O que minha filosofia não é

Minha filosofia não é cristã, mas influenciada pelo cristianismo. Não é cristã, mas balizada por ele. Seria cristã se partisse da religião cristã, o que não acontece.
 
Se o que eu penso partisse da doutrina, estaria eu fazendo pura teologia, o que eu não faço. Se minhas conclusões fossem a síntese do ensinamento cristão, não haveria filosofia alguma, só raciocínio doutrinário, o que também não faço.
 
Agora, se tenho o ensinamento cristão como um juiz ou um pedagogo (Clemente de Alexandria), então estou livre para exercer minha filosofia tranquilamente, sabendo que tenho o melhor orientador que o mundo jamais poderia me dar.
 
Não há nisso qualquer pretensão de autonomia, nem negação da fé. Apenas é uma questão de método que, no fim das contas, deságua no mesmo mar eterno.

A farsa do pensamento autônomo

Uma farsa perigosa é a crença no pensamento autônomo, independente. Tem muito intelectual que acredita que suas ideias nasceram do ventre da sua razão, quando, na verdade, sua razão é que é fruto de uma tradição e de uma cultura. O máximo que podemos fazer é, depois de uma grande maturação e experiência, além de um certo talento, acrescentar um pontinho a esse universo herdado.

Inteligência e confusão

Mais do que burras, as pessoas são confusas. Muito daquilo que chamamos de burrice nada mais é do que a dificuldade de colocar em ordem os pensamentos, de maneira que eles se tornem claros o suficiente para permitir entender a realidade.
 
Mesmo pessoas de nível cultural inferior, dentro daquilo que seu conhecimento lhes permite saber, poderiam pensar com muito mais claridade se aprendessem a organizar aquilo que está na cabeça delas.
 
É por isso que vemos tantos considerados intelectuais falando asneiras e tomando posições estúpidas. Por mais que tenham muitas informações em suas cacholas, estas são apenas um emaranhado de dados, sem conexão, sem ordem, sem sentido.

A universalização da experiência pessoal

Um dos erros básicos de raciocínio, que eu vejo uma infinidade de pessoas cometendo, é a universalização da experiência pessoal. Fulano toma algo que aconteceu com ele e disso tira a teoria para todos as outras situações similares. Bastou ele ter um patrão injusto e já toma todos os patrões por injustos, foi só tomar um chifre da mulher e toma todas as mulheres por infiéis. Inclusive, eu mesmo poderia estar universalizando isso que observei, se não fosse o fato de ver a situação ocorrendo o tempo todo e com tanta gente, além de ter lido em outros autores a mesma observação, que já é possível dizer que trata-se de uma verdadeira epidemia.

Se levarmos em conta que as experiências dependem ainda da interpretação que cada um dá a elas, temos então uma infinidade de teorias baseadas não apenas no que cada um viveu, mas na interpretação que cada um deu a determinada situação. É o império do subjetivismo a todo vapor!

Tal equívoco de pensamento tem sido a base de diversas teorias que são vistas por aí. De doutrinas religiosas a concepções políticas, poucos se esforçam por absterem-se, ainda que temporariamente, de suas experiências mais imediatas, para prestarem um pouco mais de atenção ao que acontece com outras pessoas e assim tirar suas conclusões de maneira mais embasada e sólida. Não! Preferem já defender que as coisas são de tal maneira exatamente porque elas mesmas experimentaram aquilo como a descrevem.

Tal erro é ainda alimentado por uma característica dos nossos tempos, que é a exaltação exacerbada do sentimento pessoal. Em um mundo que aprendeu a valorizar a expressão íntima do indivíduo em detrimento dos dados que lhe são oferecidos desde fora e desde antes, como dos seus antepassados, acreditar que sua percepção diante de um fato representa uma verdade universal não é nenhuma surpresa.

Então, o que temos é uma infinidade de pessoas, com uma infinidade de experiências, dando uma infinidade de interpretações, causando uma infinidade de teorias. Não é à toa que aparece uma nova solução para cada situação a cada nova semana. As prateleiras das livrarias entopem-se disso. As redes sociais, então, transbordam.

Somos o que pensamos

Se há uma determinação bíblica para o arrependimento, para a conversão, para a escolha em favor de uma vida virtuosa, de uma vida com fé, isso significa que há, dentro de cada pessoa, a capacidade de decidir seu destino. Portanto, pode-se dizer que o que somos, e o que nos tornamos, é, de alguma maneira, fruto das escolhas que fazemos. E nestas escolhas se encontram, não apenas as atitudes a serem tomadas, as decisões práticas da vida, como a profissão que devo escolher, com quem devo casar ou qual igreja frequentar, mas (e, talvez, principalmente) os conteúdos que serão assimilados no decorrer da existência e que, certamente, irão moldar a forma de pensar, a própria visão das coisas e do mundo.

Por isso, a importância de não ser um personagem passivo na relação com aquilo que será absorvido durante a vida. A pessoa não pode, simplesmente, deixar com que os conteúdos venham até ela, sem qualquer critério, sem que haja uma seleção, sem refletir sobre a conveniência, sobre a utilidade do que está absorvendo. Se o indivíduo é o responsável por sua vida, então essa responsabilidade inclui também aquilo que ele consome e que irá, certamente, refletir em seu próprio caráter.

É por isso que o apóstolo Paulo, em sua carta à Igreja em Filipos (Fp 4.8), aconselha as pessoas a pensar naquilo que é verdadeiro, honesto, puro, amável e de boa fama. Ele insiste que nestas coisas elas devem meditar, nelas devem refletir. E esta não é uma mera determinação moral, mas um aconselhamento prático que, acatado ou não, aí, sim, trará consequências morais óbvias, apesar de diferidas.

Isso porque o que nós pensamos acaba sendo, de alguma maneira, aquilo que nós somos. E o que se encontra nas palavras de Paulo é o reconhecimento de como aquilo que nós absorvemos e recolhemos dentro da nossa mente acaba sendo o que irá definir quem nós seremos.

Nisto, fica evidente a seriedade da escolha que fazemos em relação aquilo que lemos, ouvimos e vemos. E também, obviamente, daquilo que deixamos de ler, ver e ouvir. Porque algumas pessoas acabam acreditando que, se o que absorvemos pode nos prejudicar, é melhor não absorver nada. Grande erro!

O problema é que não assimilar nenhum conteúdo é impossível. Quem não seleciona o que consome, o que absorve, se torna um sujeito passivo, assimilando, ainda que de maneira inconsciente, tudo o que aparece em sua frente. Não há como se fechar às influências externas, para os dados com os quais se deparam cotidianamente. O máximo que se pode alcançar é tornar-se consciente desse processo e tentar separar o que deve ser absorvido daquilo que deve ser rejeitado.

O preceito bíblico aqui trata exatamente dessa capacidade humana de escolher o que pode ser bom e útil, e rejeitar o que é prejudicial. É importante frisar que o texto não trata apenas de rejeição, mas de escolhas. O que o apóstolo aconselha é que as pessoas pensem naquilo que eleva, que conduz a uma vida superior, que aproxima da verdade e de Deus.

No fim das contas, a Bíblia está afirmando que o homem se transforma naquilo que ele pensa. Se pensa em coisas boas e superiores, vai se tornar alguém elevado e superior. Porém, quem enche a cabeça de lixo, não tenha dúvida alguma, que é em lixo que irá se transformar.