O esforço necessário ao exercício intelectual

Uma vida de esforço intelectual não é glamourosa

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Em uma cultura como a brasileira, tão avessa às questões mais elevadas, o empreendimento intelectual costuma ser visto como uma forma fácil de se viver, que não exige esforço, que não resulta em suor. As pessoas tendem a valorizar o esforço físico, vendo este como verdadeiro trabalho, enquanto quem passa o dia atrás de uma mesa, ainda que seja escrevendo uma enciclopédia, não tarda a ser chamado de sedentário.

O que muita gente não entende é que o esforço físico é muito menos exigente do que o esforço intelectual. Para aquele, basta o hábito, o movimento e logo todo o corpo tende à obediência. O esforço físico demanda, apenas, o impulso inicial. Normalmente, todo o resto pode ser feito com automatismo. Existe a fadiga, é verdade, mas elas chega apenas após a repetição do ato. O corpo humano, animal, é feito para a ação. Assim, com um pouco de vontade, ele não demora a obedecer e a trabalhar.

O cérebro, porém, não é tão obediente, assim. Ele reclama por muito mais; ele exige atenção. A mente não é tão submissa, como é o corpo. É que o esforço intelectual parece ir de encontro à natureza, mesmo a humana. Pensar, raciocinar, refletir pertencem a um nível superior de existência, que não se coaduna, de maneira tão espontânea, à esta tão bestial. Assim, o esforço intelectual torna-se excessivamente trabalhoso. Como ele exige atenção constante, diferente do exercício físico, que pede apenas um impulso, seguido por atos instintivos, se torna muito mais difícil mantê-lo por um tempo prolongado. Basta ver que para a grande maioria das pessoas é muito mais cansativo escrever uma carta, com dez linhas, do que pintar uma parede. As academias sempre estiveram mais cheias que as bibliotecas, e isso não é por acaso.

Se alguém, portanto, pretende empreender uma atividade que lhe demande esforço intelectual constante, deve ter consciência que se defrontará com uma batalha muito difícil. Deve saber que não bastará boa vontade, mas precisará aprender como superar, ainda que temporariamente, a fragmentação para a qual todos estão sendo conduzidos. E se quiser vencer esse embate, será preciso conhecer a natureza humana, com suas tendências e estrutura, além de compreender como o cérebro trabalha, seus caminhos, seus truques e suas reações.

Diferente do que muita gente pensa, uma vida de esforço intelectual não é glamourosa, que pode ser exercida nas pausas, nos momentos de recreação. Pelo contrário, ela exige entrega e, se for desenvolvida com seriedade, dificilmente sobrará muita energia para qualquer outra coisa.

Artigo publicado originalmente no blog Vida Independente

A entrega exigida do autor intelectual

A vida intelectual é um vai e vem constante de ideias que, como ondas, se aproximam e se afastam

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Para empreender uma vida intelectual produtiva, muita concentração é exigida. Não apenas aquela atenção necessária para o momento da produção, mas uma consciência quase intermitente das razões fundamentais e dos objetivos buscados. Como o trabalho intelectual, quase nunca, é fruto de um átimo, não basta separar momentos de isolamento e dedicação exclusiva, mas é preciso que a matéria da qual trata esteja constantemente na mente do autor.

Para que isso se torne realidade, o que ele deve achar é aquele pensamento essencial que será o alicerce de todos os outros. Sem ele, a produção intelectual é impossível. É por isso que é tão difícil esse empreendimento. Por isso, tão poucos enveredam por essa estrada. Eles sabem que não há nada mais tormentoso para o homem do que fazer com que seus pensamentos sejam claros e coordenados. O esforço exigido é muito grande. E não há nada no que sejamos mais preguiçosos do que no exercício mental.

Na verdade, a vida intelectual é uma vai e vem constante de ideias que, como ondas, se aproximam e se afastam. Às vezes, elas são nítidas e fortes, podendo ser descritas com fidelidade, outras vezes são apenas uma imagem pálida, distante, que dão apenas uma sugestão do que realmente são. Como o autor, porém, não sabe se na hora do seu trabalho essas ideias estarão próximas e nítidas ou distantes e indiscerníveis, seu desafio é, mesmo nos instantes de descanso, tornar tais pensamentos mais constantes e mais claros, a fim de que possam ser colhidos a qualquer momento.

O que eu quero dizer é que quem produz algum trabalho intelectual não pode ficar à mercê da inspiração ou do insight. Eles são úteis e, muitas vezes, são o início de um trabalho relevante. Mas a obra intelectual, mais que o compartilhamento de momentos de genialidade, é o desenvolvimento de algo grandioso, que se revela aos poucos, até se mostrar como uma obra sólida e bem trabalhada.

De fato, um trabalho intelectual é mais do que o reflexo de uma inteligência arguta, mas o produto de uma mente insistente, que, o tempo todo, procura dar cores nítidas a ideias que, em princípio, são apenas pensamentos lívidos.

Por isso, diz-se que a vida intelectual é uma entrega. Quem decide por ela, não mais tem a paz dos ignorantes, que amortecem seus cérebros, evitando exercitá-los na tentativa de compreensão da realidade. Quem escolhe a vida intelectual deve saber que, a partir desse momento, terá a tensão como companheira, pois os elementos a serem concatenados são diversos, os recursos para juntá-los, escassos, e a energia para unificá-los, reduzida.