Hipocrisia acadêmica

Um professor acadêmico reclamou da forma como tratei Paulo Freire. Sendo ele um confesso admirador da obra freireana, achou que minhas palavras eram injustas. Então, como forma de fortalecer meus argumentos, apresentei a ele o livro “Desconstruindo Paulo Freire”, organizado por Thomas Giulliano e que possui um de seus capítulos escrito pelo meu amigo Rafael Nogueira. Após poucas folheadas, o mestre, então, reconhecendo o viés conservador dos escritores, simplesmente fechou o livro e disse: “Ah, mas são claramente coxinhas!”, recusando-se, diante de tão horrenda constatação, a fazer qualquer análise do publicado. O mais espantoso, porém, e significativo, veio em seguida, quando, na frase seguinte, sem perceber a patente contradição, reclamou que o problema com os críticos de Paulo Freire é que rejeitam previamente as ideias do pedagogo por conta de suas posições políticas, esquecendo, o professor, em um lapso de memória recente, que ele mesmo havia acabado de fazer isso com os escritores conservadores aos quais havia acabado de ser apresentado.

Tal atitude é simbólica, pois destaca o caráter hipócrita da sociedade acadêmica brasileira. Na verdade, seus membros não apresentam nenhum pudor em agir exatamente da maneira como acusam seus adversários de agirem. No caso aqui narrado, não houve nenhum problema em ignorar os argumentos dos pensadores conservadores, por causa da visão política deles, ao mesmo tempo que considerava tratar Paulo Freire dessa mesma maneira um absurdo.

O pior é que a Academia está tomada dessa forma de pensar, que invalida, de antemão, qualquer ideia que surja de uma mente que não esteja alinhada com a perspectiva progressista que dominou seu ambiente, enquanto se faz de vítima quando alguém a critica por causa de seu comprometimento ideológico.

O fato é que a pluralidade, diversidade, tolerância e espírito democrático apregoados como bandeiras pelos acadêmicos não passam de slogans mentirosos, divulgados apenas para esconder a tirania do pensamento uniforme que existe nas universidades brasileiras.

Não é por acaso que seus departamentos de ciências humanas não produzem nada de relevante há muito tempo.