Escrita organizadora

A escrita, para alguém que costuma refletir com alguma profundidade sobre a vida, tem uma função muito bem definida.

É que as ideias, enquanto estão ainda em forma de pensamentos, residem na mente de maneira confusa.

O conhecimento, quando na mente, não costuma estar ordenado. Ainda que saibamos algo, esses dados estão soltos dentro de nós. Sabemos que sabemos, temos consciência que conhecemos, mas apenas quando precisamos comunicar o assunto é que percebemos que esse conhecimento não tem ordem, mas trata-se de um emaranhado de ideias que, de alguma maneira, interconectam-se.

Geralmente, apenas quando precisam ser expostas, é que as ideias recebem alguma ordenação. Só quando um pensador escreve o que pensa é obrigado a se preocupar com a ordem e a coerência de seus pensamentos.

Assim, escrever, passa a ser, antes de uma necessidade de compartilhamento, uma necessidade de ordenação. O escritor escreve para, antes de tudo, arrumar a bagunça que existe em sua própria cabeça.

Essa, pode-se dizer, acaba sendo a primeira função da escrita: organizar o que até ali era apenas confusão.

A função terapêutica da escrita

Fiquei fora do ar durante esta semana por um problema de saúde ocorrido com minha sogra, o que me fez ter de participar do cuidado de vários trâmites necessários para sua recuperação.

Depois de quatro dias correndo para todos os lados e não tendo tempo para nada mais, falei para minha esposa que precisava parar um pouco para escrever.

Ela não entendeu essa afirmação, de princípio – como que uma pessoa, que tem tanta coisa para fazer e com tantas preocupações para resolver, pode pensar em parar para escrever qualquer coisa e achar que isso tem alguma importância?

Então, expliquei para ela como escrever tinha, para mim, uma função terapêutica. Meus leitores, no fundo, são como meus psicólogos, que me escutam, me analisam e até, de alguma forma, me aconselham.

Explico esta última parte: o aconselhamento da audiência faz-se por meio de minha própria consciência. Um escritor precisa saber para quem escreve e, ao preparar-se para sua audiência, antecipar-se ao julgamento que ela fará sobre seu escrito. Assim, ao mesmo tempo que escreve, julga-se, censura-se, elogia-se – com seus leitores agindo sobre ele por meio de sua própria consciência.

Assim, escrever não é apenas um ato de expressão, mas de troca. Os leitores, reais e ideais, estão como ao lado do escritor, aconselhando-o, redarguindo, exortando-o e direcionando-o.

Era isso que estava me fazendo falta e que eu precisava resgatar. Depois de quatro dias de silêncio, a fim de recobrar minhas energias mentais, eu precisava separar este tempinho para registrar algumas ideias.

Claro, acompanhado de vocês que, sabendo ou não, estão sempre aqui ao meu lado enquanto escrevo.

A entrega exigida do autor intelectual

A vida intelectual é um vai e vem constante de ideias que, como ondas, se aproximam e se afastam

*

Para empreender uma vida intelectual produtiva, muita concentração é exigida. Não apenas aquela atenção necessária para o momento da produção, mas uma consciência quase intermitente das razões fundamentais e dos objetivos buscados. Como o trabalho intelectual, quase nunca, é fruto de um átimo, não basta separar momentos de isolamento e dedicação exclusiva, mas é preciso que a matéria da qual trata esteja constantemente na mente do autor.

Para que isso se torne realidade, o que ele deve achar é aquele pensamento essencial que será o alicerce de todos os outros. Sem ele, a produção intelectual é impossível. É por isso que é tão difícil esse empreendimento. Por isso, tão poucos enveredam por essa estrada. Eles sabem que não há nada mais tormentoso para o homem do que fazer com que seus pensamentos sejam claros e coordenados. O esforço exigido é muito grande. E não há nada no que sejamos mais preguiçosos do que no exercício mental.

Na verdade, a vida intelectual é uma vai e vem constante de ideias que, como ondas, se aproximam e se afastam. Às vezes, elas são nítidas e fortes, podendo ser descritas com fidelidade, outras vezes são apenas uma imagem pálida, distante, que dão apenas uma sugestão do que realmente são. Como o autor, porém, não sabe se na hora do seu trabalho essas ideias estarão próximas e nítidas ou distantes e indiscerníveis, seu desafio é, mesmo nos instantes de descanso, tornar tais pensamentos mais constantes e mais claros, a fim de que possam ser colhidos a qualquer momento.

O que eu quero dizer é que quem produz algum trabalho intelectual não pode ficar à mercê da inspiração ou do insight. Eles são úteis e, muitas vezes, são o início de um trabalho relevante. Mas a obra intelectual, mais que o compartilhamento de momentos de genialidade, é o desenvolvimento de algo grandioso, que se revela aos poucos, até se mostrar como uma obra sólida e bem trabalhada.

De fato, um trabalho intelectual é mais do que o reflexo de uma inteligência arguta, mas o produto de uma mente insistente, que, o tempo todo, procura dar cores nítidas a ideias que, em princípio, são apenas pensamentos lívidos.

Por isso, diz-se que a vida intelectual é uma entrega. Quem decide por ela, não mais tem a paz dos ignorantes, que amortecem seus cérebros, evitando exercitá-los na tentativa de compreensão da realidade. Quem escolhe a vida intelectual deve saber que, a partir desse momento, terá a tensão como companheira, pois os elementos a serem concatenados são diversos, os recursos para juntá-los, escassos, e a energia para unificá-los, reduzida.