nova geração acaba sendo essencialmente moralizadora, quase puritana, por isso intolerante, rígida e severa. Assim, ela não vê a perseguição que impõe sobre os outros como algo incômodo. Pelo contrário, orgulha-se de agir como defensora de uma doutrina mundana da qual se vê como fiel guardiã.


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