Comunicação conservadora e o povo

O conservadorismo está aprendendo a falar com o povo e isso está fazendo uma diferença sensível na política atual.

O conservador, que é historicamente mais preocupado com as razões do seu próprio discurso, está começando a entender que o homem comum – aquele que realmente representa a opinião pública e define qualquer eleição – é sintético. A maneira dele pensar é resumida. Ele não se detém aos detalhes do processo de compreensão do que quer que seja. O homem comum simplesmente, sabe. Não sabe bem porque sabe, mas sabe.

E apesar do que isso pode parecer, essa forma de pensar do homem comum não significa necessariamente que suas opiniões sejam equivocadas. Pelo contrário, mesmo sem saber as razões de seu conhecimento, muitas vezes o que o homem comum pensa reflete a verdade.

Quando, portanto, há a batalha de discursos, típica dos embates políticos, o homem comum tende a assumir com mais naturalidade as narrativas mais verdadeiras. Se, porém, durante tanto tempo, ele foi enganado por discursos mentirosos, é porque quem falava de maneira que ele compreendesse era mentiroso e quem, de fato, detinha a verdade, não sabia se comunicar com ele.

Porém, isso vem mudando. O discurso político conservador vem aprendendo que quem quer falar com o povo não deve se preocupar demais com a exposição dos detalhes. Quem faz isso, dificilmente é compreendido. O conservador está começando a entender que uma comunicação eficaz com a gente comum se apresenta por meio do símbolo reduzido a uma imagem, uma expressão ou uma frase.

Os esquerdistas vinham dominando a retórica política porque se tornaram mestres nesse tipo de comunicação. Tanto que, como nós temos testemunhado nestas eleições, eles não têm nenhum problema de imputar aos seus adversários meros adjetivos, por meio de expressões como homofóbico, racista, nazista, misógino, ou fazer uso de simples slogans, como ele não, ele nunca entre outros do mesmo tipo.

Os conservadores, por outro lado, sempre tiveram um certo pudor quanto ao uso desse tipo de linguagem, porque sempre acreditaram que ela não é um tipo de comunicação exatamente honesta.

O problema é que esse tipo de linguagem é o único compreendido pelas pessoas simples e, portanto, quem quiser falar, de maneira a ser compreendido por elas, precisa aderir a essa forma de se expressar.

Por isso, se o conservador quiser realmente tocar o coração do povo e iniciá-lo na verdade dos fatos não pode, na guerra política dos discursos, ter excesso de cuidados com o uso de expressões sintéticas como comunista, ladrão, kit gay, abortista etc. Se essas são expressões, quando observadas analítica e detalhadamente, imprecisas, ao menos são expressões que, diferentes daquelas usadas pelos esquerdistas, possuem o mérito de oferecer o indício necessário para conduzir o interlocutor no caminho da verdade, geralmente um tanto mais complexa, que se esconde por detrás delas.

Diante de tudo isso, o que deve diferenciar a maneira como os conservadores falam com o povo não deve ser a forma dessa comunicação. Não se pode deixar que apenas os esquerdistas usem slogans e frases de efeito. Permitir isso, é dar a eles, como sempre se deu, o monopólio do discurso político eficiente.

A grande diferença entre o discurso do conservador em relação ao do esquerdista deve ser apenas uma: suas sínteses devem refletir verdades. Sendo assim, elas, por sua própria natureza veraz, serão facilmente assimiláveis e absorvíveis pelo homem comum. Enquanto isso, as sínteses esquerdistas, sendo meras artificialidades, agora possuindo um contraponto verdadeiro, vão deixar de ter efeito. Até porque, normalmente, o que os esquerdistas costumam dizer  pode ser impugnado por uma rápida pesquisa no Google.

Cuidado com o vitimismo feminista

O Jair Bolsonaro precisa aprender uma lição urgente: nunca se dirigir a uma mulher, em público, em tom de reprovação, por mais razão que tenha e por mais que a respectiva mulher mereça. Falo isso não em tom de censura moral. Longe disso! Mas única e exclusivamente por razões de impacto eleitoral.

No confronto ocorrido entre ele e Marina Silva, no debate entre os presidenciáveis da Rede TV, em uma investida violenta e histérica da candidata, que o interrompeu, quando não era permitido a ela, segundo as regras do jogo, fazer isso, Bolsonaro reagiu, até com certa calma, dizendo diretamente para ela que ela não poderia interrompê-lo. Diante disso, alguns analistas interpretaram que a reação do Bolsonaro foi absolutamente normal e justa e, por isso, não haveria nada de prejudicial para ele no caso. Fizeram isso, claro, baseados apenas em um senso de justiça e em uma avaliação do que é certo e do que é errado. O problema é que as pessoas comuns – que são movidas essencialmente por impressões – não julgam dessa maneira.

O fato é que, por mais que as pessoas acreditem que suas escolhas são essencialmente racionais, muitas de suas decisões são baseadas em motivos superficiais, geralmente meras impressões que elas têm de um fato, um ato ou uma pessoa. Mesmo as mais intelectualizadas são assim. Quando falamos, então, de pessoas mais simples, menos instruídas, isso torna-se ainda mais evidente.

Agora, soma-se a isso anos de propaganda negativa sobre Bolsonaro, afirmando que ele é misógino, machista, sexista. Temos, então, a fórmula perfeita para destruir sua reputação: pessoas que julgam tudo por impressões, que foram bombardeadas ininterruptamente com informações negativas sobre o candidato, vendo ele agir de uma forma que parece confirmar aquela imagem que aprenderam a ter dele.

Junte-se a isso, ainda, o ambiente favorável ao vitimismo em que vivemos, onde tudo é motivo para escândalo. Um ambiente onde qualquer coisa que um homem diz para uma mulher, principalmente se for em tom de reprovação, já começa a ser tratado como agressão. Acabamos tendo, então, uma confluência de fatores contra Bolsonaro: superficialidade, manipulação e vitimismo.

Sabendo disso, é certo que Marina Silva – principalmente agora que ela percebeu a força de sua estratégia – vai explorar essa situação e, certamente, cada vez com mais força.

Por isso, insisto: Bolsonaro não deve mais se dirigir a ela, nem a qualquer outra mulher, em público, em tom de reprovação, por mais razão que tenha e por mais justa que seja a situação em seu favor. Se ele não quiser passar uma imagem que confirme a ideia de machista e intolerante, que as pessoas aprenderam a fazer sobre ele, não deve mais fazer isso. Reclame para a banca, fale para o público, dirija-se a Deus, mas não repreenda uma mulher diretamente.

Esta parece até uma preocupação pequena diante dos problemas e desafios que ele precisa enfrentar. No entanto, garanto que a maneira como ele agir, neste caso, pode ser crucial nesta eleição.

De qualquer forma, não custa repetir: essa precaução não tem nada a ver com o que é certo ou errado, mas apenas com estratégia política.

Babel pós-moderna

Toda a cultura e toda a vida intelectual, em uma sociedade, depende da existência de uma constante troca de ideias e do intercâmbio incessante de pensamentos. As grandes concepções, os juízos mais engenhosos, não teriam valor algum se permanecessem isolados nas mentes de seus autores. Para que pudessem contribuir para o desenvolvimento da civilização, foi necessário terem sido compartilhados por seus criadores e, concomitantemente, absorvidos, compreendidos e aplicados por seus interlocutores.

Pressupõe-se, portanto, que, para a formação da civilização, aqueles que se depararam com as mensagens dos gênios, que ouviram as palavras das grandes mentes, compreenderam aquilo que estava sendo transmitido e, por isso, puderam colocar em prática o que deles fora apreendido. E é nessa comunhão entre emissor e interlocutores que reside a base para a construção de qualquer sociedade.

Sem esquecer que mesmo os sábios, transmissores das grandes ideias, foram, eles mesmos, influenciados e impactados por mensageiros anteriores, dos quais receberam outras grandes ideias e os quais tiveram a capacidade também de compreender.

Vê-se assim que toda a sociedade está fundamentada em um acordo tácito em relação aos sentidos das palavras, os seus significados, suas implicações e suas referências. É dessa maneira porque, se não fosse, o que uma pessoa dissesse não poderia ser imediatamente compreendido pela outra, impedindo que essa sociedade se desenvolvesse, afinal, esse desenvolvimento depende necessariamente da cooperação e esta só ocorre por meio da troca constante de conteúdos racionais.

Em todas as sociedades foi assim. Por mais que sempre houvesse algum tipo de variação dos sentidos e alguma diferença na interpretação que se dão às palavras e expressões, em geral, as pessoas nelas inseridas sempre possuíram referências, visões de vida, linguagem e compreensão semelhantes. Foi isso que permitiu que cada sociedade se desenvolvesse a sua maneira.

Atualmente, porém, já não é mais assim. Chegamos em um momento quando a impressão que se tem é que os tempos de concórdia acabaram, que a unidade de visão está se esvaindo e cada qual passa a ser determinador daquilo que existe, segundo sua própria maneira de enxergar o mundo.

O que eu quero dizer é que está havendo uma relativização tão gigantesca em relação ao sentido de todas as coisas que, cada vez mais, as pessoas enxergam-nas diferentemente umas das outras. Ainda que se refiram a elas com os mesmos nomes e ainda que pareçam estar falando sobre um mesmo fato, cada palavra, cada expressão, cada ideia parece evocar em cada pessoa percepções tão diversas que sequer parecem tratar-se de uma e mesma realidade.

E isso acontece não apenas por causa da relativização, mas tem origem em uma deterioração cultural que faz com que os indivíduos não possuam o instrumental intelectual mínimo para compreender o que é dito, senão segundo suas parcas capacidades e estreita visão.

Mistura-se, então, esses dois elementos venenosos, o rebaixamento cultural e a relativização, e temos a fórmula perfeita para uma sociedade fragmentada, individualista, no pior sentido desse termo, onde cada qual vive dentro de sua própria realidade e a comunicação torna-se cada vez mais difícil.

O resultado disso é a progressiva dificuldade dos concertos, dos acordos, das contribuições mútuas para o progresso dentro dessa sociedade. Quanto mais as pessoas não parecem falar a mesma língua, mais complicado fica que alimentem-se mutuamente com boas ideias e contribuam para o a manutenção e avanço dessa civilização.

Nosso mundo, por causa dos efeitos dessa discórdia linguística, semântica e simbólica, tem o sério risco de involuir, de retornar pouco a pouco à barbárie, quando os homens viviam essencialmente para sobreviver e ainda não haviam desenvolvido a razão suficientemente para construir uma sociedade que se parecesse com aquilo que convencionamos chamar de civilizada.

Retórica desperdiçada

Até meados do século XX a retórica fora jogada à margem dos estudos da linguagem, naquele afã pela busca de uma forma de dizer que pudesse ser rastreada cientificamente. Viu-se, porém, com o tempo, que isso, além de impossível, era simplesmente um desperdício das possibilidades que o estudo da arte do bem falar permite.

Um amigo que tinha língua de serpente

Tive um amigo, que depois descobri ser um psicopata, que tinha um talento muito peculiar: sempre que ele falava algo em um assunto potencialmente gerador de discórdia, fazia isso falando de uma maneira que sempre lhe era possível dar uma explicação segundo sua conveniência. Sabe quando a pessoa fala uma coisa que tem mais de um sentido, permitindo a escolha, conforme seu interesse, daquele que mais lhe apraz? Bem, ele era muito bom em fazer isso. O problema é que quando percebi essa sua capacidade, perdi completamente a confiança nele. Sabia que nada do que dizia era confiável. Na verdade, era impossível saber qual era o sentido real de suas palavras. E sempre que ele vinha com seu palavrório, não tinha como não me lembrar da tática da serpente, no Éden. De amigos assim, eu quero distância.