Quando o rigor atrapalha

Nossa relação com aquilo que chamamos de realização pode ser muito opressora. Cobrar de si mesmo tornar-se alguém que cumpre exatamente todas as tarefas programadas, que não desperdiça tempo jamais, pode ser uma fonte sufocante de ansiedade. No fim das contas, atitudes assim servem mais para atrapalhar as realizações do que fazê-las acontecer.

Assim, a moderação aristotélica serve como medida para uma atitude que sempre tem o risco de cair em um extremo prejudicial. Porque se há aqueles que se perdem na preguiça, deixando de fazer muito do que poderiam, há também aqueles que, acreditando-se super-homens, impõem para si mesmos uma quantidade de tarefas quase impossível de ser cumprida, fazendo com que a mera tentativa desse cumprimento represente sério prejuízo a todas as outras áreas da vida.

Quantos casamentos, relações familiares, amizades, além de saúde, não são prejudicados pela entrega obsessiva a algo, fazendo que o cumprimento daquilo a que se determinou traga como única recompensa a mera satisfação de ter cumprido o planejado e mais nada?

O que à vezes nos esquecemos é que todas as tarefas que realizamos são meios para o alcance de determinados fins e, se esses mesmos fins forem prejudicados nessa busca, aquelas tarefas perdem completamente o seu valor.

De que adianta abandonar o convívio da família para ganhar dinheiro para a família? De que adianta esforçar-se para fazer tantas coisas se isso lhe roubará a saúde, impedindo-lhe de aproveitar os frutos do esforço? De que adianta abandonar os amigos e qualquer vida social na busca por sabedoria se não há exercício da sabedoria senão em meio ao convívio com as pessoas? De que adianta sofrer tanto em uma busca espiritual profunda, condenando-se pelas falhas cometidas, a ponto de afastar-se do amor divino, quando o encontro com o amor divino é o objetivo único dessa busca?

Claro que isso não significa que devemos ser malemolentes com o que se apresenta diante de nós. Nem que não devamos nos esforçar muito mais do que nosso corpo parece impor. No entanto, deve haver o cuidado para que o próprio esforço e, principalmente, a cobrança que fazemos sobre nós mesmos, em vez de nos ajudarem a alcançar o que queremos, sirvam de elementos dificultadores nesse processo em direção aos nossos objetivos.

Originalmente publicado no Vida Independente

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