Tag: Civilização

Espectadores de um Teatro Macabro

Os homens, em algum momento da história, perceberam que seu estado de natureza representava uma limitação para o desenvolvimento comunitário e, para superar essa barbárie, criaram a civilização.

A civilização, portanto, nada mais é do que um conjunto de técnicas e artifícios produzidos para abafar nosso primitivismo e conter nossos instintos.

Apesar de sobreviver em nós um resquício de intuição de nossa natureza bárbara e do caos que é o nosso mundo, sufocamos-na, refugiando-nos nos quadros fantasmagóricos que pintamos. Esquecemos do caráter artificial da sociedade que criamos e vivemos como se tudo nela fosse natural e espontâneo.

Os ritos, as liturgias, as leis, as convenções ─ tudo que serve para substituir o caos da natureza ─ acabam assumindo o papel da realidade. Passamos, então, a viver em um ambiente ilusório, mas convencidos de que se trata da realidade mesma, dedicando a ele nossas esperanças, esforços e investimentos; esperando dele todas as respostas.

Às vezes, temos algum lampejo de lucidez e entendemos que há muito mais para além desses jogos sociais. Porém, é tarde. Depois de tanto tempo vivendo sob a ilusão, a maior parte das pessoas se tornou incapaz de perceber que tudo não passa de um simulacro.

Assim, denunciar a mentira constitutiva de nossa sociedade torna-se inútil. Há muito tempo, aceita-se a pose, a farsa, o fingimento e a afetação como a representação fiel da realidade e, agora, quem pretende se colocar do lado de fora dessa ficção obviamente será tido por maluco.

Diante disso, resta para os minimamente despertos participar desse teatro macabro como meros espectadores, conscientes da natureza fantástica da encenação, sendo permitido comentar sobre as cenas, torcer pelos personagens e até opinar sobre o roteiro, mas sem qualquer poder para influenciar o espetáculo.

Naturista hipócrita

Gosta mesmo da natureza? Acha mesmo que o homem civilizado abusou de seu direito de impor o asfalto e o concreto? Acredita, de verdade, que é preciso um retorno a uma vida mais bucólica?

Então, considerando que terra é o que não falta neste país, por que você não adquire um pedaço dela, de preferência bem longe da civilização, onde possa sobreviver daquilo que ela lhe der, e para de encher o saco?

Enquanto preferir apenas falar mal do mundo civilizado, sem abandoná-lo, por conveniência, você é apenas mais um hipócrita.

Vitória sobre a natureza

Toda engenhosidade humana é uma vitória contra a natureza.

De um pequeno trabalho artesanal, até as grandes obras da engenharia; de uma pequena redação à feitura de uma enciclopédia; da composição de um poema à publicação de um tratado de física; da construção de um instrumento de manufatura até à edificação dos arranha-céus, tudo acontece pela negação humana de sua tendência natural à acomodação.

Se seguíssemos o que alguns proclamadores da liberdade apregoam, de que é necessário dar vazão aos instintos para despertar a criatividade, estaríamos ainda vivendo em árvores, comendo frutas silvestres e dormindo em cavernas.

E apesar desse parecer ser o sonho de uns hippies tardios, estamos bem satisfeitos com que o ser humano, em seu esforço contra suas tendências naturais, construiu para nos oferecer conforto.

Ônus dos revolucionários

O fato é que não cabe a quem defende a ordem social existente, ou seja, os conservadores, o ônus de provar que ela é boa. Cabe, sim, àqueles que desejam substituí-la mostrar, com argumentos racionais e elementos palpáveis, e não com quimeras, as razões por que ela não serve. Algo que esses revolucionários jamais conseguiram fazer.

Involução anti-hobesiana

Criticar as tradições e a ordem estabelecida, tendo-as por males, reivindicando uma liberação dos instintos, é a conclamação de uma vida sem sociedade. É a promoção da involução anti-hobesiana.

Ódio da incompreensão

Muito do ódio que os ressentidos apresentam diante do sistema econômico e sociedade atuais é fruto da incapacidade deles de compreender como as regras vigentes os beneficiam. São ingratos com quem lhes suporta, simplesmente porque não enxergam a mão que lhes sustenta.