Feiúra no mundo e no pincel

A arte moderna, principalmente na pintura, teve um grande impulso com a invenção da máquina fotográfica. Quando pareceu já não mais ser necessário retratar o mundo, pois a tecnologia prometia fazer isso, boa parte dos artistas passou a preocupar-se mais com as questões internas da arte, como a forma e o método, além de tentar expor menos o que viam e mais o que sentiam.

Nisso está, grosso modo, a origem dos ismos que inundaram o mundo contemporâneo com sua nova proposta artística. O impressionismo, praticamente como o movimento raiz, mas, principalmente, os posteriores, como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo, o dadaísmo entre tantos outros, conduziram a arte a uma manifestação muito mais egocêntrica e subjetiva, praticamente arrancando a possibilidade de novos retratos de realidade que expressassem a natureza de uma maneira bela. Tanto que, a partir do fim do século XIX, não surgem mais grandes pintores que tentassem retratar a realidade de uma maneira fiel ou idealizada.

Isso, ao menos para mim, representa uma grande perda. Com a vitória da arte modernista, praticamente ficamos órfãos de pinturas que conseguissem expressar a beleza da vida conforme percebemos com nossos olhos e nossos sentidos. E, na minha opinião, isso ocorreu por uma percepção equivocada das possibilidades da fotografia. Se é verdade que ela é capaz de captar o momento, todavia ela não consegue escolher o momento que capta. E menos ainda é possível para o fotógrafo retratar um momento imaginado, idealizado e belo. Nem mesmo a fotografia consegue, a não ser por um lance de muita sorte, captar um momento único e inesquecível, o que o pintor poderia fazer, bastando algum talento e técnica, apenas expondo aquilo que reteve em sua memória.

Foi Claude Lorrain que deu início à chamada peinture de genre, ao desenhar belas paisagens, que extasiavam quem as contemplasse. Suas obras foram tão influentes que passaram a servir de modelo para jardins e campos da vida real, em relação aos quais seus proprietários gastavam rios de dinheiro para os deixarem o mais parecidos com os quadros do pintor francês. Atualmente, não há mais nada disso. Não encontramos mais trabalhos que causem esse tipo de efeito.

Hoje, pelo desenrolar dos movimentos artísticos, perdemos essa possibilidade. Não há mais grandes artistas que se dediquem a oferecer-nos pinturas que expressem momentos únicos, modelos de beleza, que nos façam, nem que seja por alguns instantes, mais felizes.

Nosso mundo está mais feio, não apenas na realidade dos olhos, mas também na tinta dos pincéis.

A libertação da ditadura do grotesco

Ontem tivemos o estranho privilégio de ouvir, em um mesmo dia, o pronunciamento de dois presidentes do Brasil. Mais cedo, escutamos a presidente impedida, que, na verdade, deveria estar interditada, falando como uma candidata à vereadora na Câmara Municipal de Parari, atropelando as ideias, desrespeitando as normas, não da linguagem culta, mas mesmo da coloquial, se comunicando, não com a sociedade brasileira, mas apenas com sua militância, e que nos fez ver ali a síntese de sua própria alma mesquinha e rasa.

Mais tarde, quem discursou foi o atual presidente, Michel Temer, que, claramente bem preparado para o momento, nos brindou com um linguajar polidíssimo, com o uso de expressões e formas que a última década quase nos fez esquecer que eram passíveis de serem usadas por um presidente da República, além de se dirigir claramente à totalidade da nação, tentando passar uma ideia de recomeço e união.

A comparação entre os dois pronunciamentos me fez refletir o quanto os treze anos de PT no governo nos conduziu para uma relação degenerada com as coisas.

A ideologia dos petistas destila um ódio evidente contra tudo o que parece superior. Seja o correto uso da língua portuguesa, a valorização dos modos e da beleza, o respeito às tradições – tudo isso é ignorado, quando não repugnado, por eles. Durante esse tempo que permaneceram no Planalto, o que vimos mais crescer no Brasil foram a degradação da moral, a ruína dos bons costumes, a valorização do grotesco, o louvor do obsceno, o desprezo completo à ordem e a harmonia, o vilipêndio à formosura.

Por trás de tudo isso esteve o governo e seus milhares de comissionados e financiados promovendo, em todos os cantos do país, uma ideologia que valorizou apenas os sentimentos mais baixos, com a exaltação da ignorância, da feiúra e da imoralidade.

O problema é que passada mais de uma década praticamente apenas ouvindo a oratória governista, chegou um momento que as pessoas pareciam não mais perceber o quanto de baixeza e aviltamento estava contido em todas aquelas manifestações. Por mais que percebessem que havia algo de errado, já não era possível identificar o problema, pois os governos de Lula e Dilma monopolizaram a linguagem, a estética e a moral, de tal maneira, que quase não sobrou espaço para outras formas de expressão, senão aquela que lembrava conversas de bar, pagodes na laje e reuniões de DCE.

Quando, porém, como que por um passe de mágica, o nevoeiro se dissipou, e tivemos a oportunidade de ouvir um homem culto falando como presidente da República, parece que nossa sensibilidade, que estava entorpecida por anos de envilecimento, se aguçou, e pudemos perceber como estávamos envolvidos em um ambiente corrompido, em todos os sentidos.

É impressionante como os petistas exaltam o que é feio. Pablo Capilé, Jandira Feghalhi, Eurenice Guerra, Graça Foster são modelos da feiúra petista. Mas, não se enganem, a fealdade deles não é apenas o azar de não terem sido beneficiados pela natureza. Eu, que tenho uma esposa que trabalha com a beleza feminina, sei, muito bem, o que um bom corte de cabelo, uma maquiagem, uma roupa bem escolhida e, principalmente, a boa vontade podem fazer para transformar o feio em, no mínimo, agradável.

A feiúra petista, portanto, não é um azar, mas uma escolha. São feios porque querem, porque isso lhes identifica. São feios porque a exaltação da feiura está já impregnada em suas almas. Assim escolhem, como forma de mostrar que não estão preocupados com as convenções e as tradições burguesas. E, pior, impõem sobre todos essa visão corrompida da realidade.

Por isso, de tudo o que o afastamento do PT nos liberta – da corrupção, da má gestão, da política ruim, o mais importante, eu não tenho dúvidas, é da ditadura do grotesco.