O intelectual e o mundo

Se a vida intelectual não proporcionar algum tipo de isolamento é sinal que não é tão intelectual assim, afinal, alguém que se preocupe com temas que a maioria das pessoas sequer têm ideia que existem não pode pretender gozar de uma vida social plena. É impossível evitar que o esforço para compreender assuntos que, aos olhos comuns, aparentam ser absolutamente inúteis e gastar tempo com conhecimentos que não produzem nada palpável, seja visto como algo prosaico e seu sujeito tratado como normal.

Carregar livros, em uma sociedade que aprendeu que o valor de cada coisa mede-se por sua utilidade tangível, pode até merecer algum destaque, até mesmo um elogio não efusivo, mas não impede que o vejam como um excêntrico que joga fora o melhor desta vida por algumas letras em papel. E se o intelectual tem a ousadia de compartilhar aquilo que aprendeu com seus mestres mortos, começa a abusar do direito à excentricidade permitida pelos comuns. Uma coisa é gostar de enfadar-se com as besteiras publicadas, outra é achar que tem o direito de incomodar os mortais com isso.

É impossível, portanto, impedir que haja um certo afastamento do intelectual em relação ao restante da sociedade. Se as pessoas que o cercam não demonstram nem um pouco de interesse por aquilo que lhe apraz e lhe dá sentido, esperar que haja perfeita harmonia entre ambos é de uma inocência incrível.

E apesar da inevitável tensão que existe entre o intelectual e o mundo que o cerca, cabe a ele, assumindo a posição que seu status lhe oferece, fazer algo que o aproxime da humanidade, ainda que ela não esteja tão excitada por tê-lo por perto. Afinal, se é ele quem tem acesso às grandes idéias, à sabedoria que os grandes homens compartilharam e se é ele que se dispõe a compreender a realidade, então cabe também a ele agir de maneira superior ao homem comum. E por mais que a reação das pessoas ante ao seu interesse pelas coisas da inteligência seja, por vezes, até hostil, é obrigação de quem se dispôs a viver além do trivial mostrar que suas leituras não são em vão.

Não que o intelectual deva ceder às superficialidades, nem abandonar seus interesses em favor de um mundanismo vazio, que apenas agrada quem dele se alimenta. No entanto, se seu esforço pela compreensão da vida não lhe propiciar uma capacidade de aproximação mesmo junto aqueles que não entendem seu papel, então tanto estudo não serve para muita coisa.

O esforço necessário ao exercício intelectual

Uma vida de esforço intelectual não é glamourosa

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Em uma cultura como a brasileira, tão avessa às questões mais elevadas, o empreendimento intelectual costuma ser visto como uma forma fácil de se viver, que não exige esforço, que não resulta em suor. As pessoas tendem a valorizar o esforço físico, vendo este como verdadeiro trabalho, enquanto quem passa o dia atrás de uma mesa, ainda que seja escrevendo uma enciclopédia, não tarda a ser chamado de sedentário.

O que muita gente não entende é que o esforço físico é muito menos exigente do que o esforço intelectual. Para aquele, basta o hábito, o movimento e logo todo o corpo tende à obediência. O esforço físico demanda, apenas, o impulso inicial. Normalmente, todo o resto pode ser feito com automatismo. Existe a fadiga, é verdade, mas elas chega apenas após a repetição do ato. O corpo humano, animal, é feito para a ação. Assim, com um pouco de vontade, ele não demora a obedecer e a trabalhar.

O cérebro, porém, não é tão obediente, assim. Ele reclama por muito mais; ele exige atenção. A mente não é tão submissa, como é o corpo. É que o esforço intelectual parece ir de encontro à natureza, mesmo a humana. Pensar, raciocinar, refletir pertencem a um nível superior de existência, que não se coaduna, de maneira tão espontânea, à esta tão bestial. Assim, o esforço intelectual torna-se excessivamente trabalhoso. Como ele exige atenção constante, diferente do exercício físico, que pede apenas um impulso, seguido por atos instintivos, se torna muito mais difícil mantê-lo por um tempo prolongado. Basta ver que para a grande maioria das pessoas é muito mais cansativo escrever uma carta, com dez linhas, do que pintar uma parede. As academias sempre estiveram mais cheias que as bibliotecas, e isso não é por acaso.

Se alguém, portanto, pretende empreender uma atividade que lhe demande esforço intelectual constante, deve ter consciência que se defrontará com uma batalha muito difícil. Deve saber que não bastará boa vontade, mas precisará aprender como superar, ainda que temporariamente, a fragmentação para a qual todos estão sendo conduzidos. E se quiser vencer esse embate, será preciso conhecer a natureza humana, com suas tendências e estrutura, além de compreender como o cérebro trabalha, seus caminhos, seus truques e suas reações.

Diferente do que muita gente pensa, uma vida de esforço intelectual não é glamourosa, que pode ser exercida nas pausas, nos momentos de recreação. Pelo contrário, ela exige entrega e, se for desenvolvida com seriedade, dificilmente sobrará muita energia para qualquer outra coisa.

Artigo publicado originalmente no blog Vida Independente