Amigos envergonhados do rei

Não se enganem! Entre estes que dizem que não votam em nenhum dos dois candidatos na disputa eleitoral, boa parte é formada por gente que gostaria muito de votar no PT. São empresários, artistas e políticos que somente não declaram seu apoio à organização criminosa porque isso não é bom diante da opinião pública.

No entanto, eu não me iludo quanto à mentalidade desses partidários do isentismo. Sei bem quem eles são e como se acostumaram ao conluio com o poder e ao aproveitamento das benesses do Estado em favor de seus negócios e atividades. Repito: eles apenas não estão declarando seu apoio ao PT por falta de clima favorável para isso.

Por acaso, alguém duvida que mamadores de empréstimos generosos do BNDES, aproveitadores das facilidades da Lei Rouanet, beneficiários de anistias fiscais personalizadas e amigos do rei, que são protegidos pelo governo contra os riscos do livre mercado, gostariam que o sistema mudasse tão bruscamente de direção? Vocês acham que gente que ganhou tanto nos anos de direção petista está à vontade com um próximo governo que está prometendo acabar com os privilégios e estimular a concorrência?

Eles não declaram seu apoio ao PT porque não pega bem, mas, se pudessem, assim fariam, porque o problema deles não é com a política petista. Pode ser que eles se incomodem, um pouco, com a roubalheira da quadrilha, afinal, ninguém gosta de ver seu nome vinculado a bandido. No entanto, é certo que as benesses que eles sempre tiveram por meio desse partido é algo que, certamente, não gostariam perder.

O discurso de neutralidade não tem nada de neutro

A pretensão de neutralidade pode parecer, à primeira vista, uma atitude de bom senso. No entanto, ela revela muito mais as verdadeiras preferências da pessoa do que ela tinha intenção de mostrar. E apesar de não querer se apresentar como vinculada a nenhum dos lados, acreditando que assim passará uma imagem de equilíbrio – diferente de tantos radicais que andam por aí -, acaba apenas revelando que sua posição já está definida de antemão.

Ser neutro, principalmente em política, está longe de significar não ter opiniões. Pelo contrário, denota convicções muito bem definidas. O que a pessoa pretende, ao afirmar neutralidade, é desvincular-se de qualquer identificação com um dos lados do espectro político. No entanto, sua opção pela neutralidade, por não ser abstenção, mas escolha, invoca definições claras, sempre.

E o mais revelador nisso é que tal neutralidade, no fim das contas, longe de afastar a pessoa dos opostos, identifica-a com um deles. Porque o que separa os lados é uma linha tênue que não permite, na maior parte das vezes, que haja noções intermediárias entre eles.

Na verdade, em argumentação não existe escolha neutra, mas há uma escolha que parece neutra, como diz Chaim Perelman. Com efeito, evocar a neutralidade é apenas uma tática de engano. Quem o faz, busca aparentar isenção, mas tem suas convicções muito bem fundamentadas.

Veja o caso da chamada terceira via, que se apresentou como uma alternativa à polarização política entre direita e esquerda, mas, de fato, se mostrou apenas mais uma versão, ainda que levemente atenuada, do pensamento socialista.

Alguns ainda tentam colocar-se como em um centro, como se isso representasse um posicionamento superior e livre de extremismos. No entanto, em política, o centro tem servido apenas ao clientelismo e ao conchavo, ao permitir que quem ali se encontra possa se aproximar de qualquer um dos pólos conforme seus próprios interesses e de acordo com as circunstâncias.

Por isso, desconfio de todo discurso que tenta aparentar-se neutro. Fujo dos políticos que dizem-se de centro. E mesmo Deus afirma sobre eles – que são os mornos citados nas Escrituras – que vomitá-los-á de sua boca.