O nazismo não é de (extrema) direita

O extremo de algo é aquilo que se encontra na parte mais limítrofe de sua manifestação. É aquilo que pode ser considerado o exagero de um aspecto qualquer. Por isso, são chamados de extrema-esquerda aqueles que levam à últimas consequências os aspectos próprios do esquerdismo: estatismo, pensamento revolucionário e anti-capitalismo.

Porém, segundo o amigo do jornalista Guga Chacra, o acadêmico Michel Gherman, em um artigo publicado no Estadão, o nazismo é de extrema-direita exatamente por representar algo que é o contrário do que caracteriza a direita: o corporativismo. Diferente do que dá a entender o professor, o corporativismo sempre foi uma característica dos governos mais alinhados ao progressismo, principalmente nos Estados Unidos, onde ele existiu com mais força. Foram os governos de Wilson e Roosevelt que mais o favoreceram. Isso porque o corporativismo representa uma simbiose entre grandes empresas e o governo, mantendo este no controle da economia e ditando as regras do mercado. Além disso, o corporativismo afeta aquilo que é o centro do pensamento de direita: a livre concorrência. Se aceitarmos que o favorecimento do corporativismo é algo da direita, o que sobra para a esquerda: apenas o comunismo radical, com sua total abolição da propriedade privada? Ora, nem os esquerdistas querem isso.

O que caracteriza, de fato, a direita é exatamente o favorecimento do livre-mercado, do Estado pequeno e do pensamento político conservador. Para ser extrema-direita, portanto, seria necessário que essas características fossem elevadas ao máximo. Um direitista extremo precisaria ser radicalmente contra a regulação econômica, contra o Estado e fortemente conservador. Alguém de extrema-direita seria quase um libertário, por assim dizer, com exceção do aspecto do conservadorismo. Chamar o nazismo de extrema-direita, portanto, não tem nenhum sentido.

O fato é que afirmar que o nazismo era de extrema-direita é, como sempre foi, apenas um truque retórico, usado para esconder seu caráter revolucionário e semelhante ao esquerdismo de todas as épocas.

 

O deputado que cindiu a direita no Brasil

jair BolsonaroComo, no Brasil, a direita ainda é nascente e não chegou a estabelecer bem suas convicções e objetivos, até aqui ela se caracterizou principalmente pelo seu anti-esquerdismo, mais especificamente pelo seu anti-petismo. O partido de PT e Lula fez com que todos que não fossem a seu favor, de alguma maneira de unissem contra ele, dando a impressão que o bloco opositor era algo minimamente coeso.

Quando eu lia em autores conservadores estrangeiros, como Russell Kirk, uma crítica ferrenha aos liberais, chegando até a um certo desprezo em relação a eles, aquilo me parecia estranho e exagerado. A percepção do que se via aqui no Brasil era, sim, de certas diferenças entre os direitistas, mas que pareciam ser divergências marginais, que não afetavam a coesão do grupo.

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Dra. Janaína, o que a senhora entende por direita não é isso aí, não

Essa confusão entre as ideias e as pessoas acaba gerando erros de avaliação, estigmatizando um lado ou beatificando o outro. Percebi isso, claramente, na resposta que a dra. Janaina Paschoal (que, aliás, teve uma participação muito coerente e muito esclarecedora no programa Roda Viva, juntamente com Helio Bicudo, que tratava sobre o pedido de impeachment da presidente Dilma) deu a um jornalista, quando indagada sobre em qual vertente política ela se encaixaria. A advogada, após titubear um pouco, deu uma resposta mais ou menos nesta linha: que não se enxergava de esquerda porque via que as ideias esquerdistas estavam erradas, mas também não se via de direita porque, segundo ela, os direitistas costumam ser a favor de abusos aos direitos humanos e preconceitos. Você percebe o erro de avaliação aqui? Quando ela julga a direita, não faz isso baseada nas ideias da direita, mas no estereótipo dos direitistas criado dentro da cabeça dela. Em nenhum momento ela aponta o que a direita defende, de fato, como a redução do Estado, a defesa da família, o apoio à livre iniciativa. Se atém, apenas, no que ela acha que os ditos direitistas fazem e aí está seu erro. Mesmo pessoas inteligentes estão sujeitas a se confundir dessa maneira. Julgando as ideias com base nas pessoas elas, muitas vezes, rejeitam o que é bom e acolhem o que é mau. Por isso, repito, é preciso conhecer, antes, as ideias e compreendê-las. Só assim é possível fazer um julgamento coerente.

A falsa disputa entre Direita e Esquerda

Há alguns textos, que circulam pela internet, que se referem às atuais discussões sobre a realidade brasileira como sendo um mero embate de ideologias. Afirmam, sem pudor, que está havendo uma disputa entre Direita e Esquerda, com cada um dos lados buscando demarcar sua posição. Ocorre que tal afirmação nada mais é do que um truque para rebaixar o valor dos argumentos, principalmente do lado anti-esquerdista. Agrupar todos os que criticam às políticas da Esquerda em uma entidade denominada Direita é uma simplificação que facilita muito sua desvalorização.

A partir do momento que um lado é todo chamado de Direita e que esta não passa de uma manifestação ideológica, tudo o que é dito por aqueles que são forçosamente encaixados nesse espectro não passa de exposição de interesses. Obviamente, essa tática é usada por articulistas afeiçoados exatamente às ideias da Esquerda. Claro, eles mesmos tentam se apresentar como neutros, mas basta uma breve análise de seus argumentos para perceber uma clara identificação com as propostas progressistas e liberalizantes defendidas abertamente pela Esquerda.

Nisso tudo, se há uma grupo que pode ser chamado ideológico, este é claramente o contido por esquerdistas. São eles que desejam transformar a sociedade; eles têm um sonho utópico a ser realizado; eles pretendem implantar um paraíso nesta terra.

Do outro lado, que esses articulistas tentam agrupar em uma entidade chamada Direita, mas que, em sua maior parte, é formado por indivíduos livres, diversos, sem vínculos políticos e que sequer têm uma ideia clara sobre qual é o melhor caminho que uma sociedade deve tomar, se encontram apenas opiniões espontâneas de indignação contra os rumos que a Esquerda está dando à nação. O que esses críticos sabem é que há valores que precisam ser preservados, como a família, a vida, a liberdade e a fé. Porém, isso não significa que possuam uma proposta social definitiva, nem que acreditem que possam apresentar um plano de solução para o país.

Aqueles que são chamados de Direita, na verdade, são apenas contra a política prática que a Esquerda implanta. Menos por causa das promessas socialistas e mais por perceberem que tais promessas são apenas uma cortina de fumaça para a implantação de uma ditadura velada, que se coloca, principalmente, contra os que não concordam com sua ideologia.

A Direita no Brasil, se existe, é uma entidade amorfa. Chamá-la de ideologia é ignorar, ou fingir que não sabe, que entre aqueles que não fazem parte da Esquerda, não há comunhão clara de ideias, não há propostas definidas, não há sequer organização política.

Mas tal simplificação é até compreensível, afinal, historicamente, os esquerdistas costumam acusar seus inimigos daquilo que eles mesmos são.Postado com o Blogsy