Fenômeno incomparável

João Pereira Coutinho ficou assustado com a recepção a Jair Bolsonaro que ele presenciou em um aeroporto. Diante disso, escreveu um artigo demonstrando preocupação com o que entendeu ser uma demonstração de fanatismo.

Na verdade, o cronista português não entendeu absolutamente nada desse fenômeno e eu até o compreendo. Seu julgamento tem base em referências históricas.

O que ele não percebeu, porém, é que este é um fenômeno de tempos incomparáveis. Tempos da espontaneidade dos meios digitais. Se ele obervasse bem, perceberia como até os mais exaltados apoiadores de Bolsonaro conhecem os defeitos do capitão. Ainda que muitos não gostem de expo-los, têm consciência que eles existem. Outro fator, que é mais decisivo nesse sentido, é o fato de que essas pessoas estão aceitando as propostas de campanha que o candidato tem apresentado, mesmo sendo estas, em sua maioria, as menos populistas da história das campanhas eleitorais brasileiras.

O que o senhor Coutinho não percebeu é que, dessa vez, o povo não está vendo seu candidato com um guia intocável e inerrante, mas sim como um instrumento canalizador de seus anseios. Não vê nele alguém que vai salvá-lo, mas alguém que não vai fodê-lo. No fundo, Bolsonaro não está usando o povo, mas o povo está usando-o para ter alguma voz na cúpula dos poderes da República.

As manifestações de apoio podem até ser parecidas com outras na história, mas, substancialmente, elas são uma novidade.

Pobres sem alma – os revolucionários

Aqueles que perdem o contato com suas próprias almas estão prontos para aderir a uma grande causa. São os frustrados que não podem mais suportar o peso de sua irrelevância, que não aguentam mais a mediocridade de sua existência, os que se lançam nos movimentos coletivos. O mais importante, de fato, não são as ideias, nem os projetos, mas, simplesmente, o tomar parte em algo que pode lhes prometa uma identidade.

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