Retórica desperdiçada

Até meados do século XX a retórica fora jogada à margem dos estudos da linguagem, naquele afã pela busca de uma forma de dizer que pudesse ser rastreada cientificamente. Viu-se, porém, com o tempo, que isso, além de impossível, era simplesmente um desperdício das possibilidades que o estudo da arte do bem falar permite.

Um amigo que tinha língua de serpente

Tive um amigo, que depois descobri ser um psicopata, que tinha um talento muito peculiar: sempre que ele falava algo em um assunto potencialmente gerador de discórdia, fazia isso falando de uma maneira que sempre lhe era possível dar uma explicação segundo sua conveniência. Sabe quando a pessoa fala uma coisa que tem mais de um sentido, permitindo a escolha, conforme seu interesse, daquele que mais lhe apraz? Bem, ele era muito bom em fazer isso. O problema é que quando percebi essa sua capacidade, perdi completamente a confiança nele. Sabia que nada do que dizia era confiável. Na verdade, era impossível saber qual era o sentido real de suas palavras. E sempre que ele vinha com seu palavrório, não tinha como não me lembrar da tática da serpente, no Éden. De amigos assim, eu quero distância.